Assistente de acusação chora ao falar de Noélia: “Um feminicídio a cada 9 horas”

Julgamento acontece nesta quinta-feira. Karen Letícia Sousa se emocionou ao discorrer sobre a insegurança das mulheres no Brasil

atualizado 26/11/2020 23:55

Reprodução/Redes sociais

O feminicídio de Noélia de Oliveira Rodrigues, encontrada sem vida em um terreno no Assentamento 26 de Setembro (Vicente Pires), em 17 de outubro de 2019, continua a despertar revolta e comoção. Nesta quinta-feira (26/11), durante o julgamento do principal suspeito de ter cometido o assassinato, Almir Evaristo Ribeiro, 43 anos, a assistente de acusação Karen Letícia Sousa chorou ao falar sobre a insegurança a qual são submetidas as mulheres no Brasil.

“Sinto com uma grande responsabilidade de estar nessa tribuna, principalmente como assistente de acusação, que é a defesa da vítima”, começou ela, com a voz embargada. “Mas especialmente por ser a única mulher nessa tribuna. Esse crime sensibilizou muito porque aqui é um corpo de uma mulher”, afirmou, mostrando a foto do cadáver de Noélia.

Em seguida, Karen lembrou as estatísticas de feminicídio no Brasil – há um registro a cada nove horas – e o fato de a violência contra mulheres, especialmente a doméstica, ter aumentado durante a pandemia de Covid-19. “Assim como as senhoras [do Júri], eu saí de casa hoje e não sei como vou voltar; assim como a Noélia não voltou naquele dia”, disse Karen.

“Imaginem vocês, assim, largadas [numa estrada, como a que o corpo de Noélia foi deixado]; não importa o que ela fez, se ela traiu, nada justifica um ser humano tirar a vida de outro”, destacou a assistente da Promotoria. “Quero que os senhores levem em consideração, que pensem nos parentes, especialmente os filhos, e condenem o acusado”, completou.

Na visão do Ministério Público, existem provas contundentes para condenar o suspeito, a partir da reconstituição do que Almir teria feito na noite do crime: além de ter encontrado com a vítima, o Google Maps mostrou que, ao voltar para casa, Almir parou por 18 minutos perto de onde o corpo de Noélia foi encontrado.

A defesa do acusado, contudo, diz não haver provas suficientes para afirmar que ele é o culpado pelo feminicídio. “A menina… Perdão! A doutora tem razão ao dizer que não existe segurança. Agora, escolher um culpado para condenar, tenha paciência, isso não é possível no Estado Democrático de Direito”, disse o defensor de Almir. “Vir aqui chorar, pedir que ‘condenem, condenem, que eu não condeno ninguém à toa’… Não é possível isso”, protestou o advogado Norberto Soares Neto.

As partes continuam defendendo suas alegações no julgamento, que é realizado no Tribunal do Júri de Águas Claras desde a manhã desta quinta. Após réplicas e tréplicas, o Júri se reunirá para decidir se Almir Evaristo Ribeiro é culpado ou inocente do feminicídio.

O crime

Segundo as investigações, no dia do crime, por volta das 22h, Almir ofereceu carona para Noélia, que entrou no carro do acusado em uma parada de ônibus na W3 Norte. Na região de Vicente Pires, ele teria pego uma estrada marginal, parado o veículo e disparado contra a mulher, que morreu no local.

O corpo de Noélia foi encontrado no Assentamento 26 de Setembro, no dia seguinte ao desaparecimento. De acordo com peritos do Instituto de Criminalística (IC) que analisaram o local onde o crime ocorreu, a vendedora levou um tiro à queima-roupa no rosto.

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