A dor da espera: DF tem a maior taxa de desaparecidos do Brasil

Estudo feito por Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, desde 2007, capital lidera ranking de sumidos a cada 100 mil habitantes

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 19/10/2019 17:23

A singular apreensão de não saber onde um parente está. Entrar em contato com outros familiares, registrar ocorrência na delegacia, distribuir cartazes na vizinhança e, por fim, esperar. O Distrito Federal é líder no Brasil em repetir tal roteiro. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desde 2007, a maior média de pessoas desaparecidas a cada 100 mil habitantes se concentra na capital do país. Só em 2018, por exemplo, a taxa ficou em 84,5 sumiços.

Em números absolutos, a situação é ainda mais assustadora. Só de janeiro a agosto de 2019, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), foram cerca de sete familiares ou amigos indo a delegacias do DF todos os dias para protocolar a falta de notícias de alguém. São 1.819 casos, sendo que 238 permanecem em aberto.

Ainda conforme a SSP-DF, 27,6% das ocorrências de 2018 foram resolvidas dentro das primeiras 24 horas após a comunicação do fato. Porém, 11% delas continuam como “não localizadas”.

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Um dos casos que entram nessa estatística de não encontrado, há sete anos, é o de Artur Paschoali, que sumiu em 20 de dezembro de 2012. Ele viajava pelo distrito de Santa Teresa, no Peru. O jovem brasileiro trabalhava em um restaurante local, quando parou de dar notícias. Apesar de a investigação estar a cargo da polícia do país vizinho, uma ocorrência foi registrada no Distrito Federal. Sem ter contato com o filho desde então, Wanderlan de Souza Vieira, pai do estudante da Universidade de Brasília (UnB), diz que ainda não perdeu as esperanças. “Estou aguardando juntar mais dinheiro para voltar ao Peru e retomar as buscas”, afirma.

Dinheiro que, segundo Wanderlan, se esgotou nos três anos em que foi reiteradamente ao país em que o filho sumiu. “Cada viagem de 45 dias custa R$ 30 mil. Eu precisava fazer isso. Pois, se dependesse só da polícia peruana, não conseguiria nada. Rodei aquele país inteiro. Tive que fechar minhas duas empresas e estou trabalhando como motorista de aplicativo agora”, relata.

Pistas

A única notícia que ele conseguiu, em todos esses anos, foi por meio de uma repórter peruana. “Ela me disse que o Artur estava em poder do grupo Sendero Luminoso [organização de extrema-esquerda criada na década de 1960] e tinha sido vendido. Ele estaria sendo forçado a trabalhar em tradução de inglês, português e espanhol”, explica.

Para Wanderlan, o pior de tudo é a sensação de acordar todos os dias e não saber se o filho está vivo ou morto. “É algo que não desejo a ninguém, mas também é um sentimento misto. Sei que fiz tudo o que era possível: gastei tudo o que tinha, falei com religiosos, políticos e traficantes, e ainda sofri três atentados. No entanto, ainda tenho esperança de que isso vá se resolver e, se surgir alguma oportunidade, irei atrás novamente”, conta.

Entre as histórias ainda sem desfecho está a de Gisvania Pereira dos Santos Silva, 34, desaparecida desde 6 de outubro de 2018. De acordo com as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o último registro que se tem da mulher com vida foi feito por câmeras de segurança de um posto de gasolina em Sobradinho, região onde ela morava com os pais e a filha de 15 anos.

Ao Metrópoles, Gislene Pereira dos Santos (foto em destaque), 36, irmã de Gisvania, diz que a família “não vive desde o sumiço” da mulher. “Tem sido um verdadeiro filme de terror. No mês que vem, o desaparecimento dela completa 11 meses, e tem sido tudo muito difícil: comemorar o aniversário dela sem ela; o da minha mãe, a mesma coisa. São 11 meses sem vivermos direito”, desabafou.

Quanto mais rápido registrar, melhor

No Distrito Federal, a busca por sumidos é realizada pela Seção de Localização de Pessoas Desaparecidas, sob responsabilidade da Divisão de Repressão a Sequestros (DRS) da PCDF. Conforme conta o chefe do núcleo, Reinaldo Miranda, o trabalho é facilitado quando o registro é feito de maneira rápida. “Não existe aquele mito de esperar 24 horas. Se houve quebra na rotina, é preciso comunicar. Demorou uma, duas horas, dentro da normalidade, para chegar em casa, por exemplo, já deve ir à delegacia”, orienta.

Segundo ele, não há uma maneira padrão para investigar casos de desaparecimento. Cada caso, a ver pelas características, é conduzido de uma forma. “Precisamos do máximo de explicações. Se é idoso, usuário de drogas… Isso aí que difere o que é um caso padrão e algo grave”, comenta. Procura de imagens em câmeras de segurança e rastreio do celular, no entanto, são recursos utilizados de forma recorrente.

De acordo com Reinaldo, o tipo mais comum tratado pela seção é a fuga do lar. “Muitos jovens saem de casa porque brigam com os pais”, lembra.

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Idade

Quando a pessoa desaparecida é localizada, a primeira coisa a ser observada é a idade. “Se for menor, não tem escolha. Pode voltar para casa ou vai para um abrigo. No caso de maiores de 18 anos, nós não podemos fazer muita coisa. Tivemos casos, aqui, em que a pessoa simplesmente cansou da vida e foi morar em outro lugar.”

Com relação às mais de 200 ocorrências ainda carentes de desfecho, Reinaldo explica: “Às vezes, a pessoa que sumiu volta para casa, e a família não vai até a delegacia para dar baixa. Então, tentamos fazer um acompanhamento sistemático”.

Sobre ser a unidade da Federação com a maior taxa de ocorrências registradas, o policial atribui isso ao nível de informação dos habitantes do DF. “É o esclarecimento. Quanto mais casos assim saem na mídia, mais as pessoas veem a importância de se ir até a delegacia”, aponta.

No intuito de evitar esse tipo de desaparecimentos, Reinaldo faz uma sugestão aos familiares. “Se for um idoso que tem algum problema de memória, por exemplo, é bom colocar uma pulseira nele com endereço e contatos. Se for um menino ou menina jovem, é melhor não tirar o celular dele ou dela. Na raiva, eles podem fugir sem um aparelho que ajude no rastreamento.”

Atendimento às famílias pode melhorar

O problema dos desaparecimentos, no entanto, vai muito além de apenas achar o sumido. Questões jurídicas, psicológicas e de saúde também atingem as famílias, e é esse o trabalho que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) faz com moradores de São Paulo e Fortaleza. “As necessidades são múltiplas, até dentro de um mesmo grupo. A necessidade de uma esposa não é a mesma de um filho. Os impactos de um fato como esse são diferentes”, conta a coordenadora das Atividades de Proteção do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Marianne Pecassou.

Observando esse problema, o CICV faz um trabalho em conjunto com as autoridades locais no intuito de minimizar os impactos dos desaparecimentos. “O que a gente tenta fazer é convencer o governo a dar atenção integral às famílias. Promovemos a criação de centros de referência, ajudamos na busca de ajuda, além de propor treinamento aos servidores para lidar com os parentes”, explica.

Para Marianne, que faz o trabalho no Brasil desde 2014, já houve muita evolução no tratamento desses casos. “No começo, ninguém falava ou se preocupava. Aos poucos as coisas vão avançando. Um exemplo, no nível federal, foi a aprovação da Lei de Busca de Pessoas Desaparecidas, que pretende criar um cadastro nacional de pessoas nessa situação”, conta.

Confira a lei na íntegra:

LEI Nº 13.812, DE 16 DE MARÇO DE 2019 by Metropoles on Scribd

 

Ministério Público já busca ajudar

Em setembro deste ano, o Ministério Publico do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) instituiu o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid). Ele tem a atribuição de coletar informações sobre pessoas desaparecidas, vítimas de crimes ou não, registrá-las no Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (Sinalid), organizado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, e promover ações de busca e identificação de desaparecidos.

Segundo o MPDFT, a intenção é promover ações integradas que fomentem a melhoria na busca e identificação de pessoas desaparecidas, pontuando ser o primeiro cadastro nacional e integrado do país, mas sem entrar em conflito com as investigações da Polícia Civil.

No Brasil, o Sinalid possui mais de 6 mil casos ativos registrados. Desde o lançamento, no Distrito Federal, foram registrados 16 casos de desaparecimento. Nesse início, esclarece a instituição, o foco foi estabelecer parcerias com órgãos que possam auxiliar a definir as rotinas de trabalho que serão adotadas.

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