Pedreiros que mataram italiano foram contratados um dia antes do crime
Com os olhos marejados, a viúva de Orazio, Maria Lourdes de Souza, contou os detalhes dos dias que antecederam o crime brutal
atualizado
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Em conversa exclusiva com o Metrópoles, os familiares do pastor italiano e artista plástico Orazio Giuliani, de 80 anos, revelaram que os dois pedreiros responsáveis pelo latrocínio do homem começaram a trabalhar na obra da igreja um dia antes de cometerem o crime em São Sebastião (DF). O caso aconteceu no sábado (11/4).
Com os olhos marejados, a viúva de Orazio, Maria Lourdes de Souza, contou os detalhes dos dias que antecederam o crime brutal. Segundo ela, o italiano adquiriu o lote há 10 anos no intuito de fazer uma obra social. O local, que seria uma igreja, estava sendo reformado aos poucos. A família possui residência no Jardim Botânico (DF).
Segundo Maria, na quinta-feira (9/4), os suspeitos Leonardo Conceição de Araújo e o primo dele Bruno Cruz de Araújo, conhecido como “Coveiro”, procuraram o italiano pedindo uma oportunidade para trabalharem na obra da igreja. O dono da propriedade aceitou.
“Um deles pediu para trabalhar uma diária e perguntou se poderia levar outra pessoa, aí o Orazio aceitou e pediu para irem no dia seguinte”, relatou Maria.
A dupla começou o trabalho na sexta-feira (10/4). Orazio pediu que eles retornassem para dar continuidade no sábado, sem saber que o dia terminaria de forma trágica.
A esposa do italiano informou que, no sábado, ele teria visto pelas câmeras instaladas no local que um dos pedreiros teria ficado muito tempo deitado e também ouviu relatos de um vizinho sobre o comportamento. Após isso, ele teria combinado que pagaria somente metade do valor combinado na diária. Maria Lourdes acredita que isso possa ter motivado o crime.
“Ele era um italiano muito pontual, muito correto. Então, provavelmente essa história que ele disse que ia pagar meia diária porque o cara trabalhou metade do dia, pode ter causado a desavença”, analisou Maria.
Thiago Jatobá, enteado de Orazio, também acredita que o fato de italiano não falar português tão bem possa ter contribuído para a confusão. “Pode ter tido, talvez, uma barreira linguística, uma dificuldade de entender. Ele falou um valor, o cara entendeu outro e, quando foi pagar, era outro”, teorizou Thiago.
Família chegou minutos depois de fuga
De acordo com Maria, Orazio sempre chegava entre 18h30 e 19h e, naquele dia, ele atrasou. Também não atendeu ao telefone e nem respondeu as mensagens. Foi quando ela resolveu ir atrás do marido para procurá-lo. Ao chegar ao local da obra, acabou encontrando vestígios de sangue. A chegada da mulher teria ocorrido minutos depois dos criminosos fugirem com a vítima do local.
“Nós vimos depois nas câmeras que eles saíram por volta de 20h57 e nós chegamos lá por volta de 21h12. Foi livramento, porque se a gente chega na hora podíamos ser vítimas também”, disse a viúva do italiano.
A família chegou a cogitar que Orazio teria se machucado quando chegaram ao local e ligaram para hospitais próximos. “Nós vimos que o sangue estava fresco, mas não imaginamos de início que poderia ter sido um crime”, contou Thiago, enteado do pastor.
Após falarem com uma vizinha, a esposa e o enteado deram de conta do que poderia ter acontecido. “A vizinha disse que ele saiu de carro rápido com outras pessoas e nós desconfiamos porque ele dirigia de forma bem cautelosa”, falou Maria Lurdes.
Detalhes do crime
- Segundo as investigações, Orazio Giuliani saiu de casa na manhã de sábado (11/4) e não retornou, o que levou a mulher da vítima a iniciar buscas por conta própria.
- Ao se dirigir à chácara onde o idoso construía uma igreja, ela se deparou com uma cena chocante: o local apresentava grande quantidade de sangue espalhado pelo chão, sinais de arrombamento na porta de entrada, além de uma corda com vestígios de sangue e a dentadura da vítima caída no interior do imóvel.
- As apurações também revelaram que o veículo da vítima, um Peugeot 206 prata, foi visto deixando o local em alta velocidade por volta das 21h, comportamento considerado incomum, já que, segundo familiares, Orazio dirigia de forma cautelosa. O veículo foi encontrado incendiado em uma área de mata logo depois.
- Câmeras de segurança registraram a presença de dois homens dentro do imóvel, mas o sistema foi desligado durante a ação, o que reforça a suspeita de um crime premeditado.
Furtos
Maria Lurdes contou que quatro furtos foram registrados na obra, o que fez o italiano até chumbar uma betoneira no concreto para que ninguém levasse. De acordo com ela, o pedreiro que atuava no local antes da dupla estaria sendo monitorado por tornozeleira eletrônica, o que motivou Ozorio a mandá-lo embora.
“Ele contou que o rapaz que ficou dois meses lá trabalhava com um negócio no pé. Aí eu falei para confrontá-lo. Ele deu uma desculpa, mas foi demitido”, contou Maria.
Depois dos furtos, os dois pedreiros Bruno e Leonardo começaram a trabalhar no local. Os dois foram presos acusados do crime de latrocínio (roubo seguido de morte) e ocultação de cadáver.
Justiça
A viúva de Orazio conta que ainda está buscando assimilar a morte do companheiro. Ela tem buscado ajuda médica. “Acho que a ficha não caiu ainda. A verdade é essa, ainda estou meio aérea. A impressão que dá é que é uma coisa que está acontecendo com alguém”, relatou.
“É que tem a justiça, que é o que a gente espera, mas, para mim, a justiça é de Deus. Ele [Orazio] tinha uma fé muito inabalável. Por isso que acho que ele achava que nada aconteceria com ele, sabe? Ele tinha uma fé muito forte. Espero que essa justiça venha de Deus mesmo”, desabafou Maria Lurdes.
A família agora aguarda a liberação do corpo, que foi encontrado nesta terça-feira (14/4), para que comecem a pensar no velório de Orazio, que teria revelado vontade de ser enterrado no Brasil. Os parentes do pastor também estão recebendo auxílio da Embaixada da Itália.
O pastor italiano que teve a vida ceifada de forma trágica deixou na Itália três filhos, netos e um bisneto que nasceu há três meses.










