Lavou, tá novo: carro e celular são os usados mais comprados na rede

Números da capital corroboram pesquisa nacional da SPC Brasil. Economizar é o objetivo de 70% dos brasileiros que adotam a prática

Andre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 29/09/2019 9:30

Produtos usados ganham cada vez mais espaço entre os brasileiros, principalmente quando o objetivo é economizar. Levantamento realizado em todas as capitais pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) aponta que os consumidores ouvidos adquiriram pela internet, em média, entre quatro e cinco itens de segunda mão nos últimos 12 meses.

Celulares ou smartphones aparecem em primeiro lugar entre os mais vendidos, com 29%. Eletrônicos estão em segundo lugar: 27% dos entrevistados compraram esses itens usados. Roupas e calçados (26%), eletrodomésticos (18%), móveis (17%) e brinquedos e artigos infantis (16%) também aparecem na lista.

No Distrito Federal, o cenário não é muito diferente — os celulares ganham a companhia dos veículos. De acordo com um levantamento do site de compra e venda OLX, os artigos mais anunciados pelos brasilienses são carros, vans e utilitários, com 11,41%.

Os aparelhos celulares aparecem em seguida, responsáveis por 9,96% dos anúncios no DF (confira a lista abaixo). Brasília está em quinto lugar no ranking do número de anunciantes por região na plataforma.

O índice de satisfação com a prática é quase total, de acordo com a pesquisa da CNDL e do SPC. Dos entrevistados, 96,5% dizem que as expectativas foram atendidas com os negócios que fecharam.

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Alívio no orçamento

Bianca Ferro (foto em destaque), 33 anos, é uma das adeptas ao comércio na internet. Até a chegada da filha Marcela, de 9 meses, os desapegos mais comuns da professora de educação física eram celulares e eletrônicos — como computador e câmera fotográfica.

Agora, roupas e brinquedos tomaram conta dos anúncios da professora. De acordo com a pesquisa da OLX, artigos infantis representam 4,57% dos anúncios dos usuários brasilienses, superando até as ofertas de computadores.

“O dinheiro que ganho, eu uso para comprar outras coisas que preciso”, conta. “É uma forma de ajudar uns aos outros. Tem gente que não tem condições de comprar novo.” As escolhas mais frequentes para Bianca são a de produtos que a professora sabe que não vai usar por um longo período. Por isso, não vê necessidade de pagar por um de primeira linha.

De acordo com o levantamento, o principal motivo para a venda na web é financeiro. Dos entrevistados, 70% dos consumidores citam a economia de gastos com esse tipo de aquisição; 24% disseram estar com o orçamento apertado e estão procurando por itens a preços acessíveis.

Seis em cada 10 pessoas ouvidas pela pesquisa costumam, ainda, calcular quanto economizarão com a aquisição ou venda de produtos usados. A maioria acredita que a economia é grande.

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Redes sociais

Bianca usa, principalmente, o Instagram e o Whatsapp, onde faz parte de grupos de compras e vendas. De acordo com o levantamento da CNDL e do SPC, 36% dos entrevistados costumam usar as redes sociais. Perde apenas para os sites especializados, responsável pela preferência de 78% dos consumidores.

O Facebook também é muito usado. Cyro Luiz, 36, criou um grupo na rede social para anunciar produtos que vendia à época, mas acabou atraindo outros usuários. Hoje, a comunidade conta com 60 mil pessoas. Entre os produtos anunciados com mais frequência estão os celulares e as linhas telefônicas.

Às vezes, Cyro recebe denúncias de outros usuários. “Eles entram em contato comigo para me dizer que foram vítimas”, conta. Quando isso acontece, o técnico de informática faz a denúncia para o Facebook e exclui a pessoa do grupo para evitar novos problemas. Nesses casos, é possível acionar a Delegacia Especial de Repressão a Crimes Cibernéticos do DF.

O chefe de gabinete do Instituto de Defesa do Consumidor (Procon-DF), Vinícius Fonseca, alerta que é importante que o consumidor não deixe de registrar ocorrência. “A pessoa costuma ficar chateada e não fazer nada. Tem que entrar em contato com a Polícia Civil, justamente para que outras pessoas não passem pela mesma situação.”

Segurança

É preciso muito cuidado na hora de negociar pela internet. Do total de entrevistados na pesquisa da CNDL e do SPC, 99,3% dizem tomar algum tipo de cuidado para evitar golpes. Entre os cuidados tomados estão verificar se os preços se encontram dentro do valor de mercado, procurar por recomendações dos consumidores e testar o produto.

Fonseca explica que, antes de fechar um negócio, é importante checar com pessoas de confiança que conheçam ou já realizaram compra do mesmo vendedor.

“Por ser no Instagram e no Facebook, as pessoas acreditam estar seguras, mas isso não acontece de fato. Tem que ter muito cuidado”, afirma Fonseca. Para dobrar a segurança, é importante pesquisar em sites como o Reclame Aqui, que tem experiência de outros consumidores fora do círculo de amizade.

Bianca evitou problemas por estar atenta às atitudes dos potenciais compradores. “A segunda vez que eu tentei vender em um site, eu fiquei desconfiada de quem queria comprar, e nunca mais anunciei nada”, conta. A professora explica que o ponto de encontro proposto pelo usuário não era comum.

Entre as medidas de segurança usadas por ela também está a venda, no máximo, para amigos de pessoas próximas. “Já aconteceu uma vez de uma pessoa que eu não conhecia entrar em contato. Eu preferi falar que já tinha vendido o celular”, explica.

O pagamento é outro ponto que requer atenção. Tanto na compra quanto na venda, Bianca prefere que o pagamento ocorra no momento da entrega. “Uma amiga minha demorou meses para me pagar um celular, não atendia as minhas ligações, me bloqueava (nas redes sociais). Até estragou nossa amizade por causa disso.”

Novos hábitos

A professora do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB) Solange Alfinito destaca que os benefícios da prática vão além do econômico. “Quando você compra um produto usado, vocês está aumentando o ciclo de vida do produto e, com isso, diminui a necessidade de um novo, que vai usar recursos naturais”, explica.

A especialista em consumo sustentável afirma que a visão pró-ambiental vem, inclusive, mudando os hábitos de consumo dos brasileiros. “Muitas pessoas já entenderam que não é ruim comprar algo que seja usado. O que era mal visto há uns anos, hoje é o contrário. A pessoa se insere em um grupo que tem uma preocupação com o meio ambiente, com o reuso.”

O levantamento do SPC Brasil também aponta a mudança: 34% dos entrevistados demonstraram preocupação em consumir de forma sustentável e consciente. A maioria, 57%, ainda costuma verificar a possibilidade de comprar um artigo usado antes de adquirir um novo.

Além da venda e aquisição de itens usados, Alfinito destaca o aumento da tendência de trocas entre os consumidores ou de aluguel. “Tem até aluguel de roupas de marca, por exemplo. Provavelmente é uma roupa de maior qualidade e com uma durabilidade melhor, que outras pessoas podem compartilhar”, explica.

A professora destaca ainda que todas essas tendências auxiliam na mudança de comportamento por parte das grandes indústrias. “A mudança parte de uma pressão do mercado consumidor, que passa a não comprar determinados produtos. A indústria, então, se vê forçada a mudar suas práticas e se adequar a uma nova realidade”, conclui.

 

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