Aulas no DF voltam hoje com luto por morte de docente envenenado

As atividades serão retomadas em 678 escolas. No CEF 410 Norte, onde o professor Charles trabalhava, haverá atendimento psicológico

atualizado 10/02/2020 9:25

Andre Borges/Esp. Metrópoles

As aulas para os alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal serão retomadas nesta segunda-feira (10/02/2020) em clima de preocupação e de luto. As 678 escolas abrem as portas para receber 460 mil estudantes seis dias depois de o professor do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 410 Norte, Odailton Charles de Albuquerque Silva, 50 anos, ter morrido por envenenamento com raticida.

Ainda sem um desfecho na história, a Polícia Civil investiga o caso. A instituição de ensino passou por perícia, dois aparelhos de servidores foram apreendidos e laudos são analisados. Enquanto o caso não é elucidado, a Secretaria de Educação (SEE-DF) e o Sindicato dos Professores (Sinpro) prepararam um esquema diferente para receber a comunidade escolar na 410 Norte.

Conforme antecipou o Metrópoles na última quinta-feira (06/02/2020), serão designadas equipes de apoio e acompanhamento, tanto para os professores quanto para os estudantes. Esse reforço será feito pela Coordenação Regional de Ensino, pela Subsecretaria de Gestão de Pessoas e pela Diretoria de Saúde ao Estudante. O Sinpro também tem atuado junto aos docentes.

“Os profissionais, que incluem pedagogos e psicólogos, entre outros, estarão na unidade acompanhando o primeiro dia de aula e dando suporte à equipe gestora no que for necessário. Durante a última semana, as equipes fizeram rodas de conversa com os professores da unidade e atendimento psicológico”, informou a pasta da Educação por meio de nota.

A função dos professores também deve ser normal neste primeiro dia de aula. Para suprir a falta de efetivos devido a algum motivo de afastamento, como férias, folgas, capacitação, atestado, entre outros, a Secretaria de Educação chamou 8,5 mil temporários. A quantidade é flutuante e depende da demanda da rede, tendo em vista que a contratação dos substitutos é feita por hora.

Investigações

Na semana passada, a Polícia Civil do Distrito Federal apreendeu dois aparelhos celulares de servidores do CEF 410 Norte. A medida faz parte de uma série de ações para apurar o envenenamento do professor Charles. Ele ficou cinco dias internado e morreu na última terça-feira (04/02/2020), no Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

“Vamos pedir uma série de medidas judiciais para ter acesso aos dados dos aparelhos”, afirmou o delegado-chefe da 2ª DP (Asa Norte), Laércio Rossetto, que comanda as investigações. Segundo áudios gravados pelo professor após passar mal, uma colega teria oferecido suco para ele.

As declarações do delegado Rossetto foram dadas ao Metrópoles na quinta-feira (06/02/2020), um dia antes de a reportagem revelar que, em áudio enviado a um amigo, Charles, como era conhecido, denunciou suposto esquema de “rachadinha” no CEF 410 Norte. Na gravação, o ex-diretor afirmou que levaria a denúncia para a Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto.

O docente se preparava para deixar o cargo de direção da unidade educacional e comentou que visitaria o colégio para se “acertar com o pessoal”. “Quinta-feira, eu vou lá na escola, fazer os acertos com o pessoal, passar extrato bancário, essas coisas que tenho que passar. Estou recolhendo uns documentos particulares para fazer uma denúncia formal na [Coordenação] Regional de Ensino”, diz.

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No áudio, o educador continua dizendo que a denúncia envolveria “um dinheiro” deixado por ele no colégio. “Eles [os superiores] nunca repassaram para mim. Seguraram o dinheiro e agora estão utilizando da forma como eles querem, contratando a empresa que eles querem também. Acho que está havendo ‘rachadinha’ lá”, comenta.

Segundo Charles, a acusação do esquema partiu de dentro da escola. “Andei conversando com os colegas e está havendo ‘racho’ de dinheiro, propina para beneficiar empreiteiros. Por isso que eu indiquei dois ou três empreiteiros lá e eles não aceitaram de jeito nenhum. Seguraram o dinheiro até agora em janeiro. Agora, está de vento em popa, liberando dinheiro à vontade lá. Então, vou fazer essa denúncia, vou recolher tudo que eu tenho de prova, de gravação, e vou arrebentar a boca do balão lá.”

O professor termina o áudio manifestando também o interesse de levar o caso à Justiça. “Vou botar no pau esse povo, comigo vai ser tudo na Justiça”, finaliza. Em nota, a Secretaria de Educação (SEE-DF) disse que vai aguardar as investigações policiais e a finalização do inquérito para se pronunciar.

Ouça o áudio: 

Nota da escola

A direção do CEF 410 Norte afirmou, em nota enviada à imprensa na sexta-feira (07/02/2020), que nenhum funcionário da escola serviu qualquer “substância líquida” a Charles.

“A única substância líquida que o professor Charles ingeriu no CEF 410 Norte foi água, o que o fez por vontade livre, colhendo-a na sala dos professores diante de outras pessoas que ali estavam”, diz o documento.

Ainda no comunicado, o colégio frisa que, no dia do episódio (30/01/2020), apenas alguns servidores terceirizados e educadores estavam na escola, para preparar as dependências que estavam em obras. “Não havia nenhuma reunião agendada entre a atual equipe gestora e o ex-diretor”, pontuou a direção.

O CEF 410 Norte também salientou que não houve “nenhum processo de transição” entre a administração de Charles e a da servidora escolhida como nova gestora da unidade. Em áudios enviados a amigos, o docente relata que desconfiava de “algo em sua bebida”.

Sobre a alegação, o centro de ensino foi enfático: “O professor Charles, em todo tempo que permaneceu na escola, aproximadamente duas horas, antes de passar mal, em nenhum momento ficou sozinho com a servidora apontada”.

Por fim, a direção assegurou ter realizado todos os procedimentos iniciais de socorro ao docente – ele começou a passar mal dentro da escola. O CEF 410 Norte não se pronunciou a respeito do argumento de Charles de que haveria um suposto esquema de “rachadinha” na unidade educacional.

Enterro

Na quinta-feira (06/02/2020), amigos e parentes se despediram do professor Charles. O enterro foi realizado no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul.

Em resposta à morte do educador, alunos da instituição estenderam uma faixa de “luto” na fachada do CEF 410. Profissionais do colégio afirmam “não haver clima” para continuarem com as atividades na escola, que passou a ser frequentada, também, por peritos da PCDF.

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