Playboy que lucrou R$ 3 milhões com golpes tinha só R$ 2 na conta

Na lábia, o brasiliense Marlon Gonzalez convenceu operadores financeiros a pagar fortunas em transações envolvendo moedas virtuais

atualizado 06/11/2019 17:58

Reprodução/Redes sociais

As inúmeras vítimas e o rastro de prejuízos deixado pelo brasiliense Marlon Gonzalez Motta (foto em destaque), 23 anos, motivaram várias ações cíveis que passaram a tramitar em instâncias comuns e na Justiça Federal. Uma delas, que corre na 15ª Vara Cível de Brasília, determinou o bloqueio das contas do golpista, mas a medida não teve efeito prático. Numa delas, havia apenas R$ 418,54 e, na outra, míseros R$ 2.

As fraudes cometidas por Marlon foram reveladas em duas reportagens publicadas pelo Metrópoles, nos dias 25 e 26 de agosto. Apesar da repercussão nacional, o estelionatário parece não ter se intimidado. Recentemente, o falso empresário do mercado financeiro enganou nova vítima e causou rombo de R$ 450 mil nas contas dela.

O estelionatário viaja o mundo em jatos particulares, hospeda-se em hotéis luxuosos e chegou a gastar R$ 100 mil em uma balada. No entanto, por trás da ostentação, está uma onda de falcatruas que ultrapassa a casa dos R$ 3 milhões, segundo apuração da Polícia Civil do DF. Fingindo ser um megainvestidor, Marlon se vale da lábia para convencer operadores financeiros a pagarem fortunas em transações envolvendo moedas virtuais. A reportagem conversou com uma das vítimas do Distrito Federal. O homem entrou com uma ação e tenta recuperar os R$ 50 mil perdidos por confiar no trapaceiro.

De acordo com o investidor, que preferiu não se identificar, o bloqueio das contas foi um primeiro passo para tentar reaver os valores. “Ainda vamos atrás de carteiras onde ficam moedas virtuais”, resumiu. A vítima acreditava que seu dinheiro seria aplicado na bolsa e aportou R$ 50 mil na empresa BMBC Consultoria em Investimentos Ltda., de propriedade de Marlon. O homem enganado contou ter sido convencido pelo golpista a fazer a aplicação em 2018. Cerca de um mês depois da operação, o cliente resgatou parte do investimento feito: R$ 11 mil. No entanto, em setembro, Marlon deixou de fazer os repasses e não atendeu mais as ligações.

Novo golpe

Mesmo acionado na Justiça por diversas pessoas, o estelionatário permanece agindo e prometendo fortuna a interessados em lucrar com a aquisição de moedas virtuais. Para atrair novos alvos, Marlon utiliza o mesmo método: deixa transparecer nas redes sociais uma vida de luxo e sucesso, sempre viajando em jatos particulares, se hospedando em hotéis sofisticados e dirigindo carros importados. Mais cauteloso, o falso operador do mercado financeiro colocou seus perfis do Instagram e do Facebook no modo privado, aceitando apenas pessoas conhecidas. Apesar disso, o Metrópoles teve acesso a vídeos postados recentemente por ele.

A última trama engendrada por Marlon foi registrada pela PCDF, mas o caso deverá ser remetido para as forças policiais de São Paulo e Bahia, já que o dinheiro fruto do golpe foi parar em contas bancárias da capital baiana. Ele teria convencido investidores paulistas a comprarem R$ 450 mil em bitcoins. A transação teria ocorrido em São Paulo, mas teve desfecho na capital do país, quando dois operadores de moedas virtuais que ficam em Taguatinga foram acionados por Marlon. Ambos foram procurados pelo golpista logo após ele praticar o golpe em terras paulistas.

Marlon queria usar o dinheiro amealhado com o estelionato para comprar bitcoins de forma lícita. No entanto, os dois operadores o teriam reconhecido e bloquearam o dinheiro das vítimas enganadas em São Paulo. De acordo com fontes policiais ouvidas pela reportagem, essas duas pessoas são procuradas e serão convidadas a prestar depoimento.

Rastro de crimes

Marlon Gonzalez responde a cinco inquéritos pelos crimes de estelionato, associação criminosa, denunciação caluniosa, falsa comunicação de crime e fraude a seguro. Ele entrou no radar da 17ª DP quando um amigo do falsário começou a ser investigado por usar a identidade funcional de outra pessoa. Entre os documentos apreendidos com o suspeito, os policiais encontraram papéis com o timbre da empresa M3 Private, de propriedade de Marlon.

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Fingindo ser megainvestidor, o falsário usa a lábia para convencer operadores financeiros a pagarem fortunas em transações envolvendo moedas virtuais. As vítimas que Marlon fez no Distrito Federal sofreram desfalques entre R$ 50 mil e R$ 100 mil.

 

Os brasilienses que caíram na armadilha de Marlon passaram a monitorar os passos do jovem e descobriram que, no início de agosto, foi a vez de investidores paulistas serem enganados. Eles esperavam comprar grandes quantidades de bitcoins – uma das modalidades de moeda digital –, mas amargaram prejuízos que chegariam a R$ 880 mil.

Marlon teria usado o mesmo modus operandi utilizado para lesar chineses e brasileiros, que perderam R$ 600 mil em uma transação feita em Hong Kong: o jovem simulava a transferência das moedas digitais após a fortuna entrar em contas de laranjas.

Festa e iate

Após conseguir lesar os paulistas no início do mês, em 15 de agosto, Marlon contratou 14 modelos brasilienses e cariocas, pagando cachês de R$ 2 mil mais passagens aéreas e hospedagem. Ao todo, 15 quartos foram reservados no Hotel Windsor Leme, na Avenida Atlântica, zona sul do Rio de Janeiro.

Cada diária no hotel de luxo da capital fluminense custa cerca de R$ 500, fora as taxas. O estelionatário também bancou uma noitada em camarote na boate All Win, na Barra da Tijuca, com comida e bebida liberadas para as garotas.

Na manhã seguinte, com uma equipe de filmagem e maquiadora contratadas, todos embarcaram em um iate de 100 pés alugado por R$ 38 mil. “Nesse valor não estão inclusos os serviços de marinheiro e combustível. Para isso, é preciso pagar mais R$ 15 mil, totalizando R$ 53 mil”, contou uma funcionária da locadora de barcos em que o golpista contratou o serviço.

A mulher comentou, sem saber que estava falando com uma das vítimas do fraudador, que o valor foi pago à vista, em dinheiro vivo. Além do aparato e equipamentos alugados, Marlon ainda teria contratado um grupo de seguranças armados que acompanhou as modelos durante os dias de filmagem.

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Gonzalez Group

Todas as modelos que participaram da sessão de fotos e filmagens a bordo do luxuoso iate trajavam maiôs pretos com o logotipo “Marlon Gonzalez Group”, espécie de empresa supostamente criada pelo estelionatário a fim de oferecer serviços especializados em tecnologia e operação no mercado financeiro e de moedas digitais.

Em suas redes sociais, Marlon chegou a publicar a imagem do que seria um aparelho de telefone celular desenvolvido por ele, que custaria R$ 20 mil.

Reprodução

 

Monitoramento

O primeiro golpe que Marlon aplicou e que a polícia começou a apurar ocorreu em abril e teve como alvo uma operadora chinesa que trabalha com a compra e venda de moedas digitais. Baseada em Hong Kong, a DSUNDC Limited amargou prejuízo de R$ 600 mil.

Um dos sócios da empresa é o investidor Alexandre Dantas, brasileiro radicado há anos nos Estados Unidos. Dantas conheceu Marlon por meio de um amigo em comum que mora no DF, e ambos demonstraram interesse em fazer negócios nos quais Marlon prometia vender uma grande quantidade de bitcoins.

O golpista armou um esquema com comparsas, abriu contas bancárias de fachada em nome de empresas chinesas e conseguiu concluir uma transação na qual Dantas e seus sócios transferiram US$ 150 mil para uma das contas.

Em seguida, o dinheiro percorreu caminhos desconhecidos e Marlon não atendeu mais aos telefonemas. Para simular legalidade na transação, o estelionatário chegou a enviar um representante para Hong Kong com a missão de concluir pessoalmente a operação.

Logo após os chineses transferirem o dinheiro, Marlon avisou, por WhatsApp, que o valor não havia entrado na conta. O representante do golpista chegou a ser preso no país asiático e foi liberado após a polícia local descobrir que ele também havia sido enganado e não fazia ideia de que Marlon planejava aplicar o golpe.

Sempre após enganar as vítimas, o falso investidor desativa as redes sociais e viaja para países na Europa, Caribe ou Ásia, onde passa temporadas torrando os valores obtidos com as fraudes.

A reportagem tentou localizar Marlon Gonzalez, tanto pelo celular quanto pelas redes sociais, mas ele não retornou os contatos.

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