Do governo à oposição, políticos do DF repudiam vinda de Marcola

Líder do PCC foi transferido nessa sexta (22/3) para o Presídio Federal de Brasília. Decisão do Ministério da Justiça desagradou políticos

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atualizado 25/03/2019 17:46

transferência do presidiário Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, de Porto Velho (RO) para o Presídio Federal de Brasília, na sexta-feira (22/3), acendeu o sinal de alerta entre as lideranças políticas do Distrito Federal. Por ser um dos criminosos mais perigosos do Brasil, há riscos para a segurança pública local, segundo avaliam os representantes eleitos do DF. O tema fez com que diferentes grupos ideológicos se unissem para tentar reverter a permanência do principal líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) a poucos quilômetros do centro do poder brasileiro.

Vice-líder do governo Jair Bolsonaro (PSL) no Senado, Izalci Lucas (PSDB) ficou contrariado com a decisão unilateral do governo federal, tomada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. “Quando você traz um preso desse porte para Brasília, é natural que pessoas ligadas a ele se mudem para cá também”, frisou. Ainda segundo o congressista, “o grande problema hoje é que, mesmo em presídios de segurança máxima, os criminosos mantêm o comando do crime porque têm contato com advogados e parentes”.

É o cúmulo do absurdo você construir uma penitenciária federal para abrigar presos de alta periculosidade na capital de um país, perto do poder, das embaixadas. Esse complexo deveria ter sido feito longe, como na Ilha de Marajó, no Pará, ou até mesmo em Rondônia. Não no DF. É um risco enorme para a cidade

Izalci Lucas, senador pelo PSDB-DF e vice-líder do governo

A deputada federal Paula Belmonte (PPS-DF) lembrou já ter enviado ao ministro Sergio Moro pedido para que o recém-inaugurado Presídio Federal de Brasília fosse desativado. O argumento é o mesmo de outros colegas de parlamento: a proximidade com os três Poderes. Paula ressaltou que a unidade, aberta parcialmente em outubro do ano passado, tem “baixíssima população carcerária confinada”, e sugeriu que a destinação dada à área, a qual funciona no Complexo Penitenciário da Papuda, seja repensada.

Também integrante da bancada do DF no Congresso, a deputada Celina Leão (PP) é aliada de Bolsonaro na Câmara, mas criticou a transferência de Marcola. “Qual tipo de ajuda o governo federal vai dar para o GDF [Governo do Distrito Federal] arcar com a estrutura necessária a fim de se evitar problemas? Nada, zero. É um absurdo. Já solicitei audiência com o ministro Moro”, afirmou.

Segundo Celina, Brasília nunca havia abrigado integrantes de grandes facções. “Agora o governo Bolsonaro faz isso? Parece que aquele slogan de campanha [Menos Brasília, Mais Brasil], agora faz sentido. Mas é bom lembrar a quem tomou essa decisão que, assim como nós, da cidade, o Marcola será vizinho deles também, que moram aqui durante a semana.”

Reações na Câmara Legislativa
A chegada do líder da facção criminosa PCC também repercutiu na Câmara Legislativa (CLDF). Um dos primeiros da Casa a partir para o ataque contra a decisão foi o distrital Chico Vigilante (PT). “Cada estado tem que cuidar dos seus presos. O Marcola é de São Paulo, portanto é lá que ele tem que ficar. É inadmissível que Bolsonaro e Moro, por conta da queda da popularidade do governo, tentem desviar a atenção com uma atitude como essa, para despistar a opinião pública. Brasília não precisa importar bandido nenhum”, disse o petista.

Líder do governo Ibaneis Rocha (MDB) na Câmara Legislativa, Cláudio Abrantes (PDT) também reclamou do novo morador do Distrito Federal. “Acho desastroso, pois é um peso para nosso sistema de segurança e para a população. Não cabe ao DF ter que abrigar esse líder criminoso. Nossa polícia impediu que ele atuasse aqui quando estava solto; e agora, prisioneiro, o mandam para cá?”, questionou.

Único integrante do PSol na CLDF, o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Fábio Felix, faz um alerta ao governo local: será preciso investir ainda mais em inteligência para combater o poder das organizações criminosas, além de reforçar a proteção dos direitos humanos nas prisões e no sistema socioeducativo. “O Distrito Federal já tem muitos problemas. Lidar com organizações criminosas como o PCC ou o Comando Vermelho não deveria ser um deles.”

O deputado Eduardo Pedrosa (PTC) também engrossou o coro dos que classificam Marcola como visitante indesejado. “Estamos trabalhando duro para garantir a segurança da população do DF. Não podemos aceitar que o governo federal transfira para nossa cidade um problema desses. Já temos questões demais para resolver. Outra preocupação é que, com ele, virão membros da facção, colocando em risco a população”, diz o distrital.

Isolamento
Na manhã dessa sexta-feira (22/3), o governador do DF, Ibaneis Rocha, já havia criticado a decisão do Ministério da Justiça e, logo depois, usou as redes sociais para tentar acalmar a população. Pelo Twitter, o emedebista pediu apoio à sociedade civil para ajudar a convencer o presidente da República, Jair Bolsonaro, a recuar da decisão. O chefe do Executivo distrital já solicitou agenda emergencial com Sergio Moro e aguarda a confirmação.

“O Distrito Federal não foi feito para receber o crime organizado. O lugar dessas pessoas é bem longe das capitais, porque esses bandidos precisam de isolamento. Não é a 6 km do Palácio do Planalto que nós teremos esse isolamento. Espero muito que a sociedade do DF e o país como um todo defenda a sua capital. Brasília é a capital da República e assim deve ser tratada”, declarou o titular do Palácio do Buriti.

Veja o vídeo:

 

A transferência de Marcola não foi comunicada com antecedência ao GDF. O secretário de Segurança Pública, Anderson Torres, disse que, devido à chegada inesperada, as forças locais não tiveram condições de fazer os preparativos necessários para evitar que a influência do líder criminoso gere insegurança na cidade.

“Agora, precisamos de ajuda efetiva do governo federal, com recursos, equipamentos e pessoal qualificado. Isso é fundamental para nos adequarmos a essa nova realidade, que não estava prevista. O DF já enfrenta uma crise financeira e precisamos de apoio efetivo da União”, afirmou Torres.

OAB
Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Distrito Federal (OAB-DF) também se manifestou. O presidente da entidade, Délio Lins e Silva Júnior, disse que a ida de presos como Marcola para qualquer penitenciária acarreta deslocamento das facções para as referentes unidades da Federação. “Existe essa movimentação e crimes estão ocorrendo fora do padrão no DF. A preocupação da OAB é principalmente com a sociedade”, ressaltou.

“Acreditamos que a chegada de Marcola pode fortalecer os faccionados perante os outros criminosos de Brasília. A Polícia Civil vai continuar fazendo trabalho intenso para evitar a instalação dessa organização aqui”, ratificou o delegado Leonardo Cardoso, titular da Coordenação Especial de Repressão à Corrupção, ao Crime Organizado e aos Crimes contra a Administração Pública e Contra a Ordem Tributária (Cecor).

A chegada de Marcola
O avião Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) com o líder da facção criminosa pousou por volta das 13h20 na capital federal. Marcola chegou à penitenciária federal por volta das 14h20. Além do criminoso, outros três integrantes do PCC vieram no mesmo voo e vão ficar em Brasília: Cláudio Barbará da Silva, Patrik Wellinton Salomão e Pedro Luiz da Silva Moraes, o Chacal.

Além deles, já estão no presídio do DF: Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, o Marcolinha, irmão de Marcola; Antônio José Müller, o Granada; e Reinaldo Teixeira dos Santos, conhecido como Funchal ou Tio Sam.

De acordo com o Ministério da Justiça, “a ação é parte dos protocolos de segurança pública relativa à alternância de abrigo dos detentos de alta periculosidade ou integrantes de organizações criminosas, entre as unidades prisionais federais”.

A chegada deles ocorreu no mesmo dia em que a Polícia Civil e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) fizeram operação contra a expansão da facção criminosa na capital da República.

Mais de 300 anos em penas
Marcola foi preso pela primeira vez pela polícia paulista no final da década de 1990, por roubos a carros-fortes e bancos. Já na prisão, também foi condenado por formação de quadrilha, tráfico de drogas e homicídio. Até hoje, no entanto, Marcola nega que seja chefe da facção criminosa.

Recentemente, foi condenado a 30 anos de prisão no processo da Operação Ethos, que investigou o setor jurídico da organização criminosa. Com essa decisão, o total das penas impostas a Marcola já ultrapassa 300 anos.

Para justificar a transferência de Marcola de Presidente Venceslau, promotores do Ministério Público de São Paulo afirmaram que a organização planejava resgatá-lo. De acordo com eles, foram gastos dezenas de milhões de dólares no plano, investindo em logística, compra de veículos blindados, aeronaves, material bélico, armamento de guerra e treinamento de pessoal.

No DF em 2001
Essa, contudo, não é a primeira vez que Marcola é transferido para o DF. Diligências policiais apontam que a história do PCC em Brasília começou em 5 de março de 2001, após o chefe máximo da organização desembarcar na capital.

Depois de peregrinar por diversos presídios do país, Marcola foi recolhido ao Centro de Internação e Reeducação (CIR). Apesar da estada ter sido curta – ficou encarcerado até 8 de fevereiro de 2002 –, deixou marcas profundas tanto na mentalidade da massa carcerária quanto na segurança pública candangas.

No curto período em que esteve na Papuda, Marcola criou um braço do PCC chamado pelos criminosos de Partido Liberdade e Direito (PLD). Investigadores identificaram que a facção havia sido criada nos mesmos moldes da organização paulista, inclusive em relação às regras contidas em seu estatuto.

A organização criminosa definiu uma série de termos para facilitar a comunicação dentro da Papuda. As ordens da cúpula eram transmitidas de dentro dos presídios pelos “torres”, bandidos responsáveis pelo repasse de informações aos “pilotos”, presidiários escolhidos para coordenar os integrantes do PCC que estavam atrás das grades.

Os levantamentos feitos pela polícia mapearam que o organograma do PCC seria rígido e semelhante a uma estrutura militar, com níveis de comando hierarquizados, divididos em escalões de acordo com o poder exercido pelos membros e suas respectivas funções. A organização criminosa ainda construiu uma rede de colaboradores, formada por advogados, familiares, namoradas de detentos e visitantes.

Conduzidas pelo regimento da organização, essas pessoas são responsáveis pela articulação dos interesses dos encarcerados fora dos presídios, dando suporte jurídico, psicológico e, principalmente, financeiro, inclusive com o gerenciamento de contas bancárias alimentadas com dinheiro faturado em ações criminosas.

Sobre as contas bancárias ligadas ao PCC, as apurações policiais apontam que apenas 20% delas estariam relacionadas a movimentações financeiras de alto valor, acima de R$ 100 mil. O restante seria feito por meio de pequenos depósitos.

Além das contas administradas pelos colaboradores da facção, grande parte dos recursos do PCC estaria ligada a empresas de fachada, como pequenas redes de supermercados, negócios imobiliários, restaurantes, agências de automóveis e até cooperativas de transporte de São Paulo.

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