Almir Evaristo é condenado a 29 anos de cadeia por feminicídio de Noélia

Os jurados acataram os qualificadores de feminicídio e dificuldade de defesa da vítima, condenado réu na integralidade das acusações

atualizado 27/11/2020 0:46

NoéliaReprodução/FAcebook

O Tribunal do Júri de Águas Claras condenou, na noite desta quinta-feira (26/11), Almir Evaristo Ribeiro a 29 anos, 1 mês e 15 dias pelo assassinato de Noélia de Oliveira Rodrigues. O corpo da vendedora foi encontrado um terreno no Assentamento 26 de Setembro (Vicente Pires), no dia 17 de outubro de 2019. No julgamento, que durou 14 horas, os jurados acataram os qualificadores de feminicídio e dificuldade de defesa da vítima, condenando o homem de 43 anos na integralidade das acusações. A sentença foi proferida às 23h34, pelo juiz Paulo Afonso Correia Lima Siqueira.

“Isso aí não vai suprir a falta dela. Nunca. A pena seria mais ou menos essa aí, está dentro dos modos legais, foram aceitas as duas qualificadoras, o feminicídio e dificuldade de defesa da vítima. Pelo menos a parte da Justiça do homem foi feita, mas não teremos ela de volta”, disse o irmão de Noélia, o advogado Dogival Guedes, após o acusado receber a pena.

A exposição do Ministério Público aos jurados destacou três pontos: que a vítima foi assassinada com um tiro no olho, com a arma bem perto do rosto, conforme provado pela perícia; que ela e o acusado mantinham um relacionamento extraconjugal, tese comprovada por fotos de Noélia usando lingerie encontradas no celular de Almir, provavelmente em um motel; e, por último, que ele passou pelo local do crime duas vezes na noite em que a mulher foi assassinada.

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Essa última parte foi evidenciada de duas formas. Primeiro, com o sistema de monitoramento de placas de veículos do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), conhecido como OCR. E também pela localização de GPS captada pelo aplicativo Google Maps, no celular do próprio acusado.

Com monitoramento da movimentação do carro de Almir, um Chevrolet Cruze prata, foi possível constatar que era comum o homem se encontrar com Noélia quando ela saia do expediente, no Brasília Shopping, onde atuava como vendedora.

No dia do crime, Almir, que trabalhava como operador de máquina na Cidade do Automóvel, fez o mesmo percurso. Entretanto, de acordo com a acusação, na ida para o trabalho, ele parou no local onde o corpo de Noélia viria a ser encontrado no dia seguinte. O mesmo aconteceu na volta, quando o MP afirma que houve o assassinato. Isso provaria que o crime foi premeditado.

“Ele se armou e foi com o objetivo de matá-la. Ele premeditou: parou antes no trajeto, parou num lugar que ele tinha estudado. Ele não encontrou essa arma no local. Portanto, são dois delitos que cabem aos senhores julgarem”, afirmou a acusação na sustentação oral.

Almir Evaristo foi condenado pela morte de Noélia de Oliveira Rodrigues

 

Além disso, as câmeras de segurança do shopping mostram que Noélia saiu na mesma hora que Almir chegou ao local, por volta das 22h10. Para o MP, esse é um indício que os dois deixaram juntos a Asa Norte em direção ao Sol Nascente, onde eram vizinhos.

Ao ser questionado sobre o fato de ter parado no local do crime no dia do assassinato, Almir usou do direito constitucional de permanecer em silêncio.

Na volta para casa, o celular do acusado registrou a seguinte movimentação: ele teria percorrido 8 km em 41 minutos, parou próximo ao local onde o corpo da vítima foi encontrado por 18 minutos e depois percorreu 13 km em 14 minutos, chegando em casa antes das 23h30.

O julgamento

Os advogados de Almir sustentaram, ao longo do dia, que não há provas suficientes para condenar o réu. Por isso, os defensores adiantaram que vão recorrer da sentença assim que a pena foi anunciada.

A principal linha de defesa é que o sistema de localização do Google Maps não é suficientemente preciso para comprovar que essa foi a trajetória do homem no dia do assassinato, ou que vítima entrou no carro dele quando se encontraram no shopping, já que “ninguém fotografou a Noélia no carro do Almir naquele dia”.

O réu não negou ter se encontrado com Noélia, confirmando que ela o chamou ao local de trabalho, pois precisaria de uma carona. No entanto, Almir afirmou que a mulher o dispensou após conseguir outra forma de voltar para casa.

A defesa diz ainda que não ficou comprovado que os dois mantiveram relação extraconjugal. As longas ligações de Almir e Noélia, algumas que chegaram a durar mais de quatro horas, segundo levantado nos autos, teriam sido um acidente: Almir esquecera de desligar a ligação, mantendo o contador da chamada rodando.

Mulher do réu volta atrás

No julgamento desta quinta-feira houve momentos de tensão e comoção. Em um deles, a esposa de Almir, Elen Cristina, negou o depoimento dado na delegacia, no dia em que foi ouvida pelos agentes da Polícia Civil do DF. Elen assegurou à Corte que o marido estava em casa descansando depois do trabalho, já às 22h30, e não às 23h30, conforme dito anteriormente aos policiais.

Quando o magistrado perguntou porque ela havia dado outra informação aos investigadores da 38ª Delegacia de Polícia (Vicente Pires) na época do crime, Elen afirmou que nunca tinha dito isso e que provavelmente a informação havia sido criada pelos policiais. Ao que o julgador cortou: “A senhora não tem obrigação legal de dizer a verdade, mas imputar crime a outras pessoas é denunciação caluniosa”. Elen pediu desculpas em seguida.

Outro ponto marcante foi quando a assistente de acusação Karen Letícia Sousa chorou ao falar sobre a insegurança a qual são submetidas as mulheres no Brasil. “Sinto com uma grande responsabilidade de estar nessa tribuna, principalmente como assistente de acusação, que é a defesa da vítima”, disse ela, com a voz embargada. A defesa protestou sobre a intervenção da assistente de acusação, alegando que não se pode pedir que se condene alguém com base na insegurança.

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