“Dói nos ossos.” Moradores de rua narram como enfrentam frio intenso

Dependentes de doações, eles contam com trabalho de ONGs para aguentarem temperaturas que estão abaixo dos 10°C

atualizado 31/07/2021 20:41

Hugo Barreto/Metrópoles

A nova onda de frio que chegou, nesta semana, ao Distrito Federal atinge em cheio a população em situação de rua da capital. Essas pessoas, que dormem em barracas ou apenas enroladas em um cobertor, dependem de doações para amenizar o impacto do frio, que tem registrado temperaturas abaixo da casa dos 10°C, nas madrugadas.

No Setor Comercial Sul (SCS), Antônio José da Silva, 56 anos, sempre busca uma galeria para poder se abrigar à noite. “É um pouco mais sossegado. Fiz amizade com um vigilante, boto minhas coisas ao lado e durmo”, conta.

As últimas noites, ele diz, têm sido piores. Com a ventania, a sensação térmica cai bastante e as cobertas disponíveis nem sempre são o suficiente. “O frio forte mesmo é depois das 2h, 3h. Mas acaba que a gente acostuma um pouco”, comenta.

Como está desempregado desde o início da pandemia, Antônio precisou ir para as ruas, pois o dinheiro ficou curto. “Fico vendendo bala no ponto de ônibus durante o dia. O que eu ganho ainda é pouco para conseguir alugar um cantinho para morar, mas pelo menos estou ativo”, explica.

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Lucas Alves, 22 anos, também tenta se abrigar como pode, debaixo dos prédios do centro de Brasília. O jovem veio de Goiânia em busca de uma vida melhor, e não tem barraca onde ficar. A estratégia dele consiste em colocar vários cobertores para evitar o contato direto com o chão, e depois se cobrir com os que sobram. “Muitas pessoas vêm até aqui e ajudam a gente. É dessa forma que conseguimos dormir”, diz.

À procura de emprego, ele vende água em semáforos para conseguir alguma renda, mas diz que é difícil se sustentar assim. “Eu quero prosperar, ter uma casa, uma família. Não quero ficar aqui o resto da minha vida”, destaca.

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No Guará, Maria Lúcia Souza e Silva, 54 anos, diz não se recordar de ter passado tanto frio nas ruas como na última semana. “A gente até acostuma a dormir no chão depois de tanto tempo, mas com tanto frio, chega a doer nos ossos”, relata a mulher, que mora na rua há cerca de quatro anos.

ONGs tentam ajudar como podem

No próprio SCS, há várias organizações que tentam ajudar a população em situação de rua. Fundada por Henrique França, a Salve a Si, desde 2016, presta apoio a dependentes de drogas, e incentiva-os a mudarem de vida e receberem tratamento de reabilitação gratuito.

Toda quinta-feira à noite, há a entrega de marmitas e a disponibilização de cabines para que a população local possa tomar banho. Neste momento de frio, cobertores também são oferecidos. “O impacto social é tremendo. Duas horas que eles ficam aqui representam duas horas que não estão fazendo algo de ruim para si”, diz Henrique.

Nesta semana, o Metrópoles noticiou a possibilidade do fechamento da casa de acolhimento de mulheres da organização não governamental. Uma pessoa, que preferiu se manter anônima, no entanto, disponibilizou R$ 900 mil para que a Salve a Si permaneça em funcionamento. “Ele nos disse para que paguemos de volta à medida que conseguirmos. Ele não é rico, mas disponibilizou praticamente tudo o que tem para nós. É uma felicidade muito grande”, comemora.

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Já o Instituto Barba na Rua, de Rogério Soares, conhecido como Barba, trabalha de maneira itinerante. Por causa do forte frio, ele se uniu ao projeto Para o Reino e, com uma kombi lotada com mais de 300 cobertores e lanches, tem feito uma grande ação, desde a última quinta-feira (29/7), a fim de garantir um pouco de calor a quem precisa.

As saídas ocorrem por volta de meia-noite. A ideia, segundo Rogério, é prestar assistência àqueles que não são atendidos por outros projetos. “A gente passa, olha a situação da pessoa e aborda. A nossa entrega tem que ocorrer com responsabilidade, pois são várias pessoas que doam dinheiro por acreditarem no nosso trabalho. Então, se a gente vê alguém em cima de um papelão ou com um cobertor só, a gente para e ajuda”, conta.

A comida fica por parte do pastor Jônatas Duarte. Com um chocolate quente e um pão com carne moída, ele tenta fornecer comida diferente neste momento de baixa temperatura. “O frio pede um chocolate para esquentar. Como uma marmita com arroz e feijão não combina, a gente prepara uma coisa diferente para o pessoal comer”, detalha.

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As madrugadas de quinta (29/7) e sexta-feira (30/7) foram congelantes no DF. Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a temperatura mais baixa foi registrada no Gama, com 7°C. Águas Emendadas foi o segundo local mais frio, com 7,6°C.

No Plano Piloto e no Paranoá, a menor temperatura nesses dois dias ficou em 8,8°C.

A expectativa, segundo a meteorologista Andrea Ramos, é que até segunda-feira (2/8) esta frente fria continue no DF. “A previsão é de que os termômetros, nas madrugadas, registrem entre 6°C e 8°C e, só a partir de terça, voltem a indicar um aumento gradativo. Já é a terceira vez, só em 2021, que passamos por baixas temperaturas assim”, comenta.

Sedes tem projeto de acolhimento

A Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) também tem feito um trabalho intenso para minimizar o frio de moradores de rua durante o inverno. Um dos projetos consistiu na abertura de 68 vagas em dois abrigos: o Alojamento Provisório do Estádio Maria de Lourdes Abadia (Abadião), em Ceilândia, e o Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias do Areal (Saifa), em Águas Claras.

Implementada na quinta-feira (29/7), a medida emergencial vai durar até o início da próxima semana, e poderá ser ampliada se o frio continuar intenso nos dias que seguem. “Precisamos agir rapidamente, pois a temperatura está baixando mais a cada madrugada”, destaca a secretária Mayara Noronha Rocha.

Ao todo, o DF conta com mais de 40 unidades de acolhimento, entre abrigos, alojamentos, casas de passagem e repúblicas para todos os grupos geracionais. São 28 equipes em escalas de plantão, diariamente, inclusive com equipes exclusivas para crianças e adolescentes, e público LGBTQIA+.

Quem encontrar pessoas em situação de rua passando frio no Distrito Federal pode acionar a Sedes pelos seguintes telefones: (61) 3322-1441, (61) 3773-7566, (61) 3773-7606 (plantão) e (61) 99450-5090.

Apesar do frio, a pasta distrital pontua que não houve aumento de demanda por acolhimento na central de vagas da secretaria.

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