Rolos de filme no Teatro Nacional exalam gás tóxico e ameaçam servidores

Material é dos anos 1950 e foi uma doação da Holanda. Secretaria de Cultura aguarda orientação dos órgãos ambientais para descarte

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atualizado 17/01/2020 10:27

Películas de filmes feitos na década de 1950 preocupam integrantes da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secult). Doados pelo consulado fluminense dos Países Baixos – região onde estão localizadas Holanda e Bélgica –, os 120 rolos de documentários começaram a se deteriorar e exalar gás tóxico dentro do acervo localizado no anexo do Teatro Nacional Claudio Santoro, onde está sediada a pasta. A situação coloca em risco a saúde de servidores.

Todo o material videográfico estava armazenado no Polo de Cinema, localizado em Sobradinho, mas, em 2014, a doação foi removida para o arquivo da Secretaria de Cultura, onde continua armazenada. Desde então, esquecido com o tempo, o material passou a se decompor, e servidores notaram a formação de espécie de ferrugem no acervo. Eles relataram sentir cheiro forte, similar ao de vinagre.

Laudo interno elaborado pela Gerência de Conservação e Restauro confirmou que o vapor no ambiente trata-se de ácido acético em estado gasoso. No contato direto com as pessoas, pode causar, por exemplo, irritação nos olhos, ardores no nariz e na garganta e, em excesso, até congestão pulmonar. Máscaras de proteção e luvas viraram itens obrigatórios para quem presta serviço no local.

Impasse

Pela legislação atual, há um rigoroso processo burocrático para autorizar o descarte de material considerado histórico. Além disso, há, também, normas ambientais, rigorosas em casos de material tóxico.

O Arquivo Público do Distrito Federal (APDF) entendeu que o material não tem valor histórico significante que justifique o armazenamento. A secretaria, então, publicou edital para dar ciência da eliminação dos documentos. A divulgação é necessária no caso de algum cidadão ter interesse no lote.

Paralelamente, os órgãos ambientais do governo foram acionados a fim de definir onde descartar as 120 películas. O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou que não mantém contrato vigente com empresas especializadas no recolhimento desse tipo de material. Assim, a pasta de Cultura pediu orientação à Secretaria do Meio Ambiente (Sema) sobre como proceder com a inusitada situação.

“Em virtude da complexidade e da periculosidade do objeto, o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal não contempla nenhuma empresa ou cooperativa que realize esse tipo de descarte”, registra documento da Secult obtido pelo Metrópoles.

Ainda de acordo com o registro da pasta de Cultura, “solicitamos os bons préstimos da Subsecretaria de Gestão das Águas e Resíduos Sólidos para informar sobre a existência de empresas ou cooperativas para executar tal atividade e qual seria o conjunto de procedimentos necessários à continuidade do processo de eliminação”.

O que dizem os envolvidos

À coluna, a Sema reforçou que os materiais feitos de celulose “são suscetíveis de deterioração, comuns em filmes de acetato, que, no processo inicial, exalam cheiro de vinagre. O ácido acético pode causar danos à saúde em grande concentração”, pontuou.

Por meio de nota, a Secretaria de Meio Ambiente recomendou que “o descarte de películas de filmes antigos e o seu processo de recolhimento e destinação final sejam realizados por empresa especializada em resíduos perigosos”.

Ainda segundo a secretaria, “a empresa precisa ter habilitação comprovada por meio da apresentação das licenças ambientais para o transporte e o tratamento, além do certificado de destinação final”.

Procurada pela reportagem, a Secult informou que ainda não recebeu a notificação oficial do órgão ambiental, mas frisou que “seguirá rigorosamente a orientação dada pelos especialistas”.

SOBRE O AUTOR
Caio Barbieri

Cursou jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Passou pelas redações do Correio Braziliense, Agência Brasil, Rádio Nacional e foi editor-adjunto da Tribuna do Brasil. Ocupou a assessoria especial no Ministério da Transparência e foi secretário-adjunto de Comunicação do GDF. Chefiou o relacionamento com a imprensa na Casa Civil, Vice-Governadoria, Secretaria de Habitação e na Secretaria de Turismo do DF. Fez consultoria para vários partidos, entidades sindicais e políticos da Câmara Legislativa e do Congresso Nacional. Assina a coluna Janela Indiscreta do Metrópoles e cobre os bastidores do poder em Brasília.

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