Bancada do DF ganha espaço na articulação nacional do Congresso

Embora não se entendam internamente, deputados federais e senadores do Distrito Federal começam mandatos com destaque no Parlamento

Daniel Ferreira/MetrópolesDaniel Ferreira/Metrópoles

atualizado 31/03/2019 10:40

Marcada por parlamentares estreantes com estilos completamente distintos, a atual bancada do Distrito Federal no Congresso tem buscado ocupar mais espaço nos debates nacionais se comparada a outras legislaturas. Com respaldo dos partidos e até mesmo de padrinhos políticos, os deputados federais e senadores da República do DF entraram na busca por holofote e têm conseguido papéis de destaque na Casa de leis. Embora nutram o mesmo objetivo por espaço, os congressistas raramente chegam a um consenso em acordos internos entre eles.

Na Câmara dos Deputados, dos oito parlamentares, apenas Erika Kokay (PT) é veterana no cargo. No terceiro mandato, a ex-sindicalista se tornou um dos principais nomes do Partido dos Trabalhadores no Congresso e, consequentemente, de oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Vice-líder da sigla na Casa, não é raro testemunhar a petista protagonizar embates acalorados para se contrapor às medidas propostas pelo Palácio do Planalto.

“O parlamentar da Câmara Federal não pode ser apenas aquele que responde de forma automática às orientações de seu partido. Fomos eleitos para representar a população do DF em um lugar que discute as grandes questões nacionais. Embora seja um local plural, o Parlamento tem sido ferido diariamente pelo atual governo. Se não se tem respeito às minorias, não se tem democracia”, avaliou Kokay.

Uma das estreantes na Casa, a ex-primeira-dama do DF Flávia Arruda (PR) foi a parlamentar mais votada nas últimas eleições. Com perfil discreto, a congressista tem ganhado destaque nas articulações do comando da Casa, em especial pelo fato de ter proximidade com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e por ser vixe-líder do PR na Casa. Em conversas com o líder carioca, Flávia afirma ter buscado a conciliação em questões polêmicas.

“Tenho falado sempre com o presidente Rodrigo Maia e com alguns líderes partidários na linha de moderar o discurso. Defendo essa modalidade porque precisamos trabalhar juntos para o Brasil crescer. Discussões não levam a nada”, afirmou.

Material cedido ao Metrópoles
Próxima a Rodrigo Maia (DEM-RJ), Flávia Arruda diz buscar um tom conciliador no Parlamento

Reforma Tributária
Outro calouro, o deputado federal Luis Miranda (DEM) apresentou recentemente na Comissão de Finanças e Tributação proposta para criar a subcomissão permanente a fim de discutir a reforma Tributária. Como idealizador da proposição, caberá a ele a presidência do grupo, caso seja aprovado pelo colegiado. O tema será o próximo a ser enviado pelo Planalto ao Congresso após a análise da polêmica reforma da Previdência.

Miranda nega pertencer à base governista, mas defende que haja consenso a fim de equacionar os dois principais temas de reforma da atual legislatura. “Sou a favor das pautas econômicas apresentadas por Bolsonaro, mas não vou entrar em questões de ideologia, mesmo porque às vezes o governo se prende a isso e acaba esquecendo do mais importante, que são as demandas do país. O que queremos com a subcomissão é antecipar os estudos e análises da atual tributação para que não aconteça com a próxima reforma o caos que tem sido com a Previdência”, disse.

Um dos nomes mais influentes dentro do Palácio do Planalto, a também novata Bia Kicis (PSL) participa ativamente das principais reuniões com integrantes do Legislativo e Executivo. Pessoa de confiança de Bolsonaro, a deputada chegou a ser sondada para ocupar cargos de relevância no Congresso, como o de presidente da Comissão de Constituição e Justiça ou mesmo o de relatora da  reforma da Previdência do grupo temático. Nenhuma das funções, contudo, foi oficializada para a congressista, mas Bia permanece como um dos nomes mais fortes do PSL na Câmara dos Deputados.

Liderança
A deputada federal Paula Belmonte é vice-líder do Cidadania (antigo PPS) na Câmara dos Deputados. A articulação da nova parlamentar fez com que ela, já nos primeiros meses de mandato, conseguisse aprovar um projeto de sua autoria. A proposta prorroga o início da licença-maternidade quando, após o parto, a mãe ou a criança permanecer internada por mais de três dias. O projeto será enviado ao Senado.

Representante feminina no Senado, Leila Barros (PSB) conseguiu espaço na Mesa Diretora da Casa, onde ocupa a 4ª suplência. A ex-secretária de Esportes de Rodrigo Rollemberg (PSB) reconhece que iniciou o mandato com responsabilidade. “Tive a honra de ser eleita a única mulher entre os 11 membros”, disse.

No seu primeiro mandato como senador, Izalci Lucas (PSDB) ganhou notoriedade ao articular apoio dos tucanos para a vitória do atual presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ao tomar posse, o presidente do Congresso retribuiu o gesto do aliado ao indicá-lo para comandar a Comissão de Desenvolvimento Regional da Casa. Além disso, Izalci foi escolhido por Bolsonaro como vice-líder do Governo e terá como missão convencer os colegas a aprovar medidas impopulares.

Material cedido ao Metrópoles
Em audiência no Ministério da Justiça, congressistas pediram apoio a Sergio Moro

Desentendimentos
Izalci sofre um impasse justamente com a própria bancada local. Os senadores e deputados federais do DF não se entendem sobre quem deve ser o coordenador do grupo neste ano. Pela tradição, as duas Casas se revezam no comando. O último a ocupar a função foi um deputado federal, fato que leva o tucano a defender que o próximo titular seja um senador. Como Leila e José Antônio Reguffe (sem partido) não têm interesse pelo cargo, caberia ao próprio tucano a função, o que não foi bem recebido pelos deputados federais.

Vários encontros foram marcados para que os representantes do DF conseguissem chegar a um acordo. A última tentativa ocorreu nessa sexta-feira (29/3), em situação inusitada: durante audiência com o ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro. Os congressistas tentavam convencer o titular da pasta a transferir os líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) da Penitenciária Federal de Brasília.

A missão dos representantes do DF falhou, visto que Moro decidiu manter o criminoso dentro do quadrilátero brasiliense. Porém, ao perceberem a derrota, o ex-juiz acabou recebendo outra incumbência dos parlamentares. “Já que o senhor conseguiu reunir boa parte dos integrantes da bancada do DF, queremos pedir para que nos ajude a eleger o nosso próximo coordenador. Até agora, ninguém conseguiu chegar a um consenso e precisamos da sua ajuda”, brincou Celina Leão (Progressistas).

Mesmo sem assumir publicamente, Celina tem trabalhado internamente a favor do governo de Jair Bolsonaro, o que desperta a simpatia de figurões da Esplanada dos Ministérios. Recentemente, como vice-líder do partido no Congresso, ela conseguiu impedir que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fosse forçado a comparecer a uma audiência da Comissão de Seguridade Social e Família durante a crise institucional entre Rodrigo Maia e Bolsonaro, situação que poderia gerar desgaste ao governo federal.

“O governo padece de articulação. Pela minha experiência, o Planalto precisa estar presente, o que não vem acontecendo. Conseguimos convencer o presidente da comissão a refazer a agenda por causa da postura do Paulo Guedes. Ele é ainda um dos únicos do governo que têm mantido uma relação respeitosa com o Parlamento. Foi por isso que o defendi”, disse Celina.

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