Superlotação faz pacientes esperarem até 14 horas no Hmib
Segundo profissionais de saúde, o hospital enfrenta falta de pediatras e técnicos de enfermagem. Além disso, há superlotação de pacientes
atualizado
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A falta de profissionais de saúde e o aumento sazonal das doenças respiratórias colocam em risco o atendimento de crianças e mães no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). Na manhã de terça-feira (28/4), havia pequenos pacientes esperando há 14 horas no pronto-socorro da unidade superlotada. Além da falta de pediatras, a unidade não tem técnicos de enfermagem suficientes para a unidade de terapia intensiva (UTI).
O Metrópoles acompanha a situação do Hmib deste a quarta-feira (22/4). Segundo profissionais de saúde, cujas identidades serão preservadas, a unidade chegou a decretar bandeira vermelha no final de semana, para atender apenas casos de urgência. “Socorro! Só socorro! Os pacientes pedem desculpas para gente, porque estão com cheiro ruim por ficar tantas horas sem um banho. Pedem desculpa por estar com fome“, desabafou uma servidora.
A Secretaria de Saúde firmou um contrato com a Lifecare para suprir o quadro de pediatras no Hmib. Pediatras da própria pasta foram contratados. No entanto, segundo servidores, mesmo assim, o hospital continua sem profissionais suficientes nos plantões. Além disso, teria ocorrido atrasos nos pagamentos dos “terceirizados”. A Secretaria de Saúde e a empresa negam o problema (leia mais abaixo).
“Nesse contrato, os pediatras não têm vínculo, não têm uma carga horária. Eles ficam à vontade para pegar o plantão que quiserem. Eles não pegam plantões nos feriados. Não têm a responsabilidade em assumir os plantão. E, inclusive, desistiram do plantão na última hora e a empresa não cobria o buraco na escala. A empresa não está agindo com responsabilidade”, reclamou uma profissional de saúde.
Leitos de UTI fechados
Pela parametrização, cada plantão no pronto-socorro deveria ter, pelo menos, cinco pediatras plantonistas, mas tem em média apenas dois. Os profissionais são responsáveis pelo pronto-socorro e a emergência. O hospital tem 16 leitos de UTI pediátrica, deste total quatro estão fechados por falta de técnicos de enfermagem e enfermeiros. Além disso, o Hmib é um hospital-escola. E, por isso, os plantonistas têm a missão de orientar os residentes.
“A sazonalidade ocorre todos os anos. Sabemos a data de começo e fim. O pior mês é abril. Mas as crianças estão sem acompanhamento nas unidades básicas de saúde (UBSs). Eles peregrinam em vários hospitais e chegam aqui. E o nosso quadro no Hmib está com menos de 50% do que precisaríamos. É uma situação muito triste”, lamentou uma profissional.
Além do pronto-socorro, o hospital tem 50 leitos de enfermaria. O contrato com a Lifecare é apenas para pronto-socorro.
Mães em risco
O Hmib também enfrenta a falta de técnicos de enfermagem. Segundo profissionais de saúde, a direção do hospital transferiu técnicos da UTI da Mulher (Materna) para a UTI Pediátrica. O hospital tem 10 leitos de UTI da Mulher. Com a medida, quatro foram fechados. “Esses servidores não tem habilidade para lidar com crianças. E a UTI Materna atende pacientes críticas e realiza hemodiálise”, alertou uma servidora.
Para os profissionais, o problema principal é o dimensionamento falho de pessoal. “A direção tem obrigado o remanejamento de técnicos da UTI Materna para a UTI Pediátrica, deixando a unidade de origem sem o mínimo de segurança. Em um plantão diurno, ficamos com apenas um técnico de enfermagem para quatro pacientes graves. No noturno, um técnico para dois. Isso é humanamente impossível. A qualidade da assistência está em risco”, pontuou.
A cada plantão, são necessários no mínimo três técnicos, mas a UTI Materna está passando por escalas com apenas um. Pelos protocolos de atendimento, se um paciente passar por uma crise precisa da assistência de ao menos quatro profissionais, um médico, um enfermeiro e dois técnicos de enfermagem. Pacientes em diálise também dependem de cuidados intensivos. E neste cenário, estão ficando sem o básico, como banho no leito.
“O remanejamento para a pediatria foi feito sem qualquer treinamento. Estão jogando profissionais acostumados com o público adulto em uma UTI infantil, que exige cálculos de doses e protocolos específicos, o que configura um risco claro de imperícia e erro de medicação. Para aumentar o número de leitos pediátricos, estão colocando em risco a qualidade da assistência da mulher. Se um paciente parar, ele vai à óbito”, avisou a servidora.
Adoecimento
A falta de pessoal também impede o descanso legal dos servidores, gerando esgotamento aumentando o risco de eventos adversos fatais. “Os servidores estão adoecendo”, contou. Segundo os servidores, a situação fere a Resolução 543/2017 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Código de Ética da Enfermagem. Além disso, de acordo com os profissionais de saúde, a unidade está sem máscaras cirúrgicas para a proteção dos servidores.
Segundo profissionais de saúde, a solução para o Hmib vai além do concurso público. É necessária a atualização dos salários, atualmente defasados em relação ao mercado, e melhorias nas condições de trabalho. Um das medidas seria a possibilidade remoção e transferência do profissional de saúde para uma unidade perto de sua casa. Outra mudança seria a permissão de atuação nas subespecialidades.
Outro lado
A Secretaria de Saúde e a direção do Hmib informam que a unidade registra, neste período, aumento na demanda por atendimentos pediátricos, cenário esperado em razão da sazonalidade das doenças respiratórias. Na tarde de terça-feira, o hospital estava em nível de atenção (bandeira laranja).
Entre as ações implementadas para o atendimento, a pasta destacou a reorganização interna das equipes e dos fluxos assistenciais, com o objetivo de otimizar o atendimento, ampliar a capacidade operacional e assegurar suporte adequado aos pacientes, especialmente os casos de maior gravidade.
“Diante desse contexto, foi realizado, de forma temporária e estratégica, o remanejamento de profissionais de enfermagem entre áreas assistenciais críticas, priorizando o fortalecimento da assistência pediátrica intensiva. A medida segue critérios técnicos e assistenciais, com atuação de profissionais habilitados em terapia intensiva e alinhados aos protocolos institucionais, garantindo segurança e qualidade no cuidado prestado”, justificou.
Escala
A escala médica está organizada com equipes distribuídas nos turnos da manhã, tarde e noite, conforme a necessidade assistencial, sendo a composição ajustada de acordo com a cobertura operacional disponível.
“Paralelamente, a Secretaria segue atuando no reforço das equipes, com processo de chamamento de novos profissionais em andamento, além de servidores recentemente incorporados que se encontram em fase de treinamento e capacitação para atuação na unidade”, completou.
Segundo a pasta, o tempo de espera pode sofrer variações pontuais em função do aumento da procura e da complexidade dos atendimentos. No entanto, todos os pacientes são acolhidos conforme a classificação de risco. Os pacientes com quadros clínicos menos graves devem ser dirigir à unidade básica de saúde de referência. A secretaria declarou que em relação aos insumos, não há comprometimento da assistência.
A pasta negou qualquer falha, irregularidade ou atraso de pagamentos no contrato firmado com a Lifecare. “Eventuais oscilações em escala são tratadas de forma imediata. Ressalta-se que não há, no momento, ausência generalizada de profissionais.
Empresa
A empresa Lifecare Excelência S/A informou que o contrato firmado com a pasta para a prestação de serviços médicos em pediatria permanece vigente e regularmente executado, nos termos pactuados.
“Não houve descontinuidade do atendimento pediátrico no que se refere a assistência no HMIB. A Lifecare segue atuando na composição das escalas e realizando os ajustes necessários para melhorar a adesão dos profissionais. Há necessidade eventual de coberturas imediatas, que são realizadas de acordo com o contrato, não havendo ausência total de profissionais”, argumentou, em nota encaminhada ao Metrópoles.
