Bate-boca no júri: defesa ataca promotor ao citar crime da 113 Sul
No quinto dia do júri, a advogada do réu Carlomam Santos discutiu com o promotor de Justiça Marcelo Leite: “Perdoamos até o senhor”
atualizado
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Durante o quinto dia do júri dos envolvidos no caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, advogadas de defesa do réu Carlomam dos Santos começaram um bate-boca com o promotor de Justiça Marcelo Leite após um comentário sobre perdão.
Durante sustentação da advogada, ela se virou para o representante do Ministério Público do DF (MPDFT) e questionou Leite sobre perdão: “Quem somos nós, doutor Marcelo Leite, para dizer se uma pessoa deve ou não perdoar outra”.
O promotor, então, pergunta a defensora se ela perdoaria o reú, se ele tivesse cometido o crime contra alguém da família dela. Nesse momento, uma segunda advogada de Carlomam levantou e relembrou Marcelo Leite do caso da 113 Sul, em que Francisco Mairlon Barros Aguiar foi condenado e ficou preso por 15 anos antes de ser inocentado. “Perdoamos até o senhor, que deixou uma pessoa inocente presa por 15 anos”, disse a mulher.
Enquanto a defensora gritava, Marcelo disse que ela não sabia do que estava falando: “A pessoa é culpada. A senhora não sabe nada sobre o processo. Não fale o que não sabe”.
A advogada, então, finalizou, antes de ser interrompida pelo juiz: “Se eu fosse o senhor, eu nem dormiria a noite. Peça perdão a ele”.
A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou a condenação de Francisco Mairlon Barros Aguiar pelo Crime da 113 Sul, em 14 de outubro de 2025. A ONG Innocence Project levou o caso ao STJ afirmando que o réu é inocente.
Conforme a decisão da Sexta Turma, todo o processo foi anulado. Se outras provas existirem, o Ministério Público poderá apresentar nova denúncia, segundo a Sexta Turma. Mas, a partir de agora, Francisco Mairlon não figura mais nem como acusado. Ou seja, ele foi inocentado.
Francisco Mairlon havia sido condenado a 47 anos, 1 mês e 10 dias de prisão por participar do triplo homicídio do casal José e Maria Villela e da funcionária da família Francisca Nascimento Silva. À época dos fatos, Francisco foi preso após ser citado pelos dois executores confessos do crime, o porteiro Leonardo Campos Alves e Paulo Cardoso Santana.
Anos depois, porém, Paulo Santana mudou o depoimento dado à polícia em 2010 e assegurou que Francisco Mairlon Barros não participou dos homicídios.
Júri da maior chacina do DF
O Júri da chacina teve início na segunda-feira (13/4) e tem previsão de terminar neste fim de semana. Até o momento, os jurados ouviram 18 testemunhas e o depoimento dos cinco acusados.
Sentam no banco dos réus os seguintes acusados:
- Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano;
- Horácio Carlos Ferreira Barbosa: atuou diretamente nos assassinatos;
- Carlomam dos Santos Nogueira: participou dos sequestros e execuções;
- Fabrício Silva Canhedo: responsável pela vigilância do cativeiro em parte do período;
- Carlos Henrique Alves da Silva: participou da rendição de vítima.
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), se condenados, os acusados podem ter até 358 anos de prisão.
Eles respondem por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil.
- As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
