Ex-assessor de deputado federal recebeu Pix de preso na farra do INSS

Transferência ocorreu logo após Vinicius Cruz receber um total de R$ 250 mil de ligados à Conafer. Informação consta em um relatório do Coaf

atualizado

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VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Fachada do edifício-sede do Instituto Nacional do Seguro Social INSS em Brasília - Metrópoles 9
1 de 1 Fachada do edifício-sede do Instituto Nacional do Seguro Social INSS em Brasília - Metrópoles 9 - Foto: VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

Vinicius Ramos Da Cruz, presidente da Instituto Terra e Trabalho (ITT) – ONG ligada à Conafer, uma das instituição envolvidas na farra do INSS, transferiu, via Pix, R$ 25 mil a um ex-assessor do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), que é apontado como porta-voz político da Conafer.

A transferência foi feita logo após Vinicius receber um total de R$ 250 mil provenientes de depósitos feitos pela Federação dos Agricultores e Empreendedores Rurais do Centro Sul e Sudeste (Fafer) – ligada a Conafer; de Ingrid Pikinskeni Morais Santos – esposa do assessor do presidente da entidade; e de uma empresa pertencente a Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), outra ONG investigada nas fraudes.

A informação consta no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPMI do INSS, ao qual o Metrópoles teve acesso.

O Pix foi feito seis meses depois de o deputado Euclydes repassar R$ 1 milhão em emendas para o instituto presidido por Vinicius, em dezembro de 2023. Um ano antes, o parlamentar já havia transferido R$ 1,5 milhão para a mesma entidade. Vinicius foi preso em novembro de 2025, no âmbito da Operação Sem Desconto.

Ambas as emendas enviadas por Euclydes se destinavam à realização de capacitação de agricultores e à inseminação de bovinos em Minas Gerais. Os valores, no entanto, foram desviados para uma empresa ligada à própria associação, conforme revelou a coluna Tácio Lorran, do Metrópoles.

Os repasses foram realizados por meio de convênios. Nessa modalidade, a entidade realiza as licitações e subcontrata empresas para a execução do objeto. No entanto, indícios apontam que as licitações foram fraudadas por meio de simulações de propostas, e uma empresa ligada à própria Conafer, a Agropecuária PKST LTDA– registrada em nome de Ingrid Pikinskeni, foi subcontratada, recebendo mais de R$ 2,1 milhões.

Segundo dados da Receita Federal, essa empresa foi fundada em março de 2022, sete meses antes de Euclydes Pettersen destinar a primeira emenda parlamentar ao Instituto Terra e Trabalho.

Concomitantemente, o presidente da ONG que desviou as emendas parlamentares adquiriu uma aeronave do parlamentar de Minas Gerais, que mais tarde foi vendida para o dono de um aeroclube em Minas, em uma transação intermediada por Leandro de Almeida Lima Alves, piloto e ex-assessor de Euclydes.

Entenda esquema de desvio de emenda parlamentar envolvendo a Conafer

Ao Metrópoles Leandro informou que “todos os valores recebidos foram para pagamento de manutenção em oficina homologada”. Ele explicou à reportagem que também pilotava os aviões de Vinicius e que uma das responsabilidades que tinha era “administrar e manter as aeronaves em condições de segurança para voar”.

“Na época, se não me engano, estávamos renovando o CVA, que é o certificado anual obrigatório que todas aeronaves precisam fazer. Nisso [manutenção] engloba troca de filtro de óleo, óleo para motor, pastilha de freio, tudo que precisar para a segurança. As vezes as manutenções passam os R$ 25 mil tranquilo, dependendo das peças que precisam trocar”, disse.

Em relação a intermediação, o piloto informou que o fez pois estava há 3 meses sem receber salário. Segundo ele, a venda cobriria as dividas: “Nessa intermediação consegui pagar o salário de um dos pilotos. [O outro,] que voava o PTOOV, ficou em aberto”, declarou.

A aeronave

O Cessna Aircraft, modelo 172RG e prefixo PR-ATM, foi comprado por Euclydes Pettersen e um sócio em janeiro de 2021 por R$ 320 mil, segundo documentos obtidos pela coluna. Dois anos depois, em março de 2023, os dois o venderam para Vinícius Ramos da Cruz por R$ 400 mil.

Em 2025, a aeronave passou para o nome de um laranja, o secretário da Conafer Silas da Costa Vaz, que era beneficiário do Auxílio Emergencial há 4 anos. Silas mora em uma casa no Recanto das Emas, região com uma das menores rendas per capita do Distrito Federal, o que reforça indícios de se tratar de um laranja.

O nome de Silas da Costa Vaz também consta como único sócio da Terra Bank – banco digital vinculado a Conafer. Antes de a CPMI do INSS ser instalada, a Terra Bank tinha como sócio-administrador Cícero Marcelino, assessor de Carlos Lopes, presidente da Conafer. Tempos após as investigações iniciarem, Silas “assumiu” o comando do banco.

“Núcleo político”

Durante as investigações, a Polícia Federal descobriu que a entidade usava uma lotérica no interior de Minas Gerais para pagar propina a um núcleo político que incluía o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e seus assessores. Em reportagens anteriores do Metrópoles, Pettersen negou irregularidades.

Conforme a operação policial, Pettersen recebeu ao menos R$ 14,7 milhões por meio de uma lotérica e uma construtora, do interior de Minas Gerais. Em troca, diz a PF, ele dava acesso a Carlos Lopes, presidente da Conafer, que, conforme as investigações, influenciava na escolha de presidentes do INSS.

O ex-assessor parlamentar Walton Cardoso Lima Júnior aparece como beneficiário dos repasses. Segundo a PF, ele seria “intermediário” entre Lopes e Pettersen. Outro assessor do deputado mineiro suspeito de envolvimento é André Luiz Martins Dias. A PF classifica ambos como “operadores financeiros do parlamentar” no interior de Minas.

“Walton e André são tidos pela PF como ‘operadores financeiros do parlamentar’, responsáveis por receber, fracionar e redistribuir valores que beneficiavam o deputado Euclydes Pettersen e sua base política em Governador Valadares”, escreveu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na decisão que autorizou a operação em 13 de novembro de 2025.

A PF pediu para que Pettersen usasse tornozeleira eletrônica, mas Mendonça negou o monitoramento do deputado. Os investigadores chamam o parlamentar de “a pessoa melhor paga na lista de propina”.

O outro lado

Por meio de mensagem, a defesa de Ingrid Pikinskeni declarou que “o que cabe informar é que a transferência” envolvendo a empresa da mulher e Vinicius Ramos da Cruz “ocorreu de maneira lícita e transparente”: “A emenda destinou valores para a Uni Rio, no estado do Rio de Janeiro”.

O Metrópoles procurou o deputado Euclydes Pettersen por telefone, mas não teve retorno até a última atualização dessa reportagem. A Fafer, Conafer e AAB também foram procuradas. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

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