Saúde, educação, moradia, mobilidade: para onde caminha a capital?

Especialistas em várias áreas mostram preocupação com políticas pensadas para o futuro de Brasília, consideradas frágeis. Veja repercussão

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 22/04/2019 16:24

Brasília apaga mais uma velinha neste domingo (21/04/19) ao completar 59 anos. Primeira cidade moderna a ingressar no seleto grupo daquelas com título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, ainda é capaz de despertar encanto no turista por sua arquitetura imponente e singular. Ao mirar o olhar para além dos tradicionais pontos turísticos, um grupo de estudiosos mostra-se pessimista em relação ao futuro da capital da República e de seus 2,8 milhões habitantes.

Para onde vamos? A fim de responder tal pergunta, o Metrópoles entrevistou dezenas de especialistas nas áreas mais sensíveis e indispensáveis ao pleno desenvolvimento de uma grande cidade.

Um dos mais antigos problemas do Distrito Federal, a ocupação irregular de terras públicas traz a reboque complicações que afetam diretamente a qualidade de vida. Para o especialista em patologia e engenheiro da Universidade de Brasília (UnB) Dickran Berberian, o governador Ibaneis Rocha (MDB) tem “a responsabilidade de salvar o DF”.

No entendimento do docente, a capital não suporta tantas construções clandestinas. “A cidade não aguenta mais esperar. Passaram-se muitos anos destruindo um território projetado para se viver de maneira saudável por pelo menos 100 anos. Não bastasse o próprio governo liberando obras em áreas verdes, há aqueles que se apossam criminosamente de glebas e, na maioria das vezes, nada acontece. Isso precisa mudar”, critica.

O apontamento de Berberian pode ser verificado diariamente. Não é preciso ir muito longe para encontrar barracos, casas e empreendimentos comerciais erguidos sem autorização do poder público.

A cerca de 35 quilômetros do Congresso Nacional, no meio de árvores nativas do Cerrado, está a Mesa JK, estrutura de cimento usada pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek para reuniões em momentos de privacidade e descontração na época da construção da cidade. Localizadas na Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) da Granja do Ipê, as riquezas histórica e ambiental da região têm sido ameaçadas pela cobiça de grileiros.

Pelo alto, é possível observar a construção de casas que colocam em risco importantes cursos d’água, como o Córrego Capão Preto, que passa sob a Mesa de JK. Ele desemboca no Córrego Ipê Coqueiro, que, por sua vez, deságua no Córrego Riacho Fundo, sendo este o último afluente do Lago Paranoá.

Igo Estrela/Metrópoles

 

Bem mais perto da Esplanada dos Ministérios, em Vicente Pires, estruturas de até seis andares sem qualquer tipo de anuência parecem debochar das autoridades locais. Uma delas, inclusive, segue a todo vapor a menos de 400 metros da Administração Regional.

Criação de 10 novos bairros
Mas não são apenas os criminosos que tiram o sono daqueles que desaprovam o crescimento desordenado da cidade. O próprio Conselho de Planejamento Territorial e Urbano (Conplan), responsável por acompanhar e aprovar as políticas da área, liberou nos últimos anos a construção de mais 10 bairros no território do DF.

Um desses empreendimentos privados, batizado de Urbitá, fica nas terras da antiga Fazenda Paranoazinho – uma área de 1,6 mil hectares que engloba condomínios e terras vazias – e pode abrigar até 118 mil pessoas.

A gleba pertence à Urbanizadora Paranoazinho S.A. (UP). Em 2007, a empresa comprou o terreno e, desde então, trabalha para regularizar os 54 condomínios erguidos no local.

No entendimento do professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB Cláudio Queiroz, “é inconcebível adensar ainda mais o DF antes de pensar soluções para aumentar fornecimento de água potável e melhorar a mobilidade urbana.

“Pensar o Plano Piloto como Patrimônio Cultural da Humanidade e descuidar do que está à sua volta é contribuir para o surgimento de infraestruturas malfeitas e malcuidadas. A cidade precisa ser pensada como uma máquina de fotografar, um edifício, um carro, que precisam de manutenção para prestar bons serviços. Inchá-la ainda mais não é, de forma alguma, a solução mais adequada”, pondera.

URBANIZADORA PARANOAZINHO/DIVULGAÇÃO
Região que abrigará um dos 10 novos bairros

 

“Andando para trás”
No campo da mobilidade, estudiosos também são céticos quando o assunto é vislumbrar evolução. Com 1,7 milhão de veículos registrados — 600 mil a mais do que há duas décadas —, eles entendem que quase todas as medidas adotadas recentemente para o setor foram voltadas no sentido de dar mais fluidez aos automóveis.

“Os detentores do poder e das leis têm de compreender que Brasília precisa parar de ser planejada para o veículo e ser idealizada para as pessoas. Brasília é uma das cidades onde o automóvel é mais utilizado no país: aqui, 42% da população usam o carro como meio de transporte, enquanto em outras capitais esse índice é de 22%, 23%. Em vez de estimular isso, é preciso que o transporte público ocupe as vias, porque isso seria corrigir uma dívida histórica com a mobilidade de uma cidade planejada”, argumenta o diretor do Instituto Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte (MDT), Nazareno Stanislau Affonso.

O especialista reconhece ter havido evolução em algumas questões, como a expansão da malha cicloviária, porém critica a falta de integração delas. “É importante abrir espaço para as bicicletas, mas é preciso que as ciclovias sejam pensadas como parte do modelo de mobilidade: ligando ao metrô, a parques, a terminais rodoviários. Não pode simplesmente a pista acabar do nada”, pontua.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Ciclovias malconservadas e sem integração com outros modais de transporte são alvos de críticas de especialistas

 

Modelo errado na Saúde
Na Saúde, também sobram críticas e ceticismo em relação às políticas públicas vigentes. No entendimento de Roberto Bittencourt, médico e professor doutor da Escola de Medicina e Saúde da Universidade Católica de Brasília (UCB), Ibaneis dá continuidade ao maior erro do mandato de Rodrigo Rollemberg (PSB): o modelo de gestão.

“Ibaneis apostou todas as fichas na Saúde em separar a gestão de dois hospitais [Base e Santa Maria] e das UPAs. Com isso, ele criou uma ilha da fantasia e isolou o resto da rede. Em vez de perder tempo com esse modelo que se mostra burro, a saúde deveria começar a ser analisada a partir da resolução dos grandes problemas, como assistência ao câncer, superlotação das emergências e foco na atenção primária”, destaca.

Ao demonizar o atual formato, o docente refere-se ao projeto do Executivo local aprovado pela Câmara Legislativa (CLDF), em 24 de janeiro, que passou a administração dos hospitais de Base e de Santa Maria, além de seis Unidades de Pronto Atendimento para o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF).

Em março deste ano, a reportagem do Metrópoles percorreu, durante a madrugada, unidades de Saúde de sete lugares para mostrar o drama de pacientes que aguardam até 10 horas por atendimento.

Em todos os locais, o cenário era de cadeiras praticamente vazias. Tudo isso porque as unidades visitadas estavam operando no limite, com todos os leitos ocupados e pacientes internados na sala de medicação.

A Secretaria de Saúde admitiu a demora no atendimento e justificou que o atual governo recebeu a pasta em situação de caos. “Foi decretado estado de emergência em saúde, o que possibilita realizar ações para reabastecimento da rede e contratação de pessoal de forma mais célere”, informou a pasta.

Já o Iges-DF disse, em nota, que a interpretação do docente é errônea. “Quem diz que a ampliação do modelo do Iges-DF é o mote da administração Ibaneis, está completamente equivocado. O verdadeiro mote é fortalecer a prevenção, fortalecer a atenção básica, compor e reestruturar essas equipes de saúde da família, suprir esse vazio assistencial existente hoje no DF e trabalhar. Trabalhar fortemente, para a expansão das unidades de saúde da família, mas com equipes completas”.

Igo Estrela/Metrópoles
Para o professor doutor da Católica, a atual gestão na Saúde leva pacientes a ficarem até 10 horas à espera de atendimento. O docente dispara: “Economia burra”

 

Polícia comunitária
As cotidianas cenas de violência no DF expõem o fiasco das forças de segurança pública no combate à criminalidade. O mestre em políticas públicas e especialista em segurança do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) Júlio Hott acredita que o atual governo até tem boa intenção em melhorar as estruturas das corporações, mas esbarra em fatos alheios à sua vontade.

“Há dificuldades enormes de se organizar políticas públicas para as forças de segurança do DF porque a estrutura policial brasiliense só pode ser mudada por iniciativa da União”, frisou.

Enquanto não há no horizonte sinais de que tal modelo possa ser alterado, o docente sugere medidas pontuais e consideradas por ele eficientes a fim de proporcionar tranquilidade à população. “Primeiramente, é preciso pulso firme para colocar um ponto final na rivalidade entre as polícias Civil e Militar”, ressalta.

Outra medida indispensável na visão do especialista é implementar a política de policiamento comunitário, principalmente nas satélites. “Se possível, que seja feito com os mesmos policiais fazendo o patrulhamento das mesmas quadras.”

Ao Metrópoles, o governador Ibaneis Rocha diz ter trabalhado diuturnamente para entregar uma cidade do que encontrou ao assumir as chaves do Palácio do Buriti em 1º de janeiro deste ano: “Sem dúvidas, Brasília tem mais futuro que passado. É uma nova era. Trabalho todos os dias para encaminhar um futuro melhor. Eu sonho com isso”, diz.

Outro lado
Em nota, o GDF frisa que, mesmo com pouco mais de três meses, a atual gestão fez “várias revoluções voltadas a resolver problemas de três ou quatro décadas”. O texto cita a retomada das obras da Barragem de Corumbá IV, ação que, conforme destacou, garantirá “abastecimento para o futuro próximo”.

O GDF ainda ressalta que “todas as ocupações recentes têm sido retiradas, como aconteceu na Flona e na Estrutural”. “A Agefis está sendo reformulada, mas o futuro DF Legal usará critérios rígidos no combate à grilagem, podendo contar com o auxílio de uma delegacia especializada na questão, que será criada no âmbito da Secretaria de Segurança”, salienta o texto.

De acordo com o Palácio do Buriti, no campo da Segurança Pública haverá um esforço de recompor o efetivo da PCDF e da PMDF. “Vai depender do entendimento sobre o uso do Fundo Constitucional, que tem sido utilizado para pagar também os inativos. É uma negociação que já começou com o governo federal, inclusive para garantir o reajuste das polícias Civil e Militar”.

Por fim, a assessoria de comunicação de Ibaneis Rocha reforçou que a criação da Região Metropolitana do DF “facilitará políticas públicas de alcance interestadual, eliminando uma série de entraves burocráticos que hoje limitam o atendimento da população do Entorno, tanto na questão do transporte público, na realização de obras de infraestrutura, quanto no atendimento de saúde”.

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