Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio

Em 2024, Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer, registrou R$ 4,5 milhões em bens. Ele foi preso em novembro de 2025

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto
Fachada da Conafer, associação investigada por envolvimento no esquema de descontos do INSS, no Setor Comercial Sul - Metrópoles
1 de 1 Fachada da Conafer, associação investigada por envolvimento no esquema de descontos do INSS, no Setor Comercial Sul - Metrópoles - Foto: BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto

Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) — uma das instituições investigadas na Farra do INSS — registrou um crescimento patrimonial de aproximadamente 428% no período em que descontos bilionários foram intensificados de maneira indevida em aposentadorias e pensões de beneficiários.

Documentos encaminhados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, obtidos pelo Metrópoles, detalham a quebra de sigilo fiscal e bancário de Samuel. Segundo os registros, em 2018, os bens declarados em nome do contador somavam R$ 858 mil. No ano seguinte, o valor saltou para R$ 1,5 milhão e seguiu em trajetória ascendente, alcançando cerca de R$ 4,5 milhões em 2024.

Entre os bens adquiridos no período estão um terreno avaliado em R$ 1 milhão, no Gama (DF), um Mitsubishi Eclipse – de R$ 210 mil, um Ford Mustang GT – avaliado em R$ 380 mil, e uma Land Rover Defender 110 HSE – estimada em R$ 650 mil. Samuel ainda adquiriu outros cinco veículos, cinco imóveis e participações societárias em diversas empresas.

Além do patrimônio milionário, a movimentação financeira do contador chamou a atenção dos investigadores. Morador do Recanto das Emas (DF), Samuel mantinha dezenas de contas bancárias que movimentaram milhões no período analisado.

De acordo com os documentos enviados à CPMI, foi identificado um padrão recorrente: os valores creditados nas contas eram rapidamente redistribuídos para diversas outras contas, muitas vezes no mesmo dia.

Um dos episódios destacados ocorreu em outubro de 2023, quando Samuel realizou 60 transferências bancárias em uma única data, após receber R$ 1,6 milhão da Conafer. O repasse foi feito por meio da empresa Cifrão Tecnologia, um dos vários CNPJs vinculados ao contador, registrado em um sobrado no Distrito Federal.

Na data, Samuel encaminhou R$ 300 mil, via Pix, para a BSF Gestão de Saúde – companhia que foi investigada na CPI da Covid, em 2021, por suspeitas de irregularidades em contratos com o Ministério da Saúde.

Outros repasses incluíram R$ 150 mil para a JSM Serviços, R$ 100 mil para a N & C Distribuidora de Agropecuários, e R$ 22 mil para Lucineide dos Santos Oliveira – sócia da AAB. Samuel também transferiu R$ 525 mil para a Solution BRB Nova, uma segunda empresa pertencente a ele.

As demais transferências, realizadas por meio de boletos e Transferência Eletrônica Disponível (TED), totalizaram R$ 486.173,93.

Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que a Cifrão Tecnologia é registrada como microempresa voltada ao desenvolvimento de programas de computador, com faturamento declarado de apenas R$ 11.240,86. Ainda assim, segundo o órgão, a empresa movimentou R$ 1.625.759,14 acima da capacidade financeira declarada em um único mês.

Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior foi preso em 13 de novembro, no âmbito da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga o esquema de descontos ilegais em benefícios previdenciários.

Empresa e igreja em mesmo endereço

A Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), outra organização investigada pela Controladoria-Geral da União (CGU) nas fraudes do INSS, tem como sócios dois fundadores de igrejas evangélicas localizadas em Brasília.

Uma delas é a Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus (foto abaixo), fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, que é sócia da AAB. A instituição está erguida no Recanto das Emas, a cerca de 32 km da capital do país.

Metrópoles esteve no local e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar de não existir qualquer indício de outro empreendimento no local, Samuel indicou, na Receita Federal, o mesmo endereço para empreendimento dele: a Solution, cuja atividade consta como “serviço de papelaria, encadernação, locação de automóveis sem condutor, organização de feiras, congressos, e festas”.

Outros 10 CNPJs vinculados a Lucineide e Samuel, bem como a um terceira pessoa ligada ao presidente da Conafer – o assessor Cícero Marcelino de Souza Santos –, supostamente funcionam no mesmo lugar. A reportagem apurou que as lojas estão situadas na parte superior de um sobrado também localizado no Recanto das Emas (foto abaixo).

Apesar de os envolvidos terem indicado na Receita Federal o endereço como sede das empresas – que prometem oferecer desde comércio varejista à locação de carros e atividades de apoio à agricultura, – a fachada do pequeno escritório exibe apenas chamada para dois desses empreendimentos: a Expresso e um segunda companhia também apelidada como Solution.

Um outro CNPJ registrado no nome de Lucineide dos Santos Oliveira, a sócia da AAB, está localizado na Quadra 403 Conjunto 19 do Recanto das Emas. A reportagem esteve no endereço e ouviu de testemunhas que apenas uma tapiocaria funciona há anos no local.

Além de pertencerem a integrantes de instituições diferentes e dividirem um único espaço, essas empresas carregam um outra curiosidade: a maioria tem como contato principal o mesmo endereço de e-mail e telefone.

Conheça as empresas e onde estão localizadas:

Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - destaque galeria
4 imagens
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 2
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 3
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 4
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 1
1 de 4

Arte: Gabriel Lucas/Metrópoles
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 2
2 de 4

Arte: Gabriel Lucas/Metrópoles
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 3
3 de 4

Arte: Gabriel Lucas/Metrópoles
Contador de ONG da farra do INSS teve aumento de 428% em patrimônio - imagem 4
4 de 4

Arte: Gabriel Lucas/Metrópoles

Convocado a prestar depoimento na CPMI que apura as fraudes do INSS, Cícero Marcelino chegou afirmar que lucrava “uns trocos” com o dinheiro que deveria ser destinado aos aposentados e pensionistas. O homem admitiu, ainda, que abriu empresas para prestar serviços a pedido do presidente da Conafer.

Cícero também contou que recebia planilhas de pagamentos para as entidades da Conafer e os repassava, mas negou conhecer Samuel Chrisostomo, apesar de supostamente conduzir empresas no mesmo local que ele.

Durante a CPMI, as empresas de Cícero foram apontadas como empreendimentos laranja. “A única coisa que estou vendo aqui nesta CPMI é que as pessoas que os sindicatos ajudam são os próprios dirigentes e seus familiares, as empresas dos dirigentes, dos familiares, ou dos laranjas e familiares dos laranjas. E você é um laranja, suas empresas são empresas laranja”, disse a deputada Adriana Ventura (Novo-SP).

Operação

A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram, em novembro de 2025, outra fase da Operação Sem Desconto, investigação que mira esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. A ação mobilizou equipes em 17 estados e no Distrito Federal.

Ao todo, foram cumpridos 63 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e diversas medidas cautelares. Entre os presos estão:

    • Alessandro Stefanutto – ex-presidente do INSS;
    • Antônio Carlos Antunes Camilo, conhecido como “Careca do INSS”;
    • Vinícius Ramos da Cruz – presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT);
    • Tiago Abraão Ferreira Lopes – diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade, Carlos Lopes;
    • Cícero Marcelino de Souza Santos – empresário ligado à Conafer;
    • Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior – também integrante da Conafer.

Como o esquema funcionava

Segundo as investigações, os suspeitos atuavam inserindo dados falsos em sistemas oficiais para incluir beneficiários em associações ou entidades fictícias. A partir disso, eram feitos descontos mensais indevidos diretamente nos pagamentos de aposentados e pensionistas, muitos deles sem qualquer conhecimento sobre as cobranças.

O grupo é investigado por formar organização criminosa voltada à obtenção de vantagens financeiras por meio de estelionato previdenciário, além de corrupção ativa e passiva para facilitar o acesso fraudulento aos sistemas do INSS.

Também há apurações sobre ocultação de patrimônio, supostamente utilizado para dificultar o rastreamento dos valores desviados

O outro lado

Metrópoles tentou contatar os mencionadas no texto por meio de e-mail e por telefone, mas não obteve retorno até a última atualização. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comDistrito Federal

Você quer ficar por dentro das notícias do Distrito Federal e receber notificações em tempo real?