Abandonado em 2017, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha acumulou o maior prejuízo de arrecadação desde a sua reabertura, em 2013. De janeiro a novembro, a arena embolsou R$ 685.878,37 com os jogos e eventos feitos na praça desportiva. O valor, contudo, não cobre nem um mês dos gastos que a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) tem com o Mané: R$ 700 mil.

Nos 11 primeiros meses do ano, foram R$ 7,7 milhões em manutenção e mais R$ 1 milhão, referente a uma conta de água renegociada após a descoberta de um vazamento. O déficit apurado até agora é de R$ 8.014.121,63, importância que aumentará com as despesas de dezembro.

Durante toda sua operação, o estádio sempre ficou no vermelho. No ano passado, obteve R$ 1,7 milhão com jogos e espetáculos, e teve dispêndio de R$ 8,7 milhões – cerca de R$ 7 milhões de prejuízo. O cenário foi o mesmo em 2013, 2014 e 2015, o que motivou a Terracap a abrir processo de concessão do espaço à iniciativa privada, ainda em 2016.

De lá para cá, a situação financeira referente à arena se agravou. Um dos principais golpes no Mané Garrincha foi dado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pelos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro.

Em fevereiro, foi proibida a venda de mandos de campo para outros estados que não os de origem dos times. Nem mesmo a permissão para jogos da Primeira Liga e da Copa Sul-Americana mudou o cenário. Clubes e empresários negociando partidas preteriram o estádio de R$ 1,4 bilhão. Os motivos variaram desde o custo de aluguel até o desinteresse de dirigentes. Sem o futebol, o espaço perdeu sua principal atividade.

Editoria de Arte/Metrópoles

 

Água pelo ralo
Outro agravante para o balanço desfavorável de 2017 foi a conta milionária de água revelada pelo Metrópoles. Mesmo com o Mané Garrincha fechado, a tarifa de junho foi de surpreendentes R$ 2,2 milhões – valor reduzido para R$ 1 milhão, após acordo do governo, e parcelado em seis vezes.

O problema foi a abertura indevida de um dos registros que regula os reservatórios construídos na arena para armazenar água da chuva. Assim, em plena crise hídrica, foram desperdiçados 94,2 milhões de litros de água, quantidade suficiente para abastecer cerca de 20 mil pessoas durante um mês – o equivalente a 35 dias de torneiras funcionando para os moradores da Candangolândia.

Os shows internacionais também passaram longe da capital em 2017. O último de grande porte foi o do Guns N’ Roses, em novembro de 2016. Os brasilienses também ficaram saudosos com as vindas de Pearl Jam (2015), Paul McCartney (2014), Aerosmith (2013) e Beyoncé (2013). Estes dois últimos concertos, por exemplo, renderam à Terracap R$ 150 mil e R$ 165 mil, respectivamente.

Para o próximo ano, o cenário é melhor: há 18 eventos confirmados na arena multiuso. Destaque para o Fórum Mundial da Água, a segunda edição Campus Party e os shows, antecipados pelo Metrópoles, do tenor Andrea Bocelli e de Roger Waters, ex-Pink Floyd. O Brasiliense também mandará seus jogos de futebol no local. Em 2018, o clube disputará a Série D do Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil, o Candangão e a Copa Verde.

Concessão
Desde 2016, o Governo do Distrito Federal (GDF) tem patinado na concessão da ArenaPlex, complexo esportivo formado pelo Mané Garrincha, o Ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Cláudio Coutinho. O Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) andou a passos de tartaruga até o fim deste ano, quando ganhou corpo. A perspectiva é de sair do papel até abril de 2018.

Antes, porém, a Terracap, a Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) precisam resolver as últimas questões relativas ao uso de ocupação do solo – o projeto de lei que trata do tema será enviado à Câmara Legislativa nos próximos meses. A assinatura de contrato está condicionada à aprovação dos parlamentares.

Fora as questões do tombamento, o seguro contratual que prevê reparos no Mané é o mais recente entrave para o chamamento público, conforme revelou o Metrópoles. Intermediária do contrato, a Companhia Urbanizadora de Brasília (Novacap) tem cobrado na Justiça as reformas necessárias ao espaço.

Construtor da arena, o Consórcio 2014 (formado pelas empreiteiras Andrade Gutierrez e Via Engenharia) tem se negado a fazer os reparos. Caso não consiga imputar responsabilidade a essa associação – que ganhou o noticiário pelas mazelas investigadas na Operação Panatenaico, a qual apura desvios de recursos na construção da praça desportiva –, caberá à Terracap gastar ainda mais com o templo do futebol.

Apresentação Audiência Pública Terracap – ArenaPlex by Metropoles on Scribd

 Os rolos e os clássicos do Mané