Medo nos pilotis. Moradores reclamam da insegurança no Plano Piloto

Projeto de Lucio Costa previa estimular a convivência da população sob os edifícios. Hoje, é palco de crimes e rota de fuga para bandidos

atualizado 03/09/2018 16:22

Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

Herança do projeto urbanístico de Lucio Costa para Brasília, os pilotis dos prédios nasceram como espaço destinado à convivência dos moradores das quadras do Plano Piloto. No entanto, hoje viraram sinônimo de insegurança para quem vive ou trabalha na Asa Sul e na Asa Norte.

A sensação é reforçada pelas estatísticas. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, entre janeiro e julho deste ano, houve 1.875 roubos a pedestres na região administrativa de Brasília – que engloba o Plano Piloto e a Zona Central. Para quem mora nas quadras, os pilotis, por permitirem a livre circulação dos pedestres entre os blocos, facilitam a fuga dos bandidos, que não se intimidam nem mesmo com câmeras de segurança.

Entre a quinta (30/8) e a sexta-feira (31), o Metrópoles visitou cinco quadras do Plano Piloto: três na Asa Sul (307, 406 e 116) e duas na Asa Norte (405 e 410). Todos os residentes e trabalhadores da região abordados pela reportagem dizem estar amedrontados com a onda de violência. das últimas semanas

Na 405 Norte, por exemplo, dois assaltos foram registrados em menos de 24 horas. No domingo (29), um casal de idosos foi abordado por um homem quando eles entravam no Bloco F ao retornarem de um culto religioso.

O bandido, armado com uma faca, levou diversos objetos pessoais e tentou fugir com o veículo das vítimas, um HB20 2018, mas sem sucesso. A ação foi gravada pelo circuito interno do prédio (veja abaixo).

 

No dia seguinte, o roubo envolveu um estudante do colégio Leonardo da Vinci, abordado, rendido e agredido por quatro adolescentes enquanto voltava da escola para a casa. Desta vez, no Bloco J. O crime também foi flagrado pelas câmeras de segurança. Graças às filmagens, a Polícia Civil identificou e apreendeu os infratores.

Veja:

 

População evita “dar bobeira”
A 35 passos do Bloco J da 405 Norte, onde o adolescente foi assaltado, o estudante da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Roberto Barbosa, 27 anos, usa o espaço debaixo do Bloco Q para descansar entre os intervalos das aulas. O jovem admite que ele é exceção: “É uma raridade encontrar alguém por aqui, ainda mais no meio da tarde”.

Na 307 Sul, os moradores também vivem com medo. Nas últimas semanas, uma série de ocorrências levou agentes da Polícia Civil a se disfarçarem de estudantes na tentativa de encontrar o autor dos crimes. Na última quarta (29), eles conseguiram prender o bandido: um jovem de 19 anos que era foragido da Justiça por homicídio cometido no Ceará.

Segundo o porteiro do Bloco I, Carlos Lacerda, 49 anos, o criminoso  era “figura carimbada e conhecida” dos moradores da residencial. “Só na semana passada, roubou três celulares de três pessoas diferentes. Tudo isso em menos de uma semana. Assalto por aqui virou rotina”, contou.

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“Morreu sob a minha janela”
Na mesma quadra, a jornalista Rita Medeiros, 41 anos, presenciou um episódio traumático da janela de seu apartamento. Em 10 de setembro de 2016, ela acordou com o barulho da sirene de uma viatura, acionada para socorrer um morador de rua esfaqueado por outro após briga por disputa de territórios, muito comuns na área da Igrejinha, na 307/308 Sul. “Sangrou até a morte neste banco. Morreu sob a minha janela. Foi chocante”.

Quem cresceu brincando nas ruas e usando o pilotis para lazer hoje se assusta com o abandono das quadras residenciais. “Como mãe, não posso permitir que meus filhos desçam para brincar sozinhos, temos que acompanhá-los. Já fiquei sabendo de babás assaltadas por aqui e o resultado, infelizmente, é esse: ficamos com parquinhos fantasmas, abandonados”, critica Rita.

Uma das maiores reclamações dos moradores dessas quadras envolve os usuários de drogas instalados nas proximidades da Igrejinha. “Virou ponto de tráfico de drogas. Tem morador de rua que nada faz, mas tem outros que se infiltram entre eles, roubam, traficam e matam sem serem importunados”, reclamou uma moradora que pediu para não ter o nome divulgado.

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“Destemidos e caras de pau”
No início do ano, o taxista Fernando Rosa, morador da 406 Sul, passou por momentos de tensão quando sua filha foi rendida por assaltantes enquanto estacionava o carro embaixo do Bloco A. No veículo, as duas netas pequenas assistiram a toda a cena.

“Minha filha gritava e eu corri para ver o que era. Ela vinha com as meninas e trazia um bolo para mim, tinha acabado de buscá-las na escola. Da minha janela eu vi tudo. É uma cena que não sai da minha cabeça”.

De acordo com o homem de 72 anos, em plena luz do dia, “dois homens armados, destemidos e caras de pau” abordaram a filha e pediram que ela saísse do carro e entregasse objetos pessoais, além da chave do veículo. Em choque e com as duas crianças dentro do veículo, a mulher “só conseguia gritar”. Os berros alertaram os vizinhos e fizeram os assaltantes fugirem.

Para o taxista, assustou o fato de os criminosos “não ligarem para as câmeras de segurança, alarmes e vizinhos”. “É uma insegurança muito grande. O crime foi cometido no início da tarde. Os bandidos não querem saber se o rosto aparece, se tem policiamento, circuito interno, vigia… Fazem e desfazem o que querem por aqui. Mandam e desmandam”, criticou.

Roubo e agradecimento do bandido
Casos como o da família de Fernando são comuns. Vizinha de porta do taxista, a psicóloga Maria do Socorro Nunes, 52, também tem histórias para contar. Há pouco tempo, quando saía para caminhar, por volta das 10h, presenciou “uma das cenas mais absurdas”: um idoso voltava das compras do mercado quando teve as sacolas roubadas pelos bandidos.

“Logo vi que era um assalto. Um deles até agradeceu a vítima. Só consegui correr para dentro de casa. Os ladrões estão cada vez mais ousados”, disse.

Em decorrência da violência, Maria do Socorro foi obrigada a desistir de um de seus passatempos preferidos: a leitura ao ar livre. “Aqui embaixo do prédio temos esses bancos. Gostava de ler e ouvir música, mas infelizmente não posso mais me dar a esse luxo”, lamenta.

Com o aumento da criminalidade na região, o prédio adotou novas medidas de segurança, como a aquisição de câmeras de circuito interno, além da instalação de um novo sistema de controle de acesso dos moradores por meio de senhas, mas “nada que iniba a ação dos bandidos”, segundo a psicóloga.

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Patrulhamento policial
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) assegurou realizar policiamento ininterrupto, planejado de acordo com estudos de análise criminal, intensificando-o nas áreas consideradas mais críticas.

A corporação disse que as operações de vigilância diárias e as viaturas posicionadas em locais estratégicos renderam, desde o início do ano até agosto, 2.070 prisões de autores ou suspeitos, além de 46 apreensões de arma de fogo, só no Plano.

A Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, por sua vez, disse que tem trabalhado, em parceria com as polícias e outros órgãos do GDF, “para coibir a atuação criminal, reduzir os índices e aumentar a sensação de segurança da população”.

Por meio das ocorrências registradas, a SSP afirma que identifica os locais mais vulneráreis para que, desta forma, seja direcionado o policiamento ostensivo naqueles dias e horários de maior vulnerabilidade. “Além disso, o trabalho de investigação também é direcionado para essas manchas criminais. Portanto, é fundamental que as vítimas sempre registrem a ocorrência”, reforça a pasta.

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