Como sobrevivem moradores de rua no centro de Brasília durante a pandemia

Com a ajuda de movimentos sociais, população vulnerável tenta sobreviver em meio aos casos de coronavírus

atualizado 13/06/2020 23:06

Com menos pessoas e carros circulando pelas ruas do Setor Comercial Sul (SCS), a realidade de quem continuou por lá ficou mais aparente. São cerca de uma centena de moradores de rua debaixo de marquises. Com cobertores, barracas e ajuda de ONGs, eles tentam se virar para sobreviver durante a pandemia do novo coronavírus.

Alan Batista, 28 anos, é um dos que busca abrigo no local. Vindo do município de Sento Sé, interior da Bahia, ele passou o fim do ano passado em Brasília. O que poderia ser uma estadia curta para continuar a viagem sem rumo definido precisou de ser uma parada sem hora para voltar.

A mochila e os documentos foram roubados em Taguatinga. Assim, o baiano não consegue se candidatar, por exemplo, a um emprego. Sem endereço fixo ou qualquer comprovação de quem é, ele aguarda que a certidão de nascimento chegue.

“Pedi para mandarem no endereço daqui, que sempre pedem. Deu ‘informação insuficiente’, sendo que já estava aqui em Brasília. Mandaram de volta para Sento Sé e eu esperando”, lamenta.

Carregando apenas uma sacola com cobertor e materiais de higiene pessoal, Alan diz que a rotina dele se resume a ir ao Centro POP, na Asa Sul, para buscar comida e voltar até o SCS. “É isso. E aguardar a solidariedade das pessoas. Não só em questão de comida, mas a possibilidade de ligar para alguém da minha família também, por exemplo”, conta.

Sem opção, ele diz que tem conseguido sobreviver melhor do que imaginava depois do início da pandemia. “A gente achou que ia sumir todo mundo aqui que ajudava a gente, mas foi o contrário. São várias igrejas e ONGs que ajudam com comida, máscara e álcool em gel. Graças a Deus, ainda não teve nenhum infectado por aqui”, relata.

0

Valney Santos, 51, é outro que mantém rotina parecida. Há 12 anos morando nas ruas da capital, ele também estava sem identidade. Graças a uma ajuda de um projeto social, ele conseguiu um novo documento. “A gente tem precisado de um apoio mais adequado. Se a sociedade fosse mais acolhedora, desse um atendimento melhor, nós não iríamos para a droga e a bebida”, comenta.

Agora com a identificação em mãos, o próximo passo será tentar buscar alguma parcela do auxílio emergencial. “Estava querendo uma bicicleta, para pegar e ir embora. Buscar outros lugares”, sonha.

Ele afirma que, após a chegada do coronavírus na capital, o número de pessoas na rua acabou aumentando. “Você vai na Rodoviária [do Plano Piloto], Hran [Hospital Regional da Asa Norte], Torre de TV e tem muita gente”, diz Valney.

Para o homem, o que tem evitado fome e outras necessidades são as doações. “Se não tivesse, a gente ficaria aqui se humilhando. Passei em um restaurante e me disseram para ir lá às 15h. Como que vou aguentar até esse horário?”, questiona.

Após meses na rua, uma oportunidade

A história de Bentilho Jorge da Silva, 61, acabou transformada por uma dessas organizações. O carioca veio para Brasília em março com a promessa de que conseguiria o emprego de motorista. Com a pandemia, a proposta foi cancelada e ele não tinha mais economias para voltar.

Somente há duas semanas surgiu a oportunidade de trabalhar, como responsável pelo banheiro público reformado pelo Instituto No Setor. “Conheci o pessoal aqui mesmo e me deram essa oportunidade. Já consegui alugar um quartinho em São Sebastião e vou levando a vida”, destaca.

O trabalho consiste em manter o local limpo para as mais de 100 pessoas que utilizam o local por dia, para banho e outras necessidades. Além da higienização, ele também controla a entrada de pessoas e verifica a utilização de máscaras.

A maior vontade de Bentilho, a partir de agora, é ajudar outros companheiros de rua que precisam de oportunidades assim. “Tem muita gente capacitada. Alguns são barbeiros ou com outras profissões. Eu mesmo tenho 2º grau completo, sou músico e gosto de poesia. Dá para integrar cada vez mais pessoas”, conta.

Instituto No Setor

O Instituto No Setor ocupa o SCS há dois anos com atividades de cultura, turismo, meio ambiente e ações sociais, principalmente o fortalecimento de vínculos e incentivo ao trabalho com os moradores de rua.

Desde que a pandemia começou, no entanto, o foco passou a ser apenas ajudar quem precisa. Foram feitas campanhas de doações de alimentos e produtos, a manutenção do banheiro público na Quadra 05 e criado um sistema de informações dos moradores

Conforme conta Felipe Velloso, co-fundador do No Setor, com esse monitoramento foi possível estabelecer contato com famílias e arranjar retornos para casa, encaminhamentos a abrigos do GDF e emissão de documentos.

“Aqui é um local onde as pessoas sempre vão buscar refúgio, por estar no centro. É um trabalho difícil de detectar as necessidades individuais de cada um, mas estamos trabalhando”, afirma.

O que diz a Secretaria de Desenvolvimento Social

Procurada, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) informou que de março a maio foram fornecidas “cerca de 2.400 refeições/dia para a população em situação de rua no DF”. Os alimentos eram produzidos nos restaurantes comunitários e levados em marmitas para ser feita a distribuição.

No dia 25 de maio, no entanto, a entrega das refeições nas ruas da cidade foi suspensa e passou a ser realizada nos Alojamentos Provisórios do Autódromo e Ceilândia, além das unidades dos Centros POP e nos 14 Restaurantes Comunitários, “garantindo assim a segurança alimentar dos cidadãos em vulnerabilidade social”.

Já nos alojamentos provisórios a pasta diz que são fornecidas três refeições ao dia. Atualmente, são 182 alojados no Autódromo e 140 em Ceilândia.

Últimas notícias