Idosa morre 10 dias após diretor do HRC descartar internação em UTI

Natália de Souza Freire, 76 anos, foi internada no Hospital Regional de Ceilândia em 22 de março

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 17/05/2019 21:45

Unidade de saúde onde se pratica uma “medicina de guerra”, segundo médicos que vistoriaram o local nesta semana, o Hospital Regional de Ceilândia (HRC) foi onde Natália de Souza Freire, 76 anos, passou seus últimos dias de vida. Internada em 22 de março com dor nos rins, ela morreu em 26 de abril com choque séptico e pneumonia hospitalar, um dia após conseguir leito na unidade de terapia intensiva (UTI) de um hospital da rede privada por força de decisão judicial.

Os familiares de Natália acreditam que houve negligência e mau atendimento no HRC. De acordo com eles, a morte ocorreu 10 dias após uma neta da idosa questionar o diretor da unidade, Renato Sérgio de Medeiros Souza, sobre a necessidade de levar a paciente para a UTI, e ele refutar a ideia. Na conversa, gravada pela mulher e à qual o Metrópoles teve acesso (ouça abaixo), o médico garantiu que ela estaria recebendo “tudo o que era necessário”.

Não tem indicação de UTI. Se você visse o que eu vejo aqui, muito paciente precisando, sem atendimento. Sua mãe está na semi-UTI, na sala amarela, está sendo atendida. Se a gente conseguir transferir para o Gama, tudo bem. Mas, se eu fosse você, nem ia mexer com isso. Transportar paciente grave é ruim. Ela está sendo tratada.

Trecho da fala do diretor do HRC, Renato Sérgio

O profissional prosseguiu declarando que, se fosse a neta, “não se estressaria com isso”. O diretor argumentou que o risco de infecção na unidade de tratamento intensivo “é altíssimo”, e fala para ela não ficar apreensiva. “Preocupação a gente tem, porque mãe é mãe, parente é parente, mas tem tudo para ela. Com toda a precariedade que a gente tem, ela está sendo assistida.”

A mulher ainda questionou se não havia necessidade de a avó ir para a ala de pacientes mais graves, e o gestor responde que, naquele momento, não. “A gente tem que ir por etapas. Cada dia é um dia. Pode evoluir? Pode. Aí, regula para a UTI. Agora, regular sem necessidade… Ela está com respiração espontânea”, pontuou Renato Sérgio.

Confira o áudio na íntegra:

Natália só conseguiu um leito após a Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) levar o caso à Justiça, em 25 de abril. A resposta foi dada no mesmo dia: o juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) Rogério Faleiro Machado concedeu liminar para a imediata internação em qualquer hospital da rede pública ou, na inexistência de vaga em UTI, em uma unidade da rede privada.

Mesmo com a decisão judicial, Natália enfrentou dificuldades para chegar à UTI de um hospital localizado nas proximidades do HRC. Segundo o relatório do quadro de saúde da mulher, o profissional responsável por recebê-la na unidade informou que a paciente chegou “gravíssima, sem acompanhamento de médico e sem suporte ventilatório adequado”. Ela foi entubada prontamente, por volta das 22h daquele 25 de abril, mas faleceu às 23h35 do dia seguinte, exatamente 35 dias após a internação no HRC.

Material cedido ao Metrópoles
Relatório mostra situação em que a idosa chegou ao hospital da rede particular para ser internada na UTI


Indignação

O atestado de óbito informa que as causas da morte foram choque séptico e pneumonia hospitalar. Para a família, a enfermidade foi contraída nas primeiras 48 horas de Natália no HRC. O relatório do quadro da paciente mostra que ela deu entrada na unidade, em 22 de março, alegando dor lombar de forte intensidade no lado esquerdo. Em 24 de março, o documento descreve, além da pielonefrite (infecção nos rins), a pneumonia.

“Nos primeiros dias, ela ficou em condições desumanas no corredor, em contato com tudo quanto é tipo de doença”, comentou a arquivista Alana Araújo, 28 anos, uma das netas de Natália. “Colocaram o nome dela na regulação um dia antes de morrer. Ela precisava de UTI desde a terceira semana de internação”, indignou-se.

Outra neta de Natália, a estudante de odontologia Amanda Araújo, 21, destacou que a idosa foi transferida várias vezes para diferentes alas do HRC, sem conseguir a UTI. “Na penúltima internação, na sala amarela, o médico, depois de duas semanas, julgou que a minha avó estava bem, e a mandou para o leito da enfermaria. Ela apresentou piora na respiração e não conseguiu dormir sem o oxigênio.”

Material cedido ao Metrópoles

Alana disse que a família entrará na Justiça por causa dos episódios que antecederam a morte de Natália. “Estamos esperando acalmar os ânimos. A gente pretende procurar a Justiça, nem tanto por nós, mas pelos outros”, declarou. Amanda argumentou que a família procurou a reportagem porque “não quer que outras pessoas corram o mesmo risco”. “Ninguém pode ser submetido a esse tratamento. A situação é desumana”, denunciou.

A DPDF informou que ações relacionadas a danos morais dependem da provocação da família. “Não temos informação se ela aconteceu ou não”, ponderou.

Novos leitos
Até 15 de novembro, o Governo do Distrito Federal (GDF) terá de colocar à disposição da população 458 leitos de UTI. Determinação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) obriga a construção de 74 novas unidades e a recuperação de outras 24. Isso porque, de acordo com a Secretaria de Saúde, a rede pública conta com 384 leitos, mas uma parte está fechada por falta de pessoal e manutenção.

Diante do drama da falta de UTIs na capital da República, as defensorias públicas do DF e da União entraram com uma ação judicial cobrando a ampliação e a melhoria do serviço emergencial. Em caráter liminar, o juiz do TRF-1 Marcelo Velasco Nascimento bateu o martelo, nessa quarta-feira (15/05/2019), a favor do pedido.

Vistoria
Uma força-tarefa composta por conselhos profissionais e sindicatos da saúde, com o apoio do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), realizou uma vistoria no HRC na última terça (14/05/2019) e constatou uma série de problemas relacionados ao atendimento e ao exercício profissional no local.

“Medicina de guerra” foram as palavras escolhidas pelos médicos para descrever a rotina de trabalho diante de todos os problemas enfrentados diariamente nas unidades de saúde do DF.

Vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (SindMédico-DF), Carlos Fernando disse que a situação do HRC, em geral, é “muito complicada”. “Faltam leitos, material, pessoal em todas as áreas. Não é culpa desse governo, mas, a cada um que passa, vem piorando”, acrescentou.

O outro lado
Em nota enviada ao Metrópoles, a Secretaria de Saúde sustentou que, enquanto esteve internada no HRC, Natália recebeu “toda a assistência necessária ao quadro médico de saúde que apresentava”. “A pasta esclarece que a solicitação de leito de UTI é feita pelo médico assistente, que leva em consideração a gravidade do quadro clínico, segundo protocolos médicos”, acrescentou.

Sobre o áudio do diretor, a secretaria disse que Renato Sérgio tenta “tranquilizar a família mostrando que, naquele momento, o quadro da paciente não apresentava necessidade de suporte de UTI”. “Cabe ressaltar que, em 10 dias, o quadro de saúde de um paciente, principalmente idoso, pode evoluir tanto positivamente quanto negativamente – o que, infelizmente, foi o caso de N. S. F.”

Os hospitais do Distrito Federal têm sido fonte de constantes denúncias, com repercussão direta no Palácio do Buriti. Nessa quarta-feira (15/05/2019), a diretora do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), Cláudia Gomes dos Reis, foi exonerada por determinação do governador, Ibaneis Rocha (MDB). A demissão ocorreu após Beatriz Viana da Silva, 19 anos, morrer devido a uma parada cardiorrespiratória. Familiares da jovem acusam a unidade hospitalar de omissão de socorro e negligência.

Em março deste ano, após a repercussão do vídeo em que profissionais aparecem na sala de descanso do Hospital Regional de Brazlândia (HRBz) enquanto pacientes lotam o pronto-socorro da unidade à espera de atendimento, o chefe do Executivo local exonerou o diretor Valterdes Silva.

Últimas notícias