PCC cadastrava batizados e marcados para morrer em "livros branco e preto"
Investigação expõe a contabilidade de sangue do PCC. Registros em livros branco e preto definiam quem entrava para a facção e quem morreria

Dentro da engrenagem burocrática do Primeiro Comando da Capital (PCC), a existência de um indivíduo nas ruas do Distrito Federal era reduzida às páginas de dois cadernos invisíveis ao cidadão comum, mas com peso de sentença perpétua no submundo do crime: o “livro branco e o livro preto”.
Mais do que meros registros administrativos, os manuscritos representam a linha divisória entre o pertencimento e a liquidação. No livro branco, registra-se a vida, o nascimento formal do indivíduo dentro da estrutura criminosa, validado pelo ritual do batismo.

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Ver todasNo livro preto, decreta-se a execução, a catalogação fria de rivais marcados para a morte, tratados internamente pelo termo pejorativo de “lixo”. Em sua maioria, seriam criminosos ligados à facção rival Comando Vermelho (CV).
A dinâmica dessa contabilidade clandestina veio à tona nas primeiras horas dessa quinta-feira (8/10), com a deflagração da Operação Jubilados, conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor) em conjunto com a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Distrito Federal (Ficco/DF).
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesVeja os livros preto e branco:

Burocracia da violência
O organograma revelado pelas investigações mostra que o PCC operava na capital federal com rigor corporativo. A função de gerenciar esse arquivo cabia ao chamado “Geral do Livro”, alvo cujo mandado de prisão foi cumprido durante a ofensiva policial.
Para integrar o Livro Branco, o candidato ao crime não podia simplesmente se voluntariar. O ingresso exigia um processo rigoroso de apadrinhamento e chancela:
- Indicação e Aval: um integrante já batizado assumia a responsabilidade formal pelo novato perante a cúpula da facção;
- Atribuição de registro: após a aprovação da indicação organizada, o indivíduo recebia um número de matrícula único e um “vulgo” (alcunha pelo qual passaria a responder);
- O batismo: com o aval e os dados repassados pelo padrinho, o ritual de batismo era formalizado, selando a entrada definitiva no catálogo oficial da organização.
Em contrapartida, o livro preto funcionava como o inventário de alvos da facção. Nele, a cúpula catalogava os membros de facções rivais, como o CV. Para os faccionados do PCC, executar um rival listado como “lixo” representava uma oportunidade de ascensão interna e ganho de notoriedade, ainda que a maioria dessas investidas resultasse em tentativas frustradas de homicídio.
Cerco à faculdade
O desmantelamento dessa estrutura foi viabilizado após o desdobramento de dados colhidos na Operação Mosaico, em dezembro de 2025. A inteligência policial identificou que o comando do grupo no DF migrou para o ambiente virtual, estabelecendo uma célula de comando denominada “Faculdade Brasília”.
Composta por cerca de 80 integrantes batizados, a rede funcionava como cérebro e tribunal executivo da facção. Além do fórum “Faculdade Brasília”, o grupo gerenciava o canal “Juntos Somos Mais Fortes DF”.
Pelos aplicativos de mensagem, a cúpula administrava a logística de armas e munições, a expansão de pontos de venda de drogas (as “lojas”) e até um setor clandestino de contrainteligência encarregado de espionar passos de viaturas e mapear a rotina de policiais.
Assistencialismo criminoso
As apurações também detalharam o braço financeiro e social do grupo. A facção promovia rifas periódicas — comercializando desde veículos até itens de menor valor arrecadados — para financiar o socorro básico às famílias de detentos. Os recursos pagavam cestas básicas, vestuário e suprimentos essenciais, usando a assistência social como ferramenta para fixar a lealdade dos encarcerados e de suas famílias.
A ofensiva mobilizou um grande aparato de forças de segurança, integrando agentes da PCDF, Polícia Federal, Polícia Militar do DF, Polícia Penal e Polícia Civil do Estado de São Paulo. Ao todo, a Justiça expediu 21 mandados de prisão temporária e 27 de busca e apreensão.
Os investigados capturados responderão enquadrados no artigo 2º da Lei nº 12.850/2013 (integração em organização criminosa), com penas que podem chegar a 8 anos de reclusão, sem prejuízo de futuras responsabilizações por tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo e homicídio qualificado. A perícia técnica atua na extração de dados dos dispositivos eletrônicos apreendidos para identificar novas ramificações da rede no centro do país.









