Rodrigo França

Justiça parcial: o sistema acata a ascensão, mas não a permanência

Juiz substituto, Robson José dos Santos foi o primeiro magistrado negro aprovado por cotas no TJ-RO

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Divulgação
Robson José dos Santos
1 de 1 Robson José dos Santos - Foto: Divulgação

A demissão do juiz substituto Robson José dos Santos, em Rondônia, apontado como o primeiro magistrado negro aprovado por meio de cotas no Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ-RO), ultrapassa o campo disciplinar e reacende um debate mais amplo sobre o ambiente institucional dentro do Judiciário estadual. O caso ganha ainda mais repercussão ao ser inserido em um contexto recente do próprio TJ-RO.

Em 2022, a Corte abriu uma investigação para apurar a existência de um grupo com manifestações de cunho racista formado por servidores. À época, a apuração foi determinada após a aprovação de uma resolução que estabeleceu política de cotas raciais, reservando 50% dos cargos comissionados e funções gratificadas para pessoas pretas ou pardas. A medida, proposta pela presidência do tribunal, tinha como objetivo promover maior igualdade dentro da estrutura do Judiciário.

Quando um magistrado alega que o próprio processo que levou à sua demissão foi conduzido com racismo, o silêncio institucional não é apenas omissão; é cumplicidade. A recente demissão do juiz substituto Robson José dos Santos pelo Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ-RO) não é um fato isolado, mas um sintoma de uma patologia crônica que corrói as estruturas do Estado brasileiro. O primeiro magistrado negro aprovado por cotas no TJ-RO, um ex-vendedor de pipoca que ousou atravessar a porta da “casa grande”, agora se vê defenestrado por um sistema que, historicamente, tem dificuldade em enxergar pessoas pretas em posições de poder.

A ironia é palpável e dolorosa. O mesmo TJ-RO que, em 2022, abriu investigação para apurar um grupo racista de servidores e instituiu cotas raciais, agora protagoniza a queda de seu pioneiro. A narrativa oficial fala em “assédio moral” e “arrogância”. No entanto, é imperativo questionar: quem teve essa sanção tão extremada no Judiciário brasileiro?

Enquanto há juízes que cometem crimes graves, até mesmo homicídios, e são “punidos” com aposentadorias compulsórias e confortáveis, o rigor da lei recai com peso desproporcional sobre o magistrado negro. A punição corriqueira destinada as pessoas negras é a humilhação pública, a condenação antecipada e o rigor seletivo da lei.

Do ponto de vista jurídico, a alegação de discriminação racial em um processo disciplinar é de extrema gravidade. Se comprovada, configura vício insanável que compromete a validade de todo o procedimento, abrindo caminho para contestação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A defesa de Robson José aponta para uma condução viciada, onde até mesmo a escolha de ser chamado pelo seu nome social, José, foi alvo de escrutínio em um “relatório complementar”. Pior ainda: o parecer de uma psicóloga negra, com ampla experiência na relação entre racismo e psicologia, foi sumariamente ignorado. O tribunal preferiu adotar sua própria narrativa, desqualificando análises técnicas que não corroboravam com a condenação pré-estabelecida.

O caso de Robson José nos obriga a confrontar a natureza do racismo estrutural. Não se trata apenas de atos individuais de preconceito, mas de uma engrenagem institucional desenhada para manter hierarquias. Como bem apontam os críticos, o racismo estrutural opera lembrando constantemente aos cidadãos negros qual é o “seu lugar”. Quando a branquitude institucional se depara com um ex-pipoqueiro na magistratura, o recado silencioso e perverso é claro: “lembre-se de onde você veio e, principalmente, qual seria o lugar que, para nós, você nunca deveria ter ousado ocupar”.

Se uma sociedade é racista, suas instituições inevitavelmente o serão. O Judiciário brasileiro, majoritariamente branco e elitista, não está imune a essa regra. A subjetividade racista permeia as decisões, as avaliações de conduta e, sobretudo, a dosimetria das punições. Não estamos aqui para defender incondicionalmente os erros de qualquer pessoa, mas para exigir o direito à presunção de inocência e a um julgamento justo, livre da lente distorcida do preconceito.

A demissão de Robson José dos Santos não é apenas a queda de um juiz; é um lembrete cruel de que a toga não blinda a pessoa negra do racismo. É um chamado à reflexão crítica sobre quem julga os juízes e com quais critérios. Até que o Judiciário enfrente seus próprios demônios estruturais, a balança da Justiça continuará pendendo perigosamente para o lado da branquitude, transformando julgamentos morais em puro suco de racismo servido diariamente no cardápio brasileiro.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?