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A vigilância na Universidade de Brasília (UnB) deve parar nos ares. Para tentar reduzir a quantidade de crimes nas dependências da instituição de ensino, a prefeitura local estuda comprar drones. Outras medidas, como a aquisição de 350 novas câmeras, a criação de corredores de iluminação e a reorganização do efetivo de vigilantes e porteiros, também são planejadas para 2018.

No entanto, antes de sair do papel, o projeto de fiscalização aérea tem gerado polêmica entre especialistas. “Chama atenção a UnB estar com dificuldades financeiras e pensar no uso de drones. Quais recursos estão baseando e pensando? Por ser área pública, eles devem fazer divulgação, dando ciência às pessoas que estão sendo monitoradas. Precisam consultar também as autoridades competentes”, enumera Manuel Martínez, experto e consultor em drones.

A reportagem apurou que o custo para adquirir quatro aparelhos, baterias extras, câmeras noturnas e manutenção demandaria aproximadamente R$ 300 mil. O pagamento dos profissionais para operá-los não está incluso nesse valor.

Porém, antes de fazer o projeto sair do papel, a universidade precisa consultar o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) – órgão da Aeronáutica – e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e detalhar como pretende operar os drones. “Não podem simplesmente sair voando. Se forem filmar de noite, precisam de câmera térmica e, para tê-la, é necessário autorização das Forças Armadas. Há uma série de itens para serem resolvidos”, aponta Martínez.

O uso desses dispositivos como instrumento de fiscalização foi adotado recentemente pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF). A tecnologia visa flagrar principalmente condutores que falam ao celular enquanto dirigem.

“Não funciona se não estiver integrado a sistemas clássicos, como botão de pânico. Se não houver um plano, será apenas uma pipa voando”, aponta George Felipe Dantas, especialista em segurança pública. “Estamos na infância disso. Até a literatura sobre drones é bastante restrita, tanto no exterior como aqui. É um grande instrumento, mas seu uso precisa ser muito bem regulamentado para que se evite questões de direitos e garantias individuais”, complementa.

A reportagem procurou o Diretório Central dos Estudantes (DCE) para comentar o assunto, mas não obteve retorno até a última atualização desta matéria.

Segurança
Segundo a Universidade de Brasília, o furto de itens da própria instituição e de bens de usuários lideram a lista de ocorrências registradas. O tráfico de drogas e a depredação do patrimônio público também aparecem em destaque.

Os pontos mais vulneráveis são os estacionamentos, principalmente no ICC Sul, no ICC Norte e na Faculdade de Direito. A região que liga o Campus Darcy Ribeiro à L2 Sul também concentra uma quantidade elevada de delitos.

Atualmente, a UnB conta com 206 vigilantes de empresas privadas, 108 do quadro efetivo e 406 porteiros. A ideia é repensar os locais de trabalho e reorganizar os trabalhadores da segurança. As festas e happy hours também são motivos de preocupação. A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) oficiou a reitoria da universidade sobre os eventos e a falta de alvará e de aviso sobre as datas.

De acordo com a Universidade de Brasília, a ideia de recorrer a drones é uma demanda da comunidade e abraçada pela direção. A formatação de como o dispositivo será utilizado, o preço e demais itens serão discutidos em reuniões do Conselho de Segurança da UnB. O tema também será debatido com representantes da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF).

O que nós mais precisamos é de uma nova proposta de segurança pública, pois não pode caber apenas à UnB zelar pelo que acontece em um espaço que é público, de todos"
Valdeci Reis, prefeito do Campus Darcy Ribeiro

A estudante de psicologia Natália Assunção, 25 anos, entende que é importante a reitoria se preocupar com a segurança da comunidade acadêmica, mas defende o uso racional dos equipamentos. “Acho interessante para o bem-estar dos alunos. O que me preocupa é a forma como eles vão trabalhar e de que forma vão usar essas imagens”, pondera.

Se a medida for efetivada, a Universidade de Brasília se unirá a outras entidades e órgãos públicos que têm lançado mão da tecnologia para as atividades diárias. Desde o ano passado, o Departamento de Trânsito (Detran) tem usado drones para, principalmente, monitorar condutores que usam o celular enquanto dirigem.

Segundo o Detran, os drones não estão aptos a multar. Porém, a operação dos equipamentos é feita por agentes de trânsito que ​atuam em duplas ou trios e ​podem realizar a abordagem e a notificação de condutores infratores.

A Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) também comprou um drone, que será usado para auxiliar os trabalhos, como monitorar invasões de terra e a ação de grileiros.

Segurança no campus
Problemas relacionados à segurança pública são recorrentes na maior instituição de ensino do DF. Em abril, o delegado Rodrigo Bonach, da Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), acusou a universidade de ser “tolerante” com o consumo de drogas no campus. A declaração foi dada após a PCDF encontrar uma plantação de maconha próxima ao Centro Olímpico.

À época, a reitora Márcia Abrahão disse ao Metrópoles que a universidade não era “nem leniente nem tolerante”. “A UnB é uma instituição educadora, que deve coibir, sim, o uso de drogas em suas dependências”, frisou na ocasião. Um mês depois, a Polícia Militar prendeu um traficante em Taguatinga, o qual pretendia vender R$ 100 mil em drogas na localidade de ensino.

Os próprios alunos têm se esforçado para fiscalizar a segurança. Um aplicativo batizado de UnB Alerta permite denunciar situações suspeitas no Campus Darcy Ribeiro. Outra medida, adotada desde março de 2017, é o controle de acesso ao Instituto Central de Ciências (ICC), o Minhocão. A reitoria determinou a identificação para entrada no prédio a partir das 23h dos dias úteis, das 18h, aos sábados, e durante todo o dia, aos domingos.

 

 

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