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As recorrentes brigas entre ambulantes irregulares por pontos de venda na Rodoviária do Entorno, no antigo Touring, já anunciavam a tragédia ocorrida na tarde dessa terça-feira (4/7), que deixou Maria Célia Rodrigues dos Santos, 38 anos, e Welington Rodrigues Santos Silva, 22, — mãe e filho — mortos. Uma terceira familiar ficou ferida com um tiro na barriga e segue hospitalizada. O assassino e as vítimas se desentendiam há tempos e não eram raros os momentos em que foram vistos trocando xingamentos e até agressões físicas.

O duplo homicídio no coração de Brasília escancarou o abandono de um equipamento público situado a menos de 5km dos palácios do Planalto e do Buriti, sedes dos poderes Executivo e local, respectivamente. Sem a presença efetiva do Estado na região, grupos passaram a reivindicar o espaço de uso comum para criar um comércio clandestino e vender toda a sorte de produtos sem autorização.

Ambulantes ouvidos pelo Metrópoles admitiram não passar por nenhum tipo de controle para vender alimentos ou outros materiais no terminal e relataram que raramente são incomodados pela fiscalização. Assim como ocorre na vizinha Rodoviária do Plano Piloto, os camelôs tratam a Agência de Fiscalização (Agefis) com deboche.

“Não tem ninguém para coordenar, não existe um chefe dos ambulantes, a gente apenas pega as nossas coisas, monta a banca e vende. Quando chega a Agefis, desmontamos tudo e corremos, mas é só eles irem embora e nós voltamos. Se a PM não estiver junto, nem saímos e eles também não tentam levar nada”, conta uma vendedora de acessórios para celular. Ela não quis se identificar.

O escárnio é tão grande com o poder público que os camelôs voltaram a ocupar os arredores da rodoviária quando o trabalho da perícia da Polícia Civil na cena do duplo homicídio ainda estava em andamento.

A PMDF alega ter policiamento fixo no local, mas nem isso garante a tranquilidade dos 200 mil passageiros que passam pela Rodoviária do Entorno. Somados aos usuários de transporte do terminal do Plano Piloto, são quase 1 milhão de pessoas circulando naquela região.

Não é preciso ir muito longe para colher relatos de quem foi vítima ou já presenciou furtos, roubos e brigas no local. “Aqui, se der bobeira, alguém passa a mão e leva o celular. Roubaram o meu uma vez e até cigarro já tiraram da minha boca quando eu estava fumando. Como se sente segura assim?”, questiona a auxiliar de serviços gerais Maria de Fátima Aparecido.

O retrato de abandono e descaso se completa com imagens que se tornaram clichês para os brasilienses: homens, mulheres e até crianças traficando ou fazendo uso de crack.

Rixa antiga
Uma ambulante contou ter testemunhado diversas brigas no local e diz “não pisar do box 17 para a frente” por medo de também se tornar alvo de ameaças. Segundo ela, as vítimas e Henrique Monteiro Gonçalves, 33 anos, apontado como autor do crime, se desentenderam na semana passada e, desde então, o suspeito não teria sido mais visto até essa terça (4).

“Daquela fila [para os ônibus de Planaltina de Goiás] em diante a gente não vai. É gente se xingando, mulher se estapeando, puxando os cabelos umas das outras. Eles [vítimas e criminoso] brigaram feio na semana passada e, de lá para cá, o assassino não veio mais trabalhar. A primeira vez que eu o vi depois daquela briga foi hoje”, conta a mulher, que também pede anonimato.

Uma testemunha que estava de frente para Welington no momento dos tiros detalhou como ocorreu o crime. “De repente, começou uma briga. As duas mulheres, o outro ambulante e uma outra mulher começaram a discutir, e o rapaz [Welington] estava tentando apartar e tirar as duas dali. O homem falou alguma coisa; não sei bem se era um xingamento, mas o rapaz partiu para cima dele com um facão, e foi quando o outro homem deu os tiros. Quando ele deu os dois primeiros, eu fiquei sem reação. Depois, ele começou a atirar nas mulheres com quem estava discutindo”, narra a jovem, que também preferiu não ter o nome divulgado.

100% informal
Passageiros, rodoviários e autônomos que trabalham no terminal de coletivos com destino ao Entorno são unânimes na reclamação quanto à falta de estrutura e de serviços no local. Na rodoviária não há elevadores, escadas rolantes ou câmeras de segurança. Ao contrário da central do Plano Piloto, onde há dezenas de lojas regulares e com permissão para funcionamento, a oferta de produtos e serviços no ponto vizinho é 100% informal.

Dono de uma banca de açaí, Carlos Pereira gostaria de colocar o próprio negócio dentro da legalidade para evitar problemas com a fiscalização. “Tenho MEI [Micro Empreendedor Individual], CNPJ e sou obrigado a ficar preocupado com a Agefis, pois eles [o governo] não dão autorização para ninguém trabalhar aqui. Nem bebedouro tem, quem quiser que compre água”, reclama Carlos.

Outro lado
Por meio de nota, a Agefis informou ter uma equipe permanente na área central de Brasília, incluindo, principalmente, a Rodoviária do Plano Piloto, o Setor Comercial Sul, pontos turísticos, Ponte JK e Touring.

O órgão também ressaltou ter outra equipe volante de auditores combatendo atividades econômicas sem o devido licenciamento, e disse fazer operações preventivas e punitivas nos pontos mais congestionados.

“A Agefis informa, ainda, que nos dois primeiros meses de 2018 já foram emitidos 118 autos de apreensão, somando 9.975 mercadorias somente na Rodoviária do Plano Piloto. Em 2017, foram realizadas 1.630 operações na área central de Brasília, tendo como resultado a apreensão de mais de 90 mil itens”, finaliza a nota.

Duplo homicídio
O suspeito de ter matado a tiros mãe e filho é Henrique Monteiro Gonçalves. Após os disparos, o homem e a mulher que o acompanhava teriam fugido em um ônibus com destino a Águas Lindas de Goiás. O carro dele, um Fiat Doblô verde, estava estacionado nas redondezas e foi guinchado pela polícia. Até a última atualização desta matéria ele não havia sido encontrado pelos investigadores.

De acordo com o soldado Cassimiro da PMDF, na semana passada, Maria Célia registrou um boletim de ocorrência alegando ter sido ameaçada por Henrique. O motivo seria a disputa por clientes que formam as filas para entrar nos ônibus com destino ao Entorno. O incidente foi registrado na 5ª Delegacia de Polícia (área central) como lesão corporal e ameaça.

No fim da tarde dessa terça (4), PMs detiveram uma testemunha e duas pessoas acusadas de serem cúmplices dos autores da execução. No momento da abordagem, os suspeitos receberam uma ligação de quem seria o autor dos disparos, pedindo para esconder um veículo. Os detidos foram levados para a 5ª DP para esclarecimentos.

“Volta, meu amor”
Por volta das 17h, desesperada, a esposa de Welington invadiu a cena do crime e precisou ser contida por policiais. Grávida de nove meses e à espera de uma menina, ela disse aos PMs responsáveis pelo isolamento dos corpos que o suspeito já tinha feito ameaças antes. “Eu falei para vocês. Welington, por favor. Meu amor, volta aqui”, gritou, ao prantos.

Ao término do trabalho dos peritos e após a remoção dos corpos, a esposa da vítima protagonizou outra cena de desespero ao derrubar o carrinho do acusado do crime e espalhar as mercadorias. Enquanto jogava os produtos no lixo e pisava em embalagens de doces e salgadinhos, era ajudada por uma amiga, até que foi contida por parentes e retirada do local.