Distrito Federal registra o maior aumento de latrocínios no Brasil

Com alta de 77% no número de casos, DF fica atrás apenas de Roraima e Rio Grande do Norte em roubos seguidos de morte por habitante

atualizado 20/10/2020 7:25

Enterro de Amauri Rodrigues, morto na Cachoeira 3 quedas, no GamaRafaela Felicciano/Metrópoles

O Distrito Federal aparece como a unidade federativa que teve o maior aumento percentual no número de latrocínios (roubos com morte) em relação a todas as outras 26 unidades da Federação. Comparando a quantidade de ocorrências entre os primeiros semestres de 2019 e 2020, o crime cresceu 77% na capital federal. Ou seja, saltou de 13 para 23 no período.

Na sequência, aparecem os estados de Rondônia, com aumento de 50%; de Minas Gerais, com 45%; e de Mato Grosso do Sul, com 43%.

 

Os dados são do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesse domingo (18/10), pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), e podem ser conferidos na íntegra aqui. Eles revelam, ainda, que o DF apresenta o terceiro maior índice de latrocínio por habitante do país: um crime para cada grupo de 133 mil moradores. Apenas os estados de Roraima (um latrocínio para cada 52 mil habitantes) e Rio Grande do Norte (um para cada 90 mil) apresentaram taxas maiores do que as do DF.

No geral, contudo, houve redução de 2,1% na letalidade de crimes violentos (homicídio, feminicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte) — de 235 para 230 no período analisado.

Com dados até setembro deste ano, a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) reforça que a queda de mortes nos crimes violentos foi até maior, se comparada aos mesmos nove meses de 2019: -5,8%.

A pasta justifica a queda por causa do trabalho de inteligência e da integração entre as forças policiais do DF como formas para conter a criminalidade. Afirma, também, investir em tecnologias, usando como exemplo as câmeras de videomonitoramento, para as quais, “desde 2019, o número de equipamentos aumentou quase 50%, de 584 para 914 câmeras”, esclareceu o órgão, em nota enviada ao Metrópoles.

Por fim, a SSP-DF cita a Operação 5º Mandamento, que tem por objetivo principal a apreensão de armas de fogo e o enfrentamento ao tráfico de drogas, crimes que estão relacionados às mortes violentas.

Os números de latrocínio, no entanto, podem ter outra explicação. Mestre em direito com especialização em segurança pública, o professor Julio Hott explica que “a pandemia diminuiu recursos de parte da população, que buscou na criminalidade a sobrevivência”. Para Hott, “a criminalidade patrimonial é de fácil acesso” e, somada à peculiaridade do DF de ter outra parcela de habitantes vinculada ao setor público, que não perdeu renda, “embora não justifique, ajuda a explicar o cenário”, afirma.

Apesar do impacto da pandemia da Covid-19 nos dados, o professor ressalta que este não é um problema novo, nem de solução rápida ou simples. “Primeiro, é preciso manter e reparar a renda da classe mais baixa, isso a curto prazo”, avalia, concluindo que, então, “é preciso buscar a inclusão social dessas pessoas, no médio e longo prazo”.

Para Pablo Lira, doutor e professor de mestrado em Segurança Pública da Universidade Vila Velha (UVV), os números de Brasília chamam atenção. “Justamente no ano de 2020, que a gente teve uma queda em termo nacional nesse tipo de crime pela diminuição das pessoas na rua, chama atenção essa estatística da capital do país, mas pode ser explicado pela sensação de impunidade, pois quando o bandido vai cometer o crime, isso segundo a teoria do crime, ele analisa quais os riscos e os ganhos de se cometer o delito em determinado lugar”.

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública coronel José Vicente da Silva analisa o indicado por outro prisma. “O latrocínio, no meio policial, é dito como o roubo que não deu certo e, para analisá-lo, é preciso observar a evolução de outros crimes, como roubo de carros, contra o patrimônio, etc. No DF e em outras capitais, é natural, de tempos em tempos, termos um incremento nos latrocínios sem que necessariamente isso passe por uma falha na segurança pública”, pondera.

De números para nomes

Alguns casos de latrocínio chocaram a população do DF em 2020. No fim de setembro, Amauri Rodrigues de Souza, 23 anos, levou um tiro na barriga quando estava deixando uma cachoeira na cidade do Gama. Ele e a namorada foram curtir o dia de folga, quando um rapaz surpreendeu o casal e anunciou o assalto. Mesmo sem reagir, Amauri foi baleado com uma espingarda calibre 22 e não resistiu ao ferimento. Profissional bastante elogiado, Amauri estava prestes a ser promovido.

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Em março, Márcio Ribeiro Rocha Júnior, 28, foi vítima de latrocínio. Também com a namorada, o rapaz se dirigia à Rodoviária do Plano Piloto após uma festa, de madrugada, quando três homens abordaram o casal. Câmeras de segurança do local flagraram a ação, que terminou com Márcio sendo esfaqueado no peito por um dos agressores. Mesmo sendo atendido instantes depois e levado para o Hospital de Base, o jovem não resistiu.

Outra vítima de latrocínio, também no terceiro mês de 2020, foi o professor Hebert Silva Miguel. No Pistão Sul, o educador de 26 anos aguardava pelo ônibus que o levaria ao trabalho, no Novo Gama, quando um assaltante exigiu o celular. Hebert levou sete facadas, uma delas na cabeça e, após cinco dias internado no Hospital Regional de Santa Maria, morreu, em 7 de março.

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