Polícia vai investigar livro de subsecretário apreendido com sem-teto

Polícia Civil quer saber qual é o conteúdo e as instruções passadas nos textos assinados pelo titular da Subsecretaria de Movimentos Sociais e Participação Popular, Acilino Ribeiro

atualizado

metropoles.com

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Um objeto deixado para trás pelos integrantes do Movimento Resistência Popular (MRP) forçados a desocupar o Torre Palace Hotel no domingo (5/6) chamou a atenção das forças de segurança: o livro “Estratégia e Tática da Luta Revolucionária”. Dois fatores são curiosos. O primeiro diz respeito ao autor da obra, Acilino Ribeiro, que é subsecretário de Movimentos Sociais e Participação Popular, da Secretaria de Relações Institucionais e Sociais. A segunda questão é que o livro, encadernado em forma de apostila, traz uma dedicatória de Acilino para Ylka Carvalho, presa em dezembro passado acusada de integrar uma organização criminosa que extorquia famílias carentes no DF.

Fotos da publicação circulam em grupos do WhatsApp desde segunda (6). O material foi recolhido como prova e será periciado. Os investigadores querem saber qual é o conteúdo e as instruções passadas nos textos. Ainda não é possível dizer desde quando os militantes têm o exemplar. A obra também será encaminhada à Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco), que cuida da investigação que envolve os líderes do movimento social. Em dezembro do ano passado, além de Ylka, 11 integrantes do MRP foram detidos suspeitos de extorsão e organização criminosa.

Entre os detidos estava Edson Francisco da Silva, líder do MRP e companheiro de Ylka. O grupo extorquia famílias do movimento social que recebiam o auxílio aluguel, benefício no valor de até R$ 600. A organização cobrava, mensalmente, cerca de R$ 50 das quase 900 famílias que integravam o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – a prática teria sido aplicada também no MRP.

Por meio de nota, a Casa Civil do GDF respondeu que “a cartilha foi escrita e publicada em 1984, há 32 anos. Na época, Acilino era guerrilheiro, membro do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro). No manuscrito, as referências são em direção ao pensamento de Nelson Mandela, Mahatma Gandhi e Martin Luther King, três figuras pacifistas”.

Ainda segundo o GDF, “nas linhas escritas pelo ex-guerrilheiro, ele repudia utilizar crianças e idosos no enfrentamento com as forças de segurança. Há passagens no livro em que Acilino enfatiza a não violência fazendo apologia a luta pacifista. Foram distribuídos mais de 15 mil exemplares em diversos eventos de movimentos sociais e partidos políticos em todo mundo ao longo dos anos em português, espanhol, inglês e árabe”.

Ditador líbio
Com sete pós-graduações, advogado, guerrilheiro e ex-segurança do ditador líbio Muamar Kadafi, Acilino Ribeiro é figura conhecida nos movimentos de esquerda. Em 2013, ele foi o responsável por absolver na Justiça os black blocs acusados de fazer quebra-quebra na Praça dos Três Poderes.

Ribeiro também atuou no movimento estudantil como dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Atualmente, Acilino faz parte da direção do PSB no Distrito Federal.

Prisões
Os líderes da invasão ao Torre Palace Hotel vão continuar presos até o julgamento do processo pela prática dos crimes de organização criminosa, tortura, resistência, desobediência e dano aos patrimônios privado e público — os últimos dois casos incluem os ataques feitos aos helicópteros da PM.

Na segunda (6), a juíza Lorena Alves Campos, do Núcleo de Audiência de Custódia de Brasília, converteu em preventiva a prisão em flagrante de Edson FranciscoYlka, Alenilson de Sousa Neres, Luiz Henrique Amaro Coutinho e Robison Gomes dos Santos.

Alenilson e Robison, que usaram nomes falsos ao serem detidos, serão indiciados também por falsidade ideológica, com pena prevista de um a cinco anos de reclusão.

Na mesma decisão, a juíza liberou outros sete participantes da invasão, que vão responder o processo em liberdade.

Desocupação
Os sem-teto que resistiam à retirada foram dominados e se renderam às 7h07 de domingo, 35 minutos após o início da operação. No total, a ação durou uma hora e meia. Eles atiraram tijolos, pedras, telhas e até botijões de gás contra os policiais, além de provocarem um princípio de incêndio no terraço do hotel. Um dos ocupantes saiu ferido por uma bala de borracha. Ele foi medicado em uma ambulância do Corpo de Bombeiros. Duas horas depois da operação, um outro ocupante foi preso. Ele havia se escondido no prédio, mas foi capturado quando tentava fugir. Foram 96 horas interruptas de serviço das forças operacionais.

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