
Na MiraColunas

Pacientes com câncer podem ter tomado remédio sem efeito: “Placebo de alto custo”
Pacientes oncológicos em estado grave podem ter tomado medicamentos ineficazes revendidos ilegalmente por organização criminosa alvo da PCDF
atualizado
Compartilhar notícia

Uma descoberta chocante veio à tona durante as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal no âmbito da operação Alto Custo: medicamentos essenciais para o tratamento de câncer e para pacientes transplantados estavam sendo vendidos sem qualquer controle de refrigeração, condição básica para manter sua eficácia. Segundo as investigações, muitos desses remédios podem ter sido aplicados já sem efeito algum, como verdadeiros placebos, ou até em condições capazes de causar danos à saúde.
A revelação ocorreu durante a investigação conduzida pela 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul), que desmantelou um esquema criminoso considerado um dos mais graves dos últimos anos. A quadrilha atuava roubando e desviando medicamentos de alto valor, que depois eram recolocados no mercado como se fossem produtos com procedência legítima.
Veja medicamentos avaliados em R$ 4 milhões interceptados pela PCDF:
Além do roubo, o que mais alarmou as autoridades foi o descaso com o armazenamento. Após serem furtados ou roubados, os medicamentos, muitos deles sensíveis à temperatura, eram transportados e guardados sem refrigeração adequada. Isso compromete totalmente sua eficácia, especialmente em tratamentos delicados como os de câncer e em pacientes que passaram por transplantes, cujo organismo depende de remédios precisos para não rejeitar órgãos.
Veja como funcionava o esquema:

Grupo organizado
A investigação revelou ainda que o esquema era altamente organizado. Empresas de fachada eram usadas para emitir notas fiscais falsas, dando aparência legal aos remédios roubados. Assim, eles conseguiam entrar novamente no sistema de saúde, sendo vendidos até para hospitais públicos.
O caso ganhou força após a polícia interceptar uma carga avaliada em cerca de R$ 4 milhões, roubada no Rio de Janeiro e levada ao Distrito Federal por avião. A partir daí, foi possível rastrear toda a rede criminosa.
Ao todo, foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão e cinco prisões preventivas em diferentes regiões. Também foi descoberto que 13 funcionários de uma empresa farmacêutica participavam do esquema, desviando medicamentos diretamente de dentro da própria companhia.
Braço armado
A polícia investiga ainda a ligação do grupo com facções criminosas do Rio de Janeiro, responsáveis pelos assaltos às cargas. A operação Alto Custo contou com o apoio da Divisão de Operações Especiais (DOE), além da Polícia Civil de Goiás (PCGO) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Para o delegado-chefe da 10ª DP, Laércio Rosseto, responsável pelo caso, o crime vai muito além de prejuízo financeiro. “Não se trata apenas de um esquema milionário, mas de um ataque direto à vida. Esses criminosos colocaram em risco pacientes extremamente vulneráveis, que dependem desses medicamentos para sobreviver. Muitos medicamentos não eram mantidos sob refrigeração e isso faz com que perdesse o feito, virando placebo, degradando o príncipio ativo e tornando-os ineficazes ou até tóxicos à saúde das pessoas”, afirmou.
