“Daqui a pouco estarão na rua”, diz pai sobre assassinos do filho

Adolescentes de 14 e 17 anos são suspeitos de roubar e matar Henrique Coelho, que trabalhava como motorista de aplicativo

André Borges/Especial para o MetrópolesAndré Borges/Especial para o Metrópoles

atualizado 14/10/2019 16:11

José Fabiano Moraes Coelho (foto de destaque), 46 anos, é pai de Henrique Fabiano Dias Coelho, 25. O rapaz fazia uma corrida de aplicativo na noite de sábado (12/10/2019) quando foi assassinado. Seis adolescentes foram apreendidos suspeitos do latrocínio (roubo seguido de morte). Três deles confessaram o crime. Argumentaram que o jovem reagiu ao assalto e, por isso, o enforcaram.

“Creio que ele não reagiu. Não era da índole dele. Isso que fizeram foi crueldade. Sou professor de Taekwondo, sei como é para enforcar”, disse, no velório do filho, na tarde desta segunda-feira (14/10/2019). Segundo José Fabiano, Henrique era um rapaz batalhador e trabalhava até as 5h para pagar as prestações do HB20 que comprou há dois meses.

“É difícil. Sou suspeito para falar bem do meu próprio filho, mas ele realmente foi uma pessoa maravilhosa, um menino que nunca deu trabalho. Cresceu ouvindo o que era certo e errado. Sincero, trabalhador. Dois meses que tinha comprado o carro… e acontece isso”, desabafou.

José elogiou a atuação da polícia, que apreendeu os adolescentes poucas horas depois do crime. “A polícia fez um trabalho ímpar. Desde o começo, estava em contato comigo. Mas, infelizmente, hoje no nosso país não tem lei. Daqui a pouco, esses desgraçados estarão na rua fazendo as mesmas coisas”, lamentou.

Emoção da mãe

Durante o velório de Henrique, no cemitério de Taguatinga, a mãe do jovem, Ana Cléa Dias, se emocionou. “Ele era luz onde chegava. Feliz, cuidava de mim e da família. Se esses bandidos o conhecessem, jamais fariam o que fizeram. Por que não levaram o carro, mas deixaram ele com vida?”, perguntou, aos prantos.

“Era um rapaz sonhador, que só queria trabalhar e constituir uma família. Sonhava em me dar uma neta, em ter uma filha. Agora, acabou para ele, aos 25 anos de idade. Só ficarão as lembranças”, disse Ana.

Thiago Rodrigo da Silva Rocha, 27, amigo de infância de Henrique, diz que o colega era muito focado. “Esse carro novo mesmo, ele economizou bastante para comprar. A gente brincava falando do veículo antigo dele: ‘Não vai trocar esse golzinho velho, não, Henrique?”, lembrou. Sob forte comoção, o corpo do jovem chegou ao Cemitério Campo da Esperança de Taguatinga por volta das 14h. Aproximadamente às 16h, o caixão foi carregado por familiares e motoristas de aplicativos, com gritos de “justiça” e muitos aplausos.

 

Policiais faziam ronda no Guará quando avistaram um HB20 branco, na QE 30. Ao perceberem a aproximação da viatura, os suspeitos invadiram a calçada com o carro, mas foram alcançados e abordados. O menor que dirigia o automóvel ainda tentou sair correndo, mas foi capturado. Durante a fuga, ele jogou a chave do carro na rua.

Dentro do HB20, a PMDF encontrou simulacro de pistola, facão, faca, canivete, cinco celulares e R$ 103 em espécie, além da Carteira de Habilitação da vítima. Três menores confessaram a morte do motorista por estrangulamento. Disseram que estavam em uma festa de igreja em Águas Claras e resolveram pedir um carro.

Os suspeitos anunciaram o assalto logo que entraram no carro. Em seguida, um dos adolescentes enforcou o trabalhador até ele desmaiar. Depois, levaram Henrique para o banco de trás. Quando o rapaz tentou acordar, um deles confessou ter forçado o braço até a vítima desfalecer novamente.

Após dispensar o corpo da vítima no Setor de Transporte de Cargas, os garotos ficaram a noite toda andando no veículo. Na manhã de domingo, deixaram o automóvel em um beco no fim da rua na QE 44, do Guará, próximo à casa de um deles. Depois, por volta das 14h30, pegaram o HB20 novamente e o deixaram no estacionamento do Carrefour Sul.

Foram apreendidos ao retornarem ao Guará, onde ficaram dando voltas com o carro da vítima. Segundo relataram, Henrique teria reagido ao assalto ao perceber que um deles portava arma de brinquedo.

Na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), foi confirmado que um dos adolescentes tinha mandado de busca e apreensão em aberto por ato infracional análogo ao crime de roubo. Os outros também colecionavam várias passagens por tráfico, assalto, furto e porte de arma de fogo. Os suspeitos têm entre 14 e 17 anos.

 

PMDF/Divulgação
Objetos apreendidos com os suspeitos

Henrique foi encontrado com sinais de esganadura e sem um sapato na madrugada de domingo. Um taxista o viu caído no Setor de Transportes de Cargas, nas proximidades da Cidade do Automóvel, segundo a PM. O Corpo de Bombeiros foi ao local e verificou que o trabalhador estava sem vida.

No bolso da vítima, os policiais encontraram nota fiscal de compra em um mercado da 402/403 Sul, constando horário de 20h02 de domingo, e uma sacola plástica do mesmo estabelecimento — ambos apreendidos pela perícia. As equipes também acharam uma aliança de prata no local, que provavelmente pertence a Henrique.

A família da vítima chegou a registrar ocorrência por desaparecimento. Segundo relato de uma tia de Henrique à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o último contato do sobrinho aconteceu por volta da 0h10 de domingo, quando o rapaz informou à namorada que iria pegar um passageiro em um posto de combustível na entrada do Núcleo Bandeirante. O jovem trabalhava como terceirizado da Caixa Econômica Federal (CEF).

Outra vítima

A Polícia Civil investiga a morte de outra vítima. Tiego Cavalcante, 28, foi assassinado na Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) de Samambaia na noite de sexta-feira (11/10/2019). Ele também atuava como motorista de aplicativo de transporte. Amigo de Tiego, o barbeiro Jonathan Gonçalves, 28, disse que o colega era “uma pessoa maravilhosa”. “Ajudava os outros e gostava muito de trabalhar”, destacou. Tiego trancou a faculdade de direito e se dedicava ao trabalho com os aplicativos e às artes marciais, treinando krav magá e jiu-jítsu.

Após dois homicídios em 48 horas, motoristas de aplicativo farão manifestação no começo da tarde desta segunda-feira (14/10/2019) para pedir mais segurança. O protesto está marcado para começar às 13h30. A concentração será no Taguaparque. De lá, os condutores, que já estão circulando com a palavra luto nos veículos, seguem para o Cemitério de Taguatinga, onde Henrique Coelho será enterrado.

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