Ligação entre morte de aluno da UnB e uso de drogas é investigada

Um cachimbo usado para consumir crack foi apreendido ao lado do corpo de Jiwago, encontrado morto no último sábado, na região da Colina

ReproduçãoReprodução

atualizado 26/06/2018 14:31

A causa mais provável da morte do estudante da Universidade de Brasília (UnB) Jiwago Henrique de Jesus Miranda, 33 anos, estaria relacionada ao tráfico de drogas. Um cachimbo usado para consumir crack foi apreendido ao lado do corpo, encontrado no final da tarde de sábado (23/6) em um matagal perto do Bloco J da Colina. Ele morreu com golpes de pedra.

Imagens de câmeras da universidade que foram entregues à 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) mostram Jiwago vivo circulando no campus, por volta das 10h30 daquele mesmo dia. Até agora, entretanto, ninguém foi preso. Seguranças da UnB prestaram depoimento na segunda (25).

Na região, existem invasões com registros de presença de traficantes. Além disso, dois homicídios semelhantes, com uso de pedras, já teriam ocorrido na área, motivados por acerto de contas. A linha de investigação segue as primeiras informações dadas pela ex-mulher de Jiwago, Vanice Silva Dantas, 47 anos. Quando o corpo foi encontrado, ela confirmou que o estudante era usuário drogas e teria feito uso de entorpecentes horas antes de morrer. Contou ainda ter visto o rosto do ex-marido desfigurado.

“Apoiaram a cabeça dele na pedra e bateram com outra. Espero justiça. Quero uma resposta da UnB. Avisei que iam matá-lo e ninguém quis me ouvir”, ressaltou Vanice. Ela conviveu com Jiwago  por 13 anos e tem dois filhos gêmeos dele.

Em nota, a Universidade de Brasília confirmou que enviou à polícia as imagens de câmeras de segurança: “A UnB tem todo interesse em colaborar com as investigações para identificar o (s) responsável (is) pelo assassinato de Jiwago”.

Ainda de acordo com a instituição, o consumo de drogas entre jovens é uma preocupação de toda sociedade: “Na UnB, procuramos conscientizar a comunidade sobre os riscos da ingestão de substâncias lícitas e ilícitas. Está em fase de estruturação o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Atendimentos em Saúde Mental e Drogas (Nepasd), vinculado ao Instituto de Psicologia, que terá como foco os estudantes da instituição. Nos casos de denúncias formais sobre práticas ilegais, a UnB aciona os órgãos competentes e abre processo disciplinar, conforme a necessidade”.

Bipolar
Matriculado no curso de filosofia, Jiwago era membro da comunidade acadêmica havia nove anos. Durante o dia, ele frequentava as aulas. À noite, dormia em cantos escondidos da universidade. Ele despertava a atenção dos colegas por ser gentil e educado. Mas, nos últimos meses, não parecia bem e estava agressivo com quem se aproximava.

Segundo relatos de familiares e amigos, Jiwago foi diagnosticado com bipolaridade e esquizofrenia. Como desde 2016 não seguia o tratamento prescrito, estava “extremamente surtado”. De acordo com Vanice, o ex-marido não estava conseguindo, há mais de dois anos, pegar os remédios na rede pública. A falta de medicação o deixou à mercê dos efeitos das doenças.

A Secretaria de Saúde disse não haver registro de passagem do estudante pelas farmácias de alto custo da rede. A mulher afirma, porém, que o cadastro dele foi recusado.

De acordo com a UnB, Jiwago ingressou no curso de ciências sociais em 2004. Foi desligado em 2007, por não ter cumprido condições acadêmicas obrigatórias para a permanência na instituição. Reingressou na Universidade em 2009, para o curso de licenciatura em filosofia.

“Desde que entrou para a comunidade da UnB, passou a fazer parte do Programa de Assistência Estudantil, tendo recebido auxílio de diversas formas, em diferentes épocas: auxílios moradia (na modalidade pecúnia), socioeconômico e refeições gratuitas no Restaurante Universitário”, destacou o comunicado da instituição.

Os auxílios, porém, foram cancelados ao longo do tempo, segundo a UnB, por conta das normas relacionadas ao tempo de permanência no Programa de Assistência Estudantil. Em fevereiro deste ano, Jiwago deixou de receber o auxílio-socioeconômico, ficando apenas com o acesso ao RU.

Neste mês de junho, contudo, o aluno teria apresentado comportamento agressivo, tendo ofendido e ameaçado servidoras e funcionárias terceirizadas que atuam no restaurante. “Uma delas chegou a registrar queixa na polícia. Por conta disso, estava suspenso do RU desde o dia 14”, informou a UnB.

Na rua
Jiwago vivia em situação de rua há, pelo menos, dois anos. “Recebia acompanhamento dos psicólogos da Diretoria de Desenvolvimento Social, do Decanato de Assuntos Comunitário (DDS/DAC) da UnB. Entre os meses de abril e maio, a equipe do DDS chegou a ministrar o medicamento que ele precisava tomar diariamente (e teria sido prescrito pelo serviço de saúde)”, pontuou a instituição.

Ao longo dos anos, conforme informado pela UnB, o estudante foi diversas vezes levado aos Caps Transtorno, da Asa Norte, Álcool e Drogas, do Setor Comercial Sul, ao Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico (HPAP) e ao Hospital Universitário de Brasília (HUB). Recentemente, devido às condições sociais e de saúde de Jiwago, o Decanato recomendou que ele fosse recebido pela emergência do HUB. O hospital estava a postos para acolhê-lo.

Enterro
Jiwago foi enterrado na segunda. Durante o velório, o psicólogo da assistência social da Universidade de Brasília (UnB) Eduardo Lemgruber, 47, que acompanhava o aluno de perto, disse ter conversado com o estudante um dia antes de ele ser assassinado. Recomendou ao jovem internação no Hospital Universitário de Brasília (HUB). “Ele foi assassinado pela intolerância à indiferença”, acredita o especialista.

Lemgruber pressentiu o perigo. “Recomendei que fosse para o interior da Bahia morar com o pai. Brasília não estava preparada para ele”, garantiu. Segundo o especialista, o aluno da UnB era de “difícil manejo”, mas muito inteligente. Chegou a concluir e apresentar o trabalho final de curso de filosofia. E foi aprovado. “Estamos vendo se conseguimos o diploma dele in memoriam“, disse.

Estudante do terceiro semestre de ciências sociais, Mariana Freitas, 22, também foi ao velório. “Conhecia o Jiwago de vista. Sempre aparentou ser tranquilo e gostava muito de conversar. Vez ou outra aparentava estar mais agitado, mas nunca foi agressivo”, afirmou.

Últimas notícias