Cães bombeiros do DF que trabalharam em Brumadinho vão se aposentar

Zeca e Thor participaram de inúmeros resgates durante os últimos anos e devem passar para a inatividade nos próximos dias

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 06/08/2019 12:07

Thor (foto em destaque) é o nome de um herói já conhecido. Mas este, no lugar do martelo, usa seu faro como arma. São cerca de 220 milhões de células olfativas a serviço de um trabalho nobre: encontrar vítimas de desabamentos, deslizamentos e outros desastres. Entre esses está a tragédia de Brumadinho (MG), onde os cães de busca Thor e Zeca atuaram juntos, na lama, à procura de atingidos pelo rompimento da barragem.

Cerca de 10 dias após a catástrofe, os bombeiros do Distrito Federal foram acionados para prestar socorro em Minas Gerais. E lá se foram os dois cachorros. O sargento Oliveira Santos, um dos militares responsáveis pelo treinamento dos animais de busca, esteve na missão e contou o modus operandi das equipes de salvamento no município mineiro.

“Foram 15 dias de trabalho intenso, começando às 6h da manhã e parando de vez só às 17h30. Isso todos os dias, de domingo a domingo. O trabalho era árduo e, como não havia só lama, mas também restos de metais e construções, tanto nós como os cachorros acabávamos nos ferindo”, comenta. Terminado o prazo, o grupo de salvamento retornou ao DF, mas os integrantes acabaram convidados a voltar cerca de um mês depois para a realização de novas buscas. Ficaram lá por mais 15 dias.

As equipes faziam pequenas pausas para descanso a cada uma hora e meia. Um hospital de campanha oferecia suporte ao grupo de salvamento. Uma bateria de exames foi feita após o desastre, e até hoje são feitos e refeitos a fim de averiguar a saúde dos bombeiros e dos cães. Segundo o sargento, todos estão bem.

Nove anos de trabalho

Após nove anos de serviços prestados ao Distrito Federal e ao país, Thor terá seu merecido descanso. Um cão de buscas se aposenta, em média, com oito anos de serviço. De acordo com um dos treinadores, retirá-lo de combate nessa idade se faz necessário para que ele possa aproveitar a vida de um “cachorro normal”. “Claro que para eles é tudo apenas uma brincadeira. Eles vão atrás do brinquedo como ensinamos no treinamento. Mas, para nós, é trabalho sério”, completa Oliveira.

O treinamento começa com os bichos ainda filhotes. Os labradores são aqueles a apresentarem comportamento mais indicado para o trabalho, com 1 ano são incorporados ao serviço de resgate. Animais dessa raça são recomendados para tais missões, ainda, por terem pelagem curta, o que facilita a passagem deles por lugares com água e lama. Ademais, têm temperamento dócil e demonstram mais resistência.

Zeca é um exemplo. Completando 10 anos de bombeiros e à beira da aposentadoria, ele ainda esbanja energia e força. “Ele é muito forte, fez um trabalho excelente. É o mais experiente que temos. Ele é o cara!”, elogia Oliveira. Além de Brumadinho, o cão atuou em desastres como as enchentes em Santa Catarina, além de nos desabamentos na região serrana do Rio de Janeiro, em 2011. Também foi Zeca o responsável por encontrar o corpo de uma vítima do desabamento de um prédio em Vicente Pires, em outubro de 2018.

Zeca já tem para onde ir quando sair da ativa: vai ficar com um de seus treinadores, o sargento Isaac Ferreira. Ao que tudo indica, ano que vem Thor seguirá o mesmo caminho e passará a morar na casa do sargento Oliveira. “É comum os cães acabarem ficando com seus treinadores. São oito ou nove anos de trabalho juntos. É impossível não criar um vínculo”, afirma Oliveira. Ele ainda ressalta ser importante, mesmo após o fim da carreira, os animais se manterem na ativa, com exercícios e uma rotina rica para não perderem a saúde e não ficarem depressivos.

Substituto

Apesar da saudade que Zeca deixará no Corpo de Bombeiros, um substituto já está sendo treinado. “É um trabalho que nunca para, pois, infelizmente, as tragédias não param. É o nosso trabalho.”

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