Suspeito de matar Noélia se calou quando confrontado sobre o trajeto registrado pelo GPS do celular

O Google Maps mostrou que, ao voltar para casa, Almir parou por 18 minutos perto de onde o corpo da vítima foi encontrado

atualizado 26/11/2020 18:14

Reprodução/Facebook

Durante o julgamento que acontece na tarde desta quinta-feira (26/11), no Fórum de Águas Claras, o acusado de feminicídio Almir Evaristo Ribeiro, 43 anos, usou o direito constitucional de permanecer em silêncio quando confrontado pelo juiz sobre o trajeto que fez antes de voltar para casa no dia do assassinato de Noélia de Oliveira Rodrigues, 38 anos. O percurso de Almir foi registrado pelo próprio celular do suspeito, via GPS.

O caminho registrado pelo celular mostra que Almir saiu do trabalho, na Cidade do Automóvel, e foi até o Brasília Shopping, na Asa Norte, exatamente na mesma hora em que Noélia estava no local. Ele disse aos jurados que foi chamado pela vítima, que havia pedido uma carona para casa. Porém, ela teria dito que não seria mais necessário e não chegou a entrar no carro do suspeito, segundo disse ele, em juízo.

Almir garante que voltou para casa sozinho. Neste momento, o magistrado questionou o tempo que o acusado levou para percorrer o caminho de volta. “O Google está dizendo que você fica até às 22 horas 11 minutos nas imediações do shopping. A partir daí, começa o deslocamento em direção ao Sol Nascente, onde o senhor mora. Só que nesse trajeto o senhor dirige exatos 18km em 40 minutos, foi uma coisa bem demorada”, pondera.

O magistrado chegou a perguntar se o carro de Almir havia quebrado, ao que o acusado negou. “Pergunto isso porque o GPS aponta que o veículo do senhor ficou parado um tempo naquela região [do Assentamento 26 de Setembro, onde o corpo de Noélia foi encontrado] e o senhor foi para pegar a dona Noélia, mas afirma que ela não entrou no carro”, questionou o magistrado.

Em resumo, o celular de Almir registrou a seguinte movimentação: o acusado teria percorrido 8km em 41 minutos, parou próximo ao local onde o corpo da vítima foi  encontrado por 18min e depois percorreu 13 km em 14 minutos, chegando em casa antes das 23h30.

O julgamento teve início às 9h e pode ser acompanhado apenas virtualmente, em virtude da pandemia do novo coronavírus. Ele ocorre um dia após o dia Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, com diversas campanhas de conscientização realizadas na quarta-feira (25/11).

O crime

Segundo as investigações, no dia do crime, por volta das 22h, Evaristo ofereceu carona para Noélia, que entrou no carro do acusado em uma parada de ônibus na W3 Norte. Na região de Vicente Pires, ele entrou em uma estrada marginal, parou o veículo e disparou contra a mulher, que morreu no local.

O corpo de Noélia foi encontrado no Assentamento 26 de Setembro, no dia seguinte ao desaparecimento. De acordo com peritos do Instituto de Criminalística (IC) que analisaram o local onde o crime ocorreu, a vendedora levou um tiro à queima-roupa no rosto.

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Testemunhas

O marido da vítima, Marcos Paulo Mendes Santana, foi a primeira testemunha a ser ouvida. À época do crime, ele conseguiu provar que não teve nenhum envolvimento com o assassinato.

Ao ser indagado pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), se ele conhecia Evaristo, ele afirmou que eles moravam no mesmo endereço, eram vizinhos e já havia visto telefonemas do homem para a sua esposa. Marcos levou o extrato de ligações ao conhecimento da polícia.

No depoimento, ele lamentou a morte de Noélia. “Não é fácil. Falta o exemplo feminino dentro de casa. A figura da mãe para os filhos”, disse.

Policiais civis que integraram as equipes responsáveis pelas investigações, também participaram como testemunhas das oitivas.

Eles relataram que, durante as apurações, Almir demonstrava querer contar algo, chorava ao prestar depoimentos e, em uma oportunidade, confessou o crime em conversas informais.

Contou que tinha um relacionamento extraconjugal com a vítima e, naquele dia, Noélia teria pedido para que ele pagasse um curso para que ela tirasse carteira de motorista. Almir teria recusado e a vítima reagiu com xingamentos. Nervoso, o acusado teria sacado a arma e apontado para o rosto de Noélia. O revólver, segundo os agentes que ouviram Almir, teria escorregado e um disparo acabou atingindo o rosto da vítima.

Depoimento

Em audiência realizada no mês de fevereiro deste ano, a versão de Almir para a morte da vendedora foi diferente. O depoimento foi prestado durante audiência de instrução e julgamento no Fórum de Águas Claras, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). De acordo com o operador de máquinas, ele foi “vítima de injustiça”.

Na versão dele, no dia da morte, Noélia teria pedido carona, mas, de última hora, cancelou. Ele afirma que já estava no shopping onde a vendedora trabalhava havia duas horas. No entanto, apenas aceitou a decisão dela e voltou para casa.

Segundo Almir, ele não cometeu o crime e não sabe quem pode ter matado a mulher, de quem era vizinho. “Eu era apenas amigo dela e tinha uma relação tranquila”, disse. “Estão me acusando de algo que não cometi”, alegou.

Denúncia

Em novembro de 2019, o MPDFT denunciou Almir pelo assassinato de Noélia e por porte ilegal de arma de fogo. Ele está detido desde o fim de outubro do ano passado e teve prisão temporária convertida em preventiva pela Justiça no mês de novembro.

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