Filhos viram as mães ser agredidas em 58% dos casos registrados no DF
Levantamento do IPEDF mostra que 58,3% das entrevistadas que sofreram violências tiveram filhos ou enteados como testemunhas da agressão

Quase 60% das mulheres no Distrito Federal que denunciaram ter sido vítima de violência doméstica afirmaram que os filhos ou enteados presenciaram as agressões. Os dados são referente aos casos registrados entre novembro de 2024 e o mesmo mês de 2025, e escancaram que a violência vai além das vítimas diretas, e atravessa, inclusive, a infância.
O dado foi divulgado pelo Panorama da Violência contra a Mulher no DF, produzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher. Segundo o levantamento, 58,3% das entrevistadas que relataram ter sofrido violência disseram que filhos e enteados testemunharam os episódios.
Vítimas
Nessa semana, uma história que integra esses dados teve desfecho na Justiça: o feminicida Janilson Quadros de Almeida foi condenado pela morte da servidora pública federal Daniella Di Lena Pelaes de Almeida, assassinada, na frente dos filhos, na própria casa, enquanto dormia.
Segundo a denúncia do Ministério Público, Janilson teria invadido o quarto onde ela dormia com dois dos filhos do casal e a atacado com golpes de faca. Um dos meninos, de 10 anos à época, correu para esconder as outras facas da casa, temendo que o pai atacasse os irmãos ou a funcionária.
Foi o próprio garoto quem conseguiu sair e pedir ajuda ao segurança do condomínio. Ao chegar ao local, o vigilante encontrou Daniella já sem sinais vitais e Janilson caído ao lado dela.
“A violência doméstica raramente atinge apenas a mulher. Em grande parte dos casos, ela vitimiza toda a estrutura familiar e transforma crianças e adolescentes em testemunhas involuntárias de episódios traumáticos”, afirma a advogada criminalista Giovanna Guerra.
Segundo a especialista, a presença dos filhos durante as agressões também pode funcionar como uma estratégia de ampliação do sofrimento imposto à vítima.
“O agressor sabe que a maternidade é uma das dimensões mais sensíveis da vida de muitas mulheres. Ao agredi-las na frente das crianças, multiplica-se a dor. Além da humilhação e do medo decorrentes da própria violência, a mulher passa a carregar o sofrimento de ver os filhos aterrorizados e emocionalmente marcados pela agressão”, explica.
A pesquisa mostra que 61,9% das mulheres que afirmaram sofrer violência atualmente têm filhos. Entre elas, 44,4% são mães de crianças e adolescentes menores de 18 anos e 21,5% têm filhos menores e dependem financeiramente de outra pessoa.
Os próprios dados da pesquisa refletem essa vulnerabilidade. Mais de um quinto das mulheres que sofrem violência atualmente dependem financeiramente de alguém e têm filhos menores de idade, circunstância que aumenta significativamente as dificuldades para deixar o relacionamento abusivo.
Segundo a advogada, os efeitos ultrapassam a dimensão individual e alcançam a forma como meninos e meninas constroem suas referências sobre afeto, poder e relações de gênero.
“Quando crescem em lares marcados pela violência, podem internalizar padrões profundamente nocivos. Alguns meninos podem associar masculinidade ao exercício da força, do controle e da agressividade. Algumas meninas podem desenvolver a crença de que a submissão e a tolerância ao sofrimento são componentes naturais dos relacionamentos”, afirma.

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