Auditores revelam que houve coação da Agefis na retirada de painel
Servidor que fez a primeira análise para a agência atestou que o Metrópoles tinha autorização, mas órgão "se insurgiu contra a decisão"

Depois de sofrerem pressão e ameaças, auditores decidiram denunciar o comando da Agência de Fiscalização do DF (Agefis) por se sentirem coagidos a agir a mando de interesses políticos em detrimento do que prevê suas atribuições funcionais.
Dois auditores representantes da categoria contaram que a direção da agência forjou um suposto processo para justificar a ação de retirada do painel digital do Metrópoles.
Eles apresentaram documento demonstrando que, no dia 23 de maio, o auditor responsável por avaliar a legalidade da documentação apresentada pelo veículo julgou que o portal detinha o devido licenciamento expedido pelo poder público.
No documento revelado pelos profissionais, o auditor escreve: “Decido anular o auto de notificação número D062751-AEU, de 16 de fevereiro de 2018, considerando que o meio de publicidade possui o devido licenciamento expedido pelo poder público”.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFVeja o documento com os trechos destacados e, logo abaixo, a íntegra:

Decisão Agefis by Metropoles on Scribd
Mas, no mesmo dia, foi iniciada a programação fiscal operacional para a remoção de engenhos publicitários. Na ocasião, a Agefis determinou que o painel do Metrópoles fosse retirado no prazo de apenas um dia.
Embora a diretora-presidente da Agefis, Bruna Pinheiro, tenha afirmado publicamente que se tratava de uma operação iniciada ainda em 2017, os auditores a desmentiram com um print do sistema interno, indicando que toda a movimentação começou no próprio dia 23.

A data é exatamente uma semana após o início de campanha publicitária veiculada no painel e assinada pelo SindSaúde, com conteúdo crítico ao governador Rodrigo Rollemberg.
“O colega auditor tinha detectado e atestado a regularidade de funcionamento do painel, mas a direção da Agefis se insurgiu contra a decisão que desagradava o governo e arrumou outra forma de proceder a retirada em um prazo nunca antes visto”, disse Eduardo de Paula.
Eduardo é auditor de atividades urbanas desde 2004 e, atualmente, preside o Sindicato dos Servidores Integrantes da Carreira de Fiscalização de Atividades Urbanas do Distrito Federal (Sindafis).
Eles esperavam uma decisão favorável à Agefis, mas isso não aconteceu. Nós temos grupos de WhatsApp específicos dos auditores. Lá, ficou bastante claro que os colegas estavam sofrendo ingerência, pressão e até ameaças. O que vimos nessa ação contra o Metrópoles foi uma carreira pressionada para atingir um único objetivo: o de derrubar o painel
Eduardo de Paula, presidente do Sindafis

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Ver todas“Mas isso não foi o suficiente, o que evidenciou uma orientação totalmente política e direcionada. Nossa carreira sai muito prejudicada com essa história. Nós não concordamos com esse tipo de atuação, de artilharia direcionada, míssil dirigido”, disse Carlos Augusto.
Segundo o auditor, os colegas que se envolveram diretamente no episódio temem retaliação: “Não estão com medo, não. Eles estão apavorados de tomar qualquer decisão que contrarie a atual chefia. Mas viemos aqui mostrar a cara, falar em nome do grupo, denunciar para que esses desmandos não se perpetuem”.
O servidor de carreira explica que existe uma rotina padrão nas ações da Agefis, mas que, neste caso, foi totalmente atropelada.
“Há uma metodologia que a gente segue de forma automática. No caso de uma notificação para remoção ou retirada, o prazo normal é de 20 dias. Mas, na ação específica contra o Metrópoles, ocorreu uma coisa inédita: notificação para retirar um engenho daquele tamanho no prazo de um dia. Isso é humanamente impossível. Mesmo com a estrutura do GDF, com bombeiros, policiais militares, demorou mais de três dias para derrubar o painel”, disse Eduardo de Paula.
Segundo os auditores, quem se arrisca a desafiar a direção sofre retaliações. “Aí, a pancada é grande. Sofrem processos administrativos, perseguição, mudança de local de trabalho, são escalados para trabalhar em lugares diferentes de onde atuavam antes”, ressaltou Carlos Augusto.
Por meio de nota, a Agefis afirmou que todas as ações do órgão “se fundamentam em preceitos legais e qualquer afirmação em contrário pretende apenas confundir a população do importante papel que a agência cumpre para a sociedade brasiliense coibindo abusos e ilegalidades”, informou.
Repercussão negativa
A ação da Agefis, em pleno fim de semana pós-feriado, despertou uma série de críticas à agência. O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, advogados, o senador Crtistovam Buarque (PPS-DF), deputados federais e distritais reprovaram a retirada do painel.
A censura foi criticada também por entidades que defendem a liberdade de expressão. A Federação Nacional dos Jornalistas, a Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF) e a Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, entre outras, condenaram a mordaça.
A atitude antidemocrática também mobilizou grandes jornais e publicações regionais. Sites e jornalistas que assinam colunas de renome se solidarizaram com o Metrópoles.



