Pais decidem tirar os filhos da escola durante a pandemia no DF

O abandono escolar é uma preocupação entre entidades e especialistas. Segundo a Unicef, em 2020, 4% dos estudantes no DF deixaram a escola

atualizado

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Inauguração escola técnica de Brazlândia
1 de 1 Inauguração escola técnica de Brazlândia - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

A instabilidade decorrente da pandemia de Covid-19, o vaivém de determinações sobre o modelo de aula a ser adotado nas escolas e o medo da contaminação por um vírus fatal fizeram pais e mães do Distrito Federal encerrar a matrícula de seus filhos nas instituições de ensino. O abandono escolar já é percebido por entidades como o Conselho Nacional de Educação (CNE), Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe-df) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo Enfrentamento da cultura do fracasso escolar, da Unicef, considera que reprovação, abandono escolar e distorção idade-série são partes de um mesmo problema: o fracasso na escola. Segundo o estudo, devido à pandemia, mais de 5,5 milhões de crianças e adolescentes não tiveram aulas em 2020.

O cenário de desigualdades que já preocupava antes da pandemia da Covid-19 se tornou ainda mais grave com ela. Em outubro de 2020, 3,8% das crianças e dos adolescentes de 6 a 17 anos (1,38 milhão) não frequentavam mais a escola no Brasil – sejam em aulas remotas ou presenciais. O dado é superior à média nacional de 2019, que foi de 2%, segundo a Pnad Contínua.

No Distrito Federal, esse percentual é de 4,4% da população em idade escolar, sendo mais acentuada entre as crianças da educação infantil, de acordo com o estudo. O detalhamento dos dados será divulgado ainda neste mês de abril, o que demonstrará como o abandono e a evasão ocorreram e ocorrem durante a pandemia.

Veja os dados: 

Abandono educação

 

De acordo com a presidente do Sinepe, Ana Elisa Dumont, o abandono é uma preocupação real entre os professores e donos de escolas. “Na educação privada, o abandono é notado em maior número na educação infantil e anos iniciais da educação fundamental”, analisa a presidente da entidade.

Segundo ela, ainda não há dados oficiais para representar esse avanço na pandemia, mas sim a percepção e a preocupação com o abandono e os prejuízos que ele pode trazer aos estudantes.

Veja:

Abandono intelectual

A ressalva feita pelo Sinepe também é endossada pela Secretaria de Educação e pelo Conselho de Educação do DF. Eles lembram que a legislação brasileira determina a obrigatoriedade de matricular em escolas crianças e jovens com idades entre 4 e 17 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação trazem as orientações sobre o assunto.

Não respeitar essa determinação pode gerar problemas para os pais ou tutores, como a acusação em conselhos tutelares de abandono intelectual. “O abandono e o retrocesso/prejuízo nas aprendizagens são dois imensos problemas. Além da saúde mental. No ano passado, alertamos os pais e as escolas sobre a previsão legal de escolaridade formal das crianças em idade pré-escolar (a partir dos 4 anos)”, afirmou o presidente do Conselho de Educação do DF, Marco Almeida Del’Isola.

Porém, o presidente sabe das dificuldades enfrentadas pelas famílias e ressalta que cada caso é diferente. “Qualquer desrespeito à lei é passível de denúncia. No entanto, vivemos num período de excepcionalidade, que é a pandemia. Sem contar que não há aulas presenciais na rede pública do DF”, ressaltou.
Dilema e medo das famílias

Maria* tem 32 anos e é mãe de três filhas. Ela cuida das meninas de 1 ano e 6 meses, 5 e 7 anos sozinha, e afirma ter observado o quanto a inconstância de abertura das escolas estava prejudicando as crianças psicologicamente, além de não ter condições de conciliar a educação remota com o home office.

“Eu tomei a decisão de tirá-las da escola em maio de 2020. Minha filha mais velha ficou tão ansiosa em voltar para as aulas presenciais, com saudade dos amigos, que se feria fisicamente. A de 5 anos estava em alfabetização. Eu tinha um bebê para cuidar, não foi possível”, afirmou a assessora parlamentar.

Ela relata que a decisão de tirar as filhas da escola ocorreu devido à dificuldade na educação on-line e ao medo de que todas as crianças fossem contaminadas com o novo coronavírus. “Não posso contar com a possibilidade delas ficarem doentes. Eu sou mãe de três, e se eu tiver Covid? Como vou cuidar delas? É uma decisão muito difícil. Elas estão correndo risco de morte com essa doença. Não vou mandá-las para o ensino presencial sem vacina”, declarou.
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A mãe ainda viveu a ansiedade de ver a avó das crianças contaminada. “Hoje, comprei livros, tento ensinar em casa. A de 5 anos já aprendeu a ler. Vou analisar como será; se será possível o retorno após julho. O ensino remoto não funcionou aqui e preciso de segurança sanitária para voltar”, contou a mãe ao Metrópoles.

Em outro caso, a servidora pública Débora Castro, 43 anos, tirou a filha de 2 anos e 10 meses do maternal. “Foi em março, quando começou a pandemia. Não tinha condições de acompanhar as aulas. Tenho outra filha, de 14 anos”, disse. Além disso, Débora é do grupo de risco e não pode pensar em retornar a filha para o presencial. “Ela fez 4 anos há dois dias. Agora é obrigatório. Já estamos analisando a matrícula para o meio do ano. Ainda estamos com medo da contaminação pela Covid”, concluiu.

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