Como a alta do diesel já impacta rotina de caminhoneiros e produtores do DF
As categorias apontaram o aumento repentino do combustível como um vilão, mas ainda não repassaram os custos para o consumidor
atualizado
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O avanço da guerra entre Estados Unidos (EUA), Israel e Irã está impactando, cada vez mais, o preço dos combustíveis — principalmente do diesel — e, consequentemente, a rotina de quem depende dele para trabalhar. No Distrito Federal, caminhoneiros e produtores rurais estão sentindo no bolso o aumento repentino do diesel nas bombas.
É o caso de Patrick Cerqueira, de 46 anos. Ele, que trabalha no setor de transporte, disse que o momento afetou bastante sua renda. “Trabalho por contrato e por viagem. No caso dos contratos, como eles foram feitos antes da crise, de certa forma, acabo tendo prejuízo, porque o custo operacional aumentou muito”, explicou.
Também caminhoneiro, Jonas Wanderson, 41, acrescentou que, mesmo no caso das viagens, é um desafio diário, por causa do valor do diesel. “Está muito volátil. Quando saio de casa, pela manhã, está um valor. À tarde, já está outro completamente diferente. Estamos vulneráveis a esse tipo de situação, que dificulta muito a nossa vida”, apontou.
Segundo José Alves, 75, é impossível fechar a conta do jeito que está. “Tem colegas que estão passando cartão de crédito, jogando a dívida para frente, sem saber se vai conseguir pagar. O temor de que se torne uma bola de neve”, comentou.
A saída, nesse caso, está sendo a pesquisa e a racionalidade. “A gente tenta abastecer nos postos que oferecem o menor preço. Temos observado uma diferença muito grande, no meio dessa crise. Tem postos vendendo na casa dos R$ 6, enquanto há outros que ficam perto dos R$ 9”, avaliou Jonas.
“Também temos grupos, nas redes sociais, em que um avisa o outro sobre onde está o melhor preço, algo que ameniza um pouco a situação”, revelou Patrick.
Jonas disse que não é possível se falar em lucro, durante esse período de crise. “Às vezes, precisamos absorver um pouco disso (aumento dos custos), sem repassar tudo ao cliente, até mesmo como uma forma de não perdê-lo”, afirmou o caminhoneiro.
Cautela
Os motoristas são associados da Cooperativa de Caminhoneiros (Coopercam-DF). Ao Metrópoles, o diretor administrativo-financeiro da entidade, Edimar de Souza, disse que a categoria está aguardando os efeitos das medidas tomadas pelo governo federal.
“Não subimos os preços, pelo medo de perder clientela. Mas, do jeito que está, estamos trabalhando para pagar custos, quase não há lucro. Mas não dá para aguentar uma semana sem que impacte no orçamento”, calculou.
Patrick disse que a categoria está “à espera de um milagre”. “Do jeito que está, não tem como. Economizamos naquilo que dá, para tentar manter os valores. Caso não haja uma solução logo, os preços dos fretes terão que ser reajustados”, alertou.
Além do setor logístico, os produtores rurais também estão preocupados. Neide Xavier, vice-presidente da Associação dos Produtores e Hortifrutigranjeiros do DF e Entorno (Asphor-DF), também coloca o diesel como principal vilão.
Mesmo assim, ela acredita que o momento deve ser de cautela. “Estamos acompanhando as medidas governamentais, para avaliar seus efeitos no mercado e determinar quais ações serão tomadas, por isso, estamos mantendo os preços, principalmente para manter a fidelidade dos clientes”, comentou.
Segundo ela, por se tratar de uma área com bom desempenho nas vendas, com o mercado apresentando demanda, a perda de produção não é cogitada no momento. “Nossa prioridade está na preservação da relação com o cliente, evitando aumentos de preço abruptos e a busca por lucros imediatos”, avaliou.
O Metrópoles procurou o GDF, para saber se está sendo avaliada alguma medida local para tentar mitigar ou prevenir possíveis impactos do reajuste.
Em nota, a Secretaria de Economia (SEEC-DF) disse acompanhar a proposta do governo Federal de zerar a alíquota do ICMS sobre o diesel de importação. “No DF, a arrecadação do tributo sobre o diesel é de cerca de R$ 470 milhões anuais. A avaliação preliminar é de não adesão à medida, em razão da necessidade de preservação do equilíbrio fiscal e manutenção da receita já prevista no orçamento de 2026.”
Investigação
O deputado distrital Chico Vigilante (PT) pediu, nessa sexta-feira (20/3), à Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (Senacon) que lidere uma força-tarefa de fiscalização e investigação dos postos de gasolina da capital.
No ofício, destinado ao secretário da Senacon, Ricardo Morishita Wada, o parlamentar diz que a “atuação do órgão de defesa do consumidor local tem se mostrado insuficiente e inerte diante da escalada de preços que desafia qualquer lógica de mercado”.
O Sindicombustíveis-DF negou a prática e afirmou que Chico Vigilante “utiliza números falsos” para “fazer campanha eleitoral”. O presidente da entidade, Paulo Tavares, vinculou os aumentos a “variáveis econômicas” e à “guerra do petróleo”: “Dados da ANP da última pesquisa, de 8 de março, trouxe preço médio no DF de R$ 6,54 na gasolina e R$ 6,63 no diesel”.
“Precisamos ter ciência que a defasagem de preços da Petrobrás e o preço internacional passa de R$ 2,50 no diesel e R$ 1,50 na gasolina, que interferem no custo Brasil, pois 30% do diesel e 10% da gasolina são importados”, disse.












