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Imersa em uma grave crise financeira, a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) vai ter de equacionar mais um problemão. A conta de água e esgoto do Mané Garrincha referente a junho foi de impressionantes R$ 2.266.757. O valor é 67 vezes maior que a média de consumo da arena nos outros meses.

Somente essa fatura cobrada pela Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) supera em três vezes o gasto mensal de manutenção do lugar: R$ 700 mil. Despesa altíssima, ainda mais se levar em conta a baixa frequência de eventos no estádio. O último jogo no Mané foi em 6 de maio, há mais de dois meses.

Em plena seca e no meio da pior crise hídrica da história do Distrito Federal, na qual o brasiliense foi obrigado a fechar as torneiras, a fatura do Mané aponta um gasto de 94.295m³, ou 94,2 milhões de litros de água. Em meses anteriores, o consumo médio da arena foi de 1.421m³, ou 1,42 milhão de litros. Para se ter ideia, um morador do DF gasta, também em média, 4.590 litros a cada mês.

Vazamento
A Terracap e a Caesb desconhecem o motivo de a conta ter atingido esse valor exorbitante, mas desconfiam de um vazamento de água. Ambos os órgãos tratam o tema com cautela e apuram as possíveis causas. Vencida em 20 de junho, a fatura, segundo a companhia, ainda não foi paga. Em nota, a Terracap disse que aguarda um relatório da Caesb para se posicionar.

O possível vazamento de água no estádio impacta a crise hídrica enfrentada pelos moradores do Distrito Federal, que começou no segundo semestre do ano passado. Os dois reservatórios que abastecem a capital – Descoberto e Santa Maria – estão com menos de 50% da capacidade total. Em função disso, os brasilienses precisam enfrentar o racionamento desde janeiro deste ano. E medidas mais duras podem ser adotadas no período de seca.

O alto consumo de água no Mané chama ainda mais atenção se considerada a situação atual da arena: ela está ociosa. O estádio recebeu 20 jogos neste ano, sendo apenas três clássicos. Além de Flamengo x Grêmio e Flamengo x Vasco, a final do Candangão, entre Brasiliense e Ceilândia no dia 6 de maio, foi um dos destaques da arena em 2017. Não há mais jogos de futebol agendados para este ano no Mané Garrincha.

Duro golpe


A tarifa de R$ 2,2 milhões é um golpe ainda mais duro nas finanças da Terracap, que anunciou o corte de funcionários e outras medidas para tentar equilibrar as contas. Além de passar a tesoura em três das sete diretorias, a estatal quer acelerar o Plano de Demissão Incentivada (PDI), em curso desde novembro de 2016.

Até dezembro, a agência espera que mais 100 funcionários concursados sejam desligados, totalizando 199 demissões. O enxugamento no quadro de pessoal, segundo cálculos da própria empresa, pode implicar em uma economia de R$ 25 milhões na folha salarial de 2017. Nos demais anos, esse valor pode subir para R$ 57 milhões a cada 12 meses.

O plano, contudo, pode naufragar. Tudo por conta das dificuldades que a Terracap tem encontrado para arcar com seus compromissos financeiros. “Eles não têm recursos e, por isso, adiaram o PDI”, conta um servidor, que prefere não se identificar.

A estatal prometeu pagar um salário para cada ano trabalhado mais o plano de saúde por cinco anos aos funcionários demitidos pelo PDI. De acordo com o Sindicato dos Servidores e Empregados da Administração Direta (Sindser), 21 profissionais teriam sido barrados após o pedido de adesão. “Quem entrou, entrou. Quem não entrou, não entra mais. Eles não estão autorizando novos pedidos”, resume outro empregado.

Balanço negativo
A ideia é reduzir custos e aumentar a receita por meio de ações como descontos de 25% para pagamento à vista de imóveis, renegociação de dívidas e vendas de lotes em áreas como o Setor Noroeste.

A empresa amargou, no fim de 2016, prejuízo de R$ 255 milhões e tem um rombo de R$ 1,5 bilhão deixado por irregularidades nas obras do Mané Garrincha. De outro lado, as despesas da estatal seguiram na direção contrária: saltaram de R$ 623,3 milhões, em 2015, para R$ 637 milhões, no ano seguinte.


Os rolos e os clássicos do Mané: