Saúde mental: rede pública soma 45 mil atendimentos a crianças em 2021

Especialistas apontam sintomas de depressão infanto-juvenil e destacam a importância de os pais ficarem atentos aos sinais e buscarem ajuda

atualizado 03/09/2021 23:07

Arte de silhueta de criançaGuilherme Prímola/Arte/Metrópoles

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) realizou, nos primeiros sete meses de 2021, 45.188 procedimentos ambulatoriais relacionados à saúde mental de crianças e adolescentes. Isso representa uma média de 6.455 atendimentos por mês, ou cerca de 215 por dia.

Em 2020, no mesmo período de janeiro a julho, foram 50.944 serviços de saúde mental prestados a essas faixas etárias na rede pública do DF. Segundo a diretora de Serviços de Saúde Mental da SES-DF, Vanessa Soublin, os casos que a Secretaria tem recebido neste ano são, em geral, mais graves.

“A gente tem um modelo de atenção que é psicossocial. Não é igual ao modelo de atendimento de clínicas particulares, que têm atendimento psicológico, atendimento psiquiátrico. Temos uma perspectiva muito mais ampla da saúde mental, com grupos de fala, grupos de expressão corporal, oficinas, visitas domiciliares, ações interestoriais. Porque entendemos que a saúde mental é muito complexa, não é uma consulta psiquiátrica somente que vai dar conta da questão, principalmente quando ela já está na Atenção Especializada, que são os casos já moderados a graves”, explica a psicóloga da pasta.

“Percebemos que houve uma baixa na procura no começo do ano passado, com a pandemia, mas, depois, os casos aumentaram muito, e vimos uma mudança de perfil. Crianças, adolescentes, famílias nos procuravam antes por outras questões. Hoje, a gente tem um número muito grande de ansiedade alta, de depressão mais grave”, informa. “[Na pandemia], a gente teve precarização de acesso a renda, a moradia, a lazer, e isso tudo agravou a saúde mental da população como um todo, e das crianças mais ainda”, enfatiza a especialista.

Primeiros sinais

Vanessa ressalta que os sintomas de transtornos mentais são mais facilmente percebidos por pais/responsáveis quando há melhor espaço de diálogo com a criança ou adolescente. “Essa construção da relação dentro de casa é muito importante, porque a partir daí que a gente vai conseguir perceber mudanças. Você precisa entender melhor o seu filho para ver que alguma coisa não vai bem”, diz.

“Mudança de comportamento, irritabilidade. Às vezes, as pessoas esperam depressão com aquele sintoma clássico da tristeza. Mas, muitas vezes, a irritabilidade, o prejuízo nas notas, deixar de ver os amigos, alguma mudança assim no comportamento vai mostrar que aquela criança, aquele adolescente, aquele jovem, está em sofrimento. E abrir o diálogo para que eles possam elaborar o que estão sentindo é muito importante.”

Alice Munguba, especialista em clínica psicanalítica infantil na Holiste Psiquiatria, reforça que é necessário atenção aos primeiros sinais de depressão e ansiedade nas crianças e adolescentes para buscar ajuda profissional o mais breve possível.

“Na criança, ocorre geralmente uma alteração em algum hábito da vida. Por exemplo: perda de apetite ou aumento; se dormia bem e agora não dorme tão bem, tem de dormir com alguém por perto; se brincava com mais espontaneidade, leveza e agora não é tão fluido; ela passa a ficar mais isolada”, pontua.

Na adolescência, o pedido de ajuda pode aparecer de forma implícita. “Alguns não sabem como se comunicar com familiares, mas começa daí, de uma dificuldade de se sentirem compreendidos, e vão alimentando um isolamento, dificuldade de sair do quarto, de fazer atividades externas”, afirma. “Tem pais que vêm com o discurso de: ‘Ele tem tudo, não sei por que está triste’. Mas, às vezes, existem questões que os pais não sabem”, exemplifica a psicóloga.

Pandemia e dificuldades de socialização

As especialistas comentam que a pandemia da Covid-19 acentuou problemas relacionados à saúde mental em crianças, especialmente para aquelas que perderam parentes para o novo coronavírus. “Uma perda, um luto, sempre demanda um tempo de elaborar um novo momento da vida sem aquele ente querido, como as coisas vão se reestabelecer”, comenta Alice.

Com o avanço da vacinação e o retorno a atividades presenciais, como a volta às aulas, familiares devem ficar atentos a eventuais dificuldades de socialização que possam ter sido provocadas pelo período de isolamento. “Algumas crianças tinham dificuldades sociais e acabou que a pandemia reforçou isso. Mas esse retorno acaba sendo difícil até para quem estava doido para voltar, porque percebe que as coisas não são como antes: a escola está diferente, as regras estão diferentes, são novos protocolos”, acrescenta a especialista em clínica psicanalítica infantil.

Ainda conforme Alice, a forma de tratar transtornos mentais em crianças pode ser diferente daquela em adultos. “A via de tratamento com adultos é a via da fala, da intervenção terapêutica pela fala. Com crianças, usamos também recursos lúdicos, que a criança trabalha muitas coisas pela via da fantasia, de brincar. Porque ela não chega dizendo: ‘Estou triste por isso’. Muitas vezes, não sabe nomear, mas expressa por um desenho, pela forma de brincar, se está com raiva, se está com medo. Com criança e adolescentes, podemos usar mais recursos”, assinala.

Com isso, a diretora de Serviços de Saúde Mental da SES-DF, Vanessa Soublin, reafirma a necessidade de busca por tratamento, uma vez que pais identificarem sinais de transtornos mentais em crianças e adolescentes. “A pandemia trouxe sofrimento mental para todos. As crianças, por estarem em desenvolvimento cognitivo, afetivo, físico, ficam mais afetadas. Então, com certeza, precisamos de cuidado redobrado com as nossas crianças, criando espaços de acolhimento e de cuidado.”

Na rede pública do DF, ela aponta que 80% das demandas de saúde mental são resolvidas na Atenção Primária. “As pessoas precisam estar sempre referenciadas nas suas Unidades Básicas de Saúde. A UBS que vai ver as questões integrais da saúde mental, as questões que são leves, de manejo mais tranquilo. A partir do momento em que há o agravamento, é a UBS que reporta isso e encaminha para um serviço especializado, que atende os casos moderados e graves”, destaca.

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Locais de ajuda

Todos os anos, desde 2014, a campanha Setembro Amarelo faz um alerta sobre a prevenção ao suicídio, abordando a importância de conversar sobre a saúde mental e prestar atenção aos sinais que as pessoas emitem para dizer que estão passando por sofrimento.

O DF conta com diferentes Centros de Atenção Psicossocial, que fazem parte da rede pública de saúde. No CAPSi  (Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil), são atendidos crianças e adolescentes que apresentem sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes ou sofrimento psíquico decorrente do uso de substâncias psicoativas. Funciona de segunda a sexta-feira em horário comercial.

Confira, abaixo, os endereços e contatos dos Caps:

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