Rodrigo França

Chefes do crime não sobem o morro, descem de helicóptero na Faria Lima

O verdadeiro chefe do tráfico não mora na laje. Ele mora na cobertura com vista para o mar ou na mansão no Morumbi

atualizado

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VISTA AEREA DA FARIA LIMA CORAÇÃO DO MERCADO FINANCEIRO E DAS FINTECHS SUSPEITAS DE FRAUDES E ELO COM PCC - METRÓPOLES
1 de 1 VISTA AEREA DA FARIA LIMA CORAÇÃO DO MERCADO FINANCEIRO E DAS FINTECHS SUSPEITAS DE FRAUDES E ELO COM PCC - METRÓPOLES - Foto: Reprodução

Dizem que o crime nasce no beco, na viela, no barraco. Mas é mentira conveniente. No morro não se planta cocaína, não se cultiva maconha, não se fabrica metralhadora. A favela não tem laboratório químico, não tem indústria de armas, não tem banco que faça lavagem milionária. Ainda assim, é ali que a polícia invade, é ali que os noticiários criminalizam, é ali que a sociedade aponta o dedo e decide onde está o mal.

O jovem negro de cordão de ouro, boné na cabeça e fuzil na mão é tratado como o grande vilão. Mas a engrenagem é mais profunda. Esse jovem é usado, empurrado, manipulado como escudo humano de um sistema que sempre soube muito bem se proteger. A morte dele não abala as estruturas. Serve, no máximo, para confirmar o preconceito de uma sociedade que precisa de um inimigo visível, fácil de culpar, para continuar fingindo que o verdadeiro crime é obra apenas da periferia.

O verdadeiro chefe do tráfico não mora na laje. Ele mora na cobertura com vista para o mar ou na mansão no Morumbi, transita em carros blindados de luxo, veste terno de corte europeu. A conta dele não está no caixa do boteco, está em paraísos fiscais. Ele circula com celular e advogados de renome. Ele não se esconde da polícia, ele se senta com políticos, empresários, financistas. Enquanto a juventude negra é sacrificada no front, os donos do negócio continuam intocados nos gabinetes da Faria Lima, brindando com whisky importado.

É confortável acreditar que o mal tem cor, CEP e sotaque. É conveniente reforçar que a violência nasce na quebrada, porque isso absolve os donos do colarinho branco. Mas a verdade é que os maiores criminosos deste país não são os jovens negros de chinelo e fuzil. Os maiores criminosos são os engravatados que nunca tiveram a favela como endereço, mas a usam como palco da sua guerra particular.

Enquanto o Brasil seguir repetindo esse roteiro, vamos continuar enterrando jovens, sem tocar nos verdadeiros mandantes. Porque aqui, o crime organizado circula entre nós com a chancela da respeitabilidade.

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