O desabamento do viaduto sobre a Galeria dos Estados, no Eixão Sul, poderia ter sido evitado com visitas técnicas e correções na estrutura. É o que aponta um laudo pericial elaborado pelo Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) ao qual o Metrópoles teve acesso. A corporação investiga a queda.

Os peritos da Seção de Engenharia Legal e Meio Ambiente (Selma) estiveram nas ruínas e produziram um documento com 22 páginas no qual exibe as causas do desabamento ocorrido no dia 6 de fevereiro de 2018. Por sorte, ninguém se feriu. A perícia aponta omissão do poder público.

Havia sinais externos de deterioração na estrutura típicos e passíveis de identificação técnica por profissionais devidamente habilitados, sendo possível apontar e corrigir as patologias nas estruturas, não havendo que se falar em vício oculto"
Trecho do laudo pericial da PCDF

Os peritos mostram que, durante as análises feitas, não foram encontrados “vestígios materiais que indicassem serviços de manutenção recentes para corrigir as principais patologias apresentadas”.

Os profissionais do IC identificaram que toda a sustentação da estrutura superior dos pilares era garantida apenas por uma viga metálica e concreto. “Houve deterioração progressiva e prolongada desses elementos ao longo do tempo. Ela se revelou na instalação de diversas patologias, com destaque para o surgimento de trincas e penetração de água no interior da estrutura”, atesta o documento.

 

Infiltração determinante
Os peritos mapearam o caminho das infiltrações que comprometeram os pilares de sustentação do viaduto. De acordo com o texto dos especialistas, a água provocou a corrosão das chamadas “armaduras”, armações de ferro que compõem a estrutura de tais colunas. “Como a armadura permaneceu exposta a infiltrações, houve comprometimento da capacidade de sustentação do pilar”, destaca o laudo.

Segundo o documento, o colapso do elevado teve início no sétimo pilar – chamado de P7 –, que se estendeu para o sexto (P6), também provocando sua ruptura. “Com isso, todo o trecho do viaduto veio abaixo, causando o desabamento do tabuleiro que era suportado”, destaca o relatório.

A perícia deixa claro no laudo: foram encontrados vestígios de penetração de água por toda o concreto que sustentava o elevado, tanto em peças encontradas entre os escombros quanto em outras partes da estrutura que não desabaram.

“No local, observou-se a presença de acúmulo de água no interior de bainhas do sistema de proteção. As marcas e os sinas de deterioração identificados na estrutura indicam infiltração prolongada de peso próprio da peça”, assinala o documento.

O laudo também conclui que o risco de desabamento do restante do viaduto “deve ser rigorosamente considerado, bem como a condição de estabilidade de outros trechos”.

 

Em 28 de março deste ano, após quase dois meses de indefinição, o Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou que vai demolir e refazer a parte desabada do elevado. O Executivo local promete entregar a obra em seis meses – até setembro de 2018.

Na ocasião, o diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), Márcio Buzar, e o secretário da Casa Civil, Sérgio Sampaio, disseram que serão erguidas novas fundações para apoiar diretamente a laje.

“Vamos refazer por inteiro o trecho que caiu. As outras partes da estrutura serão recuperadas”, destacou Buzar. O custo da obra será de R$ 15 milhões e a promessa é de que tenha vida útil de até 100 anos.

O viaduto tem 194 metros, e a parte que será demolida possui 22 metros. A laje dos outros trechos passará por um processo de restauração. De acordo com o governo, só o tabuleiro do trecho (quatro das seis faixas) onde o elevado cedeu, sobre a Galeria dos Estados, será colocado no chão.

Ameaça ao tombamento
Enquanto isso, o viaduto continua interditado e corre o risco de permanecer escorado por um tempo além do planejado pelo governador Rodrigo Rollemberg (PSB). O projeto de reconstrução traz uma mudança arquitetônica nos pilares de sustentação da nova estrutura. Quem chama a atenção sobre isso é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A preocupação é tanta que o órgão enviou recomendação ao GDF para não licitar a obra sem o seu aval, conforme mostrou o Metrópoles em primeira mão. De acordo com o superintendente do Iphan no Distrito Federal, Carlos Madson Reis, o relatório técnico do DER-DF chegou ao instituto no último dia 12. O prazo para análise é de 45 dias, podendo ser prorrogado pelo mesmo período.

Mas uma “alteração significativa” no perfil arquitetônico desse viaduto localizado na área tombada de Brasília foi detectada. “Pode haver uma descaracterização, sim. Estamos estudando a questão com responsabilidade e técnica. O novo projeto não pode alterar o perfil arquitetônico, a volumetria, o desenho, a plástica”, explica. Consultas foram feitas aos departamentos de Engenharia e de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), além de outros especialistas, em busca de subsídios.

Pelo novo projeto, os oito pilares do viaduto serão ampliados. Dessa forma, justifica o governo, seria eliminado o balanço do elevado, ou seja, o vão entre o pilar e a lateral da laje. “Com isso, garantimos a estabilidade de toda a estrutura e aumentamos a segurança”, disse o diretor-geral do DER-DF, Márcio Buzar, diretor de Edificações da Novacap até o desabamento.