O drama de 300 mulheres que precisam tirar contraceptivo com urgência

Com dores, aumento de peso e desenvolvimento de outras doenças, mulheres aguardam até três anos para tirar dispositivo do corpo

atualizado 20/07/2021 12:02

Gustavo Moreno/Especial para o Metrópoles

Cerca de 300 mulheres que fizeram implante do contraceptivo Essure pela Secretaria de Saúde do DF e tiveram problemas por causa do dispositivo estão há pelo menos dois anos aguardando a cirurgia de retirada do item. Até mesmo pacientes consideradas prioridade, com classificação “vermelha”, graças a constantes dores e até mesmo desenvolvimento de câncer, têm enfrentado dificuldades.

O único modo de retirar o Essure, que consiste em duas molas colocadas entre as trompas e o útero, é com a retirada total do órgão feminino por meio de uma histerectomia. Gleyce Cardoso, 35 anos, diz que aguarda o procedimento há quase quatro anos, mas os problemas são bem mais antigos.

Ela colocou o dispositivo em 2013 e já de início passou a sentir dores muito fortes, com o ciclo menstrual mudando completamente. “São dores perto da barriga, na pernas… Não consigo nem andar direito. Passo a maior parte do dia sentada ou deitada. Fora que engordei muito, todo mundo que me vê acha que estou grávida”, conta.

Desde então, Gleyce precisou sair do emprego que tinha e passou a buscar ajuda para retirar o Essure. Foram feitas diversas consultas na rede pública do DF, onde ouviu a promessa de que o nome dela iria para a regulação, e a remoção do útero poderia ocorrer a qualquer momento. “Eu vou nos postos de saúde, no entanto me falam que meu nome não aparece em fila nenhuma”, reclama.

Para piorar a situação, no início do ano ela foi diagnosticada com um câncer no útero. A mulher chegou a fazer a retirada de uma parte do órgão para evitar o crescimento do tumor, mas o médico que fez a cirurgia, por não conhecer o dispositivo, acabou não retirando as molas.

Gleyce acionou a Justiça a fim de tentar garantir a histerectomia, mas ainda aguarda resultado. Enquanto isso, ela segue convivendo com as fortes dores e o risco de o câncer crescer.

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Associação foi criada para ajudar mulheres

Ao perceber que não era a única pessoa que havia colocado o Essure e teve problemas de saúde, Kelli Patrícia da Luz, 41, decidiu criar a Associação de Mulheres Vítimas do Essure Brasil (Amveb). De lá para cá, são cerca de 400 pacientes que entraram em contato pedindo orientações de como remover o dispositivo.

Há cerca de dois anos, ela e outras mulheres participaram de uma reunião com a Secretaria de Saúde em que ficou acordado que seria feito novo protocolo: seriam atendidas no Centro de Saúde da Mulher (Cesmu) e de lá encaminhadas a hospitais de suas respectivas regiões.

A prática não tem funcionado como na teoria. “A mulher chega ao hospital, e o médico nem sabe do que se trata. O único local que estão fazendo certinho é no HRT [de Taguatinga], onde algumas cirurgias estão sendo feitas”, comenta Kelli.

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Dessa forma, a maior parte das pacientes é encaminhada para o Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), onde as mulheres se queixam de enfrentar atendimento desumano. “O mesmo médico que colocou é o que tira, e ele não quer tirar. Fica falando que a gente é maluca, pergunta quantos homens a gente tem, que somos desocupadas por criar a associação”, reclama a presidente da Amveb.

As mulheres ouvidas pela reportagem disseram que o médico recentemente foi afastado e que o Hmib passou a não dar mais previsão sobre quando novas cirurgias ou consultas vão acontecer.

“Só quem vai no Ministério Público e judicializa o caso é que está conseguindo. Eu tenho tentado contato com eles para falar também de outras questões, como, por exemplo, a necessidade de tratamento oncológico para as mulheres que já conseguiram tirar o Essure, mas não estou conseguindo no momento”, explica Kelli.

Yanka Romao/Metrópoles

Espera que só aumenta a angústia

Adriana Vieira, 42, tem classificação vermelha para passar pela histerectomia há quase um ano, mas o procedimento ainda não foi realizado. “Tenho o pedido desde agosto, já fiz todos os exames pré-operatórios. Alguns paguei do próprio bolso, sem ter condições, e estão todos para vencer por causa da demora”, lamenta.

Ela colocou o Essure em 2014 e diz que não foi informada sobre a possibilidade de passar pelo que vem enfretando. “Eu achava que seria tipo um implante dentário. Só me ligaram um dia falando dessa possibilidade, avisaram que teria cólica forte nos primeiros dias, e mais nada”, afirma.

As reações, no entanto, foram grandes. O fluxo menstrual aumentou, as dores no local e até mesmo o estado emocional passaram por mudanças. “Parece que eu estava de TPM [Tensão Pré-Menstrual] o tempo inteiro”, desabafa.

Após vários exames que não apontavam nada, ela finalmente relacionou os sintomas com o Essure. Foi atendida no HRT, onde foi diagnosticada uma endometriose. Por esse motivo, a cirurgia só poderia ocorrer no Hmib, onde há uma técnica de retirada do útero por vídeo. “Só que o médico de lá está afastado, e não dão previsão. Estou desempregada, com filho de 8 anos em casa… Me sinto impotente”, relata.

A assistente social Gislane Almeida, 45, está esperando há ainda mais tempo. Desde 2018, ela diz que tenta uma consulta para poder contar o problema e retirar o dispositivo, mas apenas após entrar na Justiça é que conseguiu ser atendida. “A advogada entrou com a ação, e tive meu pedido negado. Só depois de procurar o Ministério Público que consegui”, explica.

Gislane foi encaminhada ao Hospital Regional de Sobradinho (HRS), onde deve passar por cirurgia. “Quem me atendeu não fez transferência para o Hmib, igual com a maioria das mulheres. Pelo que entendi, o procedimento deve ser lá mesmo”, comenta.

Confira o relato de outra paciente, a Cirlene Soares:

O que dizem os envolvidos

Procurada, a Secretaria de Saúde disse que elaborou e publicou no dia 27 de julho do ano passado uma nota técnica com o título “Guia para o cuidado, acompanhamento e monitoramento das pacientes com o Sistema Essure”. De acordo com a pasta, a rede pública funciona “respeitando princípios da regionalização e hierarquização por níveis de atenção”.

Caso exista a indicação de cirurgia, “esse procedimento será realizado após a avaliação médica pela equipe da unidade hospitalar que estiver prestando atendimento à paciente” e, se necessário, terá uma outra opinião de equipes especializadas da secretaria.

A SES disse ainda que não houve afastamento do médico e “continua desempenhando normalmente suas funções assistenciais no HMIB”.

Sobre a reclamação das pacientes do tratamento dado a elas, a pasta esclareceu que “adota e defende os preceitos do conceito da humanização no atendimento e acompanha a Política Nacional de Humanização desenvolvida pelo Ministério da Saúde. Qualquer queixa relacionada à falta de humanidade, empatia e respeito para com o usuário, não é tolerada pela SES/DF. Atitude que deve ser denunciada e imediatamente registrada pelo usuário na Ouvidoria do GDF para que as providências necessárias sejam tomadas. A SES repudia qualquer tipo de atendimento que contrarie os princípios e as diretrizes do SUS”.

Questionada sobre o motivo de não realizar um acompanhamento regular das mulheres que colocaram o Essure, a pasta informou que as pacientes “recebem cuidados contínuos para a saúde nas Unidades Básicas de Saúde da rede. Havendo qualquer queixa ou não relacionada aos dispositivos, as pacientes são encaminhadas para outros níveis de atenção, onde recebem o atendimento e tratamento adequado e necessário”.

O MPDFT informou que vem atuando em defesa do tratamento adequado das pacientes. “A Promotoria de Justiça Criminal de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde (Pró-vida) elaborou nota técnica para subsidiar a atuação do MP nos casos individuais. A Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (Prosus) e o Núcleo de Gênero, por sua vez, buscam uma solução coletiva para a demanda. A Prosus requisitou da Secretaria de Saúde a definição e regulação de toda linha de cuidado das pacientes que implantaram o contraceptivo na rede pública.”

Segundo o órgão, em dezenas de ações individuais ajuizadas pelas vítimas foi pedido o deferimento da tutela de urgência para determinar que o Distrito Federal providencie tratamento adequado às autoras, inclusive no que se refere a possíveis cirurgias de retirada do dispositivo. “No entanto, em razão da pandemia, as cirurgias eletivas foram suspensas na rede pública, o que acaba retardando os procedimentos.”

O MP disse ainda que se reunirá novamente com a Secretaria de Saúde, em agosto, para tratar das últimas atualizações sobre a questão.

As pacientes podem continuar buscando a instituição por meio da Ouvidoria ou pelo e-mail [email protected].

Por fim, a Bayer, fabricante do Essure, disse que a segurança do dispositivo “é comprovada por um corpo robusto de dados de estudos científicos, que inclui resultados de 10 ensaios clínicos e mais de 60 estudos observacionais (…) envolvendo mais de 270 mil mulheres”.

Segundo a farmacêutica, “todos os produtos e procedimentos para controle de natalidade têm riscos, e a totalidade de evidências científicas demonstra que o perfil de segurança de Essure é consistente com os riscos identificados no momento de sua aprovação e é comparável a outras opções de controle de natalidade permanente”.

A empresa diz que nunca houve proibição do produto no país e que, em 2017 e 2018, decidiu interromper a venda e distribuição do dispositivo “por motivos comerciais e estratégicos de negócios, sem relação com a segurança e eficácia do anticoncepcional”.

A nota ainda diz que mulheres com o Essure “podem continuar confiando no dispositivo para sua saúde reprodutiva, e, em caso de dúvidas ou preocupações, elas devem discuti-las com seu médico. A Bayer vê com preocupação o incentivo contínuo para a remoção de Essure, incluindo informações imprecisas ou enganosas disseminadas por terceiros, que podem levar as mulheres a buscarem uma cirurgia de remoção invasiva e injustificada, o que pode causar novos problemas de saúde”.

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