“Melhor presente”, diz jovem do DF preso injustamente após reencontrar família

Lucas recebeu a equipe do Metrópoles na casa da tia, em Ceilândia, próximo ao local onde foi preso, em 20 de dezembro de 2017

atualizado 22/10/2020 13:57

Preso injustamente por três anos no DF, Lucas Moreira da Silva é soltoHugo Barreto/Metrópoles

Preso injustamente por quase três anos no DF, Lucas Moreira de Souza, 26 anos, foi solto na madrugada desta quinta-feira (22/10). Nesta manhã, Lucas pôde rever o filho depois de dois anos,  abraçou a mãe e não segurou a emoção. “A última vez que eu vi meu filho foi em 15 de novembro de 2018. Praticamente perdi a infância dele, porque quando fui preso ele tinha 2 anos. Agora, tem 5”, disse.

Lucas recebeu a equipe do Metrópoles na casa da tia, em Ceilândia, próximo ao local onde foi preso, em 20 de dezembro de 2017. O jovem deixou o Complexo Penitenciário da Papuda ainda durante a madrugada, foi a pé até a Rodoviária do Plano Piloto e, de lá, pegou um ônibus para a região administrativa onde voltou a morar com a família.

Após posicionamento do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pela liberdade de Lucas, a juíza da Vara de Execuções Penais (VEP) Leila Cury concedeu alvará de soltura para o rapaz, na noite dessa quarta-feira (21/10). Ele havia sido condenado a 77 anos de prisão.

Veja fotos do reencontro de Lucas com a família:

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No próximo dia 31, Lucas completa 27 anos e diz que “presente melhor não poderia receber”. “Agora só quero ficar com meu filho, com a minha mãe, com as pessoas que não esqueceram de mim enquanto eu estava naquele lugar.”

“Errar a gente erra muito na vida, mas eu estava preso por algo que não fiz. Perdi muito tempo, perdi a infância do meu filho, senti muita falta dele nesse tempo”, completou.

A primeira coisa que Lucas ao chegar na casa da tia foi comprar um sorvete e um brinquedo para o filho, em um comércio próximo. “Eu queria muito tomar sorvete com meu pai, agora a gente pode”, afirmou o pequeno Kauã Lucas, de 5 anos.

Quando pensa no futuro, o rapaz diz que pretende voltar a estudar. “Se Deus abençoar, vou seguir minha vida, ajudar a minha tia e a minha mãe, criar o meu filho. Estou muito feliz em revê-lo”, completou Lucas.

Emocionada, a mãe do jovem não conseguiu conter as lágrimas ao ver o filho mais velho, enfim, voltar para casa. “Acho que hoje posso dizer que sou a pessoa mais feliz do mundo porque vi verdadeiramente a justiça ser feita. Foi muita dor, muito sofrimento, muita vergonha, muita humilhação. Mas agora eu tenho certeza que o tempo de cantar chegou, porque Deus é fiel”, comemorou a vencedora Maridalha Moreira Conceição, 47.

Assista ao vídeo:

Defensores Públicos

Nos braços da família, Lucas ressaltou a importância do trabalho dos quatro defensores públicos envolvidos no processo – Antônia Carneiro, Jonas Monteiro, Fernando Calmon e Daniel de Oliveira.

“Eu acreditei [na liberdade] quando eles apareceram, porque eu tinha um advogado particular e ele não fez muita coisa. Eu já estava condenado quando eles (Defensoria Pública do DF) foram lá, acreditando em mim, coisa que pouca gente acreditou. Porque pelo fato de você ser negro e morar na periferia, você já é suspeito”, disse.

Ao Metrópoles, Daniel de Oliveira, um dos defensores públicos que atuaram no processo, elogiou o trabalho dos profissionais que conseguiram comprovar a inocência do jovem. “Há dois anos recebemos esse caso, quando um policial chegou até a gente e falou que tinha ciência que ele era inocente. Chegar aqui hoje e entregar o Lucas para a família dele é como tirar um peso das nossas costas”, comentou.

“Quando eu dei abraço no Lucas ali pareceu que tudo que toda a minha carreira valeu a pena. Todos esses anos de trabalho valeram a pena por esse momento. Falei para ele: ‘Agora vamos te devolver para aquele café da manhã que você tinha com a sua tia no dia em que foi preso”, destacou.

Ainda segundo Daniel, agora a Defensoria Pública do DF vai “buscar que o Estado repare esse erro”. “Vamos em busca de uma indenização. Mesmo que não repare todos os danos que ele sofreu, é alguma coisa, para que o Estado entenda que errou e para que isso não aconteça mais”, ressaltou Oliveira.

A condenação de Lucas se deu com base em reconhecimento de vítimas. No entanto, segundo os defensores, as evidências não corroboram que ele tenha participado dos crimes cometidos em Ceilândia.

Quando enfim deixou o presídio nesta madrugada, Lucas não acreditou que aquele momento fosse real. “Eles me liberaram meia-noite. Fui caminhando do Jardim Botânico até a Rodoviária do Plano Piloto a pé. Quando eu saí, parecia que estava sonhando. Fiquei me beliscando no caminho para saber se era verdade”, contou.

O caso

Na noite de 20 de dezembro de 2017, dois homens cometeram um roubo em Ceilândia. Os bandidos seguiram em um carro até o Recanto das Emas e praticaram outros crimes ao longo do caminho, entre eles uma tentativa de latrocínio.

À época, informação da polícia do Recanto da Emas detalhava que um dos suspeitos seria manco. A característica do bandido foi passada para os policiais de Ceilândia, que, então, procuraram o suspeito que se encaixasse nessa característica. Lucas foi abordado pelos policiais na manhã do dia seguinte, enquanto soltava pipa.

O rapaz foi submetido ao reconhecimento de pessoas roubadas em Ceilândia e no Recanto das Emas. As testemunhas de Ceilândia não o reconheceram, mas as vítimas da outra cidade disseram ser ele o responsável pelos crimes.

Um policial acreditou em Lucas e levantou evidências da inocência do jovem. O primeiro deles é que o rapaz não tem a principal característica procurada pelos policiais naquele dia, pois Lucas não é manco.

Além disso, 10 dias depois da prisão, um crime com as mesmas características daqueles praticados em Ceilândia e no Recanto das Emas repetiu-se em Samambaia. Um mês depois, foram presos dois homens, com o mesmo veículo e arma usados nos delitos atribuídos a Lucas. Um dos detidos era manco. Enquanto isso, o jovem permanecia preso.

Metrópoles entrou em contato com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para comentar as inconsistências na investigação do caso, mas, até a última atualização dessa reportagem, não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.

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