Cantor que se apresentou em festival de música negra debocha: “Me sinto negão”
Felipe Sales, músico que integrou programação do Festival de Música Negra, riu do fato de o evento não contar com artistas negros
atualizado
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Um artista que integrou a lista de atrações do Festival Melodya, subevento que fez parte da programação do Festival de Música Negra, decidiu fazer piada com o fato de o Melodya não ter reunido artistas negros. Em meio a milhares de comentários de artistas, ativistas e profissionais negros da cultura do Distrito Federal e de todo o país, o cantor Felipe Sales fez chacota com a situação.
“Eu me sinto um negão”, comentou Felipe em uma postagem no Instagram do Metrópoles que noticiou a ausência de artistas negros no Festival Melodya.
Não é a primeira declaração pública de cunho preconceituoso feita por Felipe Sales. Em outubro de 2025, o cantor fez diversas publicações sobre o casal Virgínia e Vinícius Júnior onde deprecia a imagem do jogador.
Confira:
Com 12 mil inscritos no YouTube e 71 mil no Instagram, Felipe Sales canta sertanejo e tenta criar conteúdo baseado em trends e temas virais para emplacar vídeos e músicas, como fez com os nomes do atleta e da influenciadora digital, e alcançar o sucesso. Para isso, ele parece não se importar em utilizar de imagens, trocadilhos e mensagens de cunho preconceituoso. Felipe também aparenta não ligar para comentários contrários, como os que puderam ser lidos em um dos posts sobre Virgínia e Vini Jr.
“Meu Deus, que postagem racista. Apaga isso, amigo, ainda dá tempo”, escreveu uma cantora em um post de Felipe. “Cuidado, racismo é crime”, alertou uma seguidora. “Isso é preconceituoso, não acho certo”, disse outra.
A música onde Felipe Sales expõe preconceito contra Vini Jr tem pouco mais de 1 mil streams no Spotify e 1,2 mil no YouTube.
Festa preta sem artistas negros
Como mostrou o Metrópoles com exclusividade nessa terça-feira (28/4), o Festival de Música Negra, realizado nesse fim de semana na Praça da Bíblia, em Ceilândia (DF), criou uma espécie de subevento, o Festival Melodya, dentro da própria grade de programação. O Melodya contou com 20 atrações, mas quase nenhum desses artistas são negros, indo contra o próprio nome do Festival de Música Negra.
Reveja as imagens de divulgação do evento:
R$ 700 mil de fomento
O Festival de Música Negra, que está em sua terceira edição, é organizado pela Associação Brasiliense e Promoção à Cultura, Diversidade e Formação do DF (ABC-DF). O projeto recebeu R$ 700 mil de fomento por parte da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Pnab).
Criada em 2022 pelo governo federal, a Pnab repassa recursos aos estados e ao DF para fomentar o setor cultural do país. O Ministério da Cultura é responsável por gerir a iniciativa.
Em maio de 2025, o Festival de Música Negra apareceu como selecionado/habilitado na lista final do Edital da Pnab daquele ano. O projeto foi aprovado dentro do escopo “Festivais e mostras locais de música exclusivos para pessoas negras”.
“Muito contraditório”
A produtora cultural May, que encabeça projetos de música negra na capital, considera “muito contraditório” o Festival Melodya não contar com artistas negros em sua maioria. “É muito contraditório ver um festival que se propõe a celebrar a música negra e não ter artistas negros na line. Isso não é detalhe nem falha de curadoria, é um reflexo de algo que já é comum em Brasília”, opina.
“Enquanto alguns conseguem lucrar usando a cultura negra como tema, quem realmente constrói e sustenta essa cultura segue sem espaço, sem visibilidade e sem acesso aos mesmos recursos”, reflete a profissional. May é produtora de projetos como SintoSoul, AfroKinda e Black Beats DF.
“Cultura negra não é tendência. É vivência, história e resistência. E ignorar os próprios protagonistas não parece falta de opção, parece escolha”, acredita. “Se a proposta é falar de música negra, o mínimo é coerência. Representatividade não é favor, é responsabilidade.”
“Preocupação”
Como dito anteriormente, a 3ª edição do Festival de Música Negra foi realizado com recursos do Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Pnab), programa gerido pelo Ministério da Cultura (MinC). A pasta faz o repasse dos valores do Pnab aos estados e ao DF.
Em contato com a reportagem, o MinC informa que tomou ciência e “acompanha com preocupação” o caso envolvendo o Festival de Música Negra. “Ações afirmativas representam uma conquista histórica e são tratadas com seriedade pela gestão federal, não podendo ser, portanto, banalizadas. Eventuais desvirtuamentos, se comprovados, devem ser apurados e punidos nos termos da legislação vigente, de modo a preservar o protagonismo dos agentes culturais e a valorização da cultura negra brasileira”, declara o órgão.
O Ministério destacou ainda que, após fazer os repasses dos recursos do Pnab, a responsabilidade de publicar editais e conduzir processos de seleção, avaliação, monitoramento e fiscalização dos projetos contemplados passa a ser dos órgãos de cultura de cada unidade federativa — neste caso, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec-DF).
A Secec-DF, por sua vez, não havia retornado o contato da reportagem até a última atualização deste texto. O espaço segue aberto.
O Metrópoles procurou ainda a Associação Brasiliense e Promoção à Cultura, Diversidade e Formação do DF (ABC-DF), instituição que elabora o Festival de Música Negra. A produção executiva do órgão informou que possuía muito espaço vago na grade de programação e não dispunha de recursos financeiros para contratar artistas locais. Firmou-se, então, uma parceria com uma produtora de fora do DF que cuida da carreira dos artistas exibidos anteriormente na reportagem. O Festival Melodya, portanto, teria nascido dessa parceria.
Outro lado
O Metrópoles tenta contato com Felipe Sales. Em caso de retorno, a reportagem será atualizada.



















