
Rodrigo FrançaColunas

Cotas são justiça, não esmola — e os dados provam isso
O número de estudantes negros e indígenas nas universidades federais cresceu mais de 160% desde que a Lei de Cotas foi sancionada
atualizado
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Era para ser uma noite de celebração. Um daqueles momentos em que o talento, o estudo e o trabalho duro se encontram para criar beleza. Mas, no espaço onde o arquiteto Gabriel Rosa apresentava seu projeto na CASACOR São Paulo, o que se instalou foi o velho desconforto de sempre. Uma mulher branca, visitante do evento, interrompeu a calma com perguntas que, mais do que dúvidas, carregavam veneno. “Você é o arquiteto?”, “Médico negro eu não deixo me atender.” Gabriel ouviu calado, como quem já viveu aquele roteiro outras vezes. Não era sobre ele. Era sobre o racismo que insiste em não se disfarçar nem quando a elegância dos ambientes tenta encobri-lo.
Foi então que ele decidiu registrar. Não só para si, mas para muitos outros que vivem o mesmo tipo de violência em silêncio. O vídeo rodou o país. E como sempre acontece quando um negro ocupa um lugar que historicamente lhe foi negado, reacendeu o debate sobre cotas raciais. Ainda há quem repita que cotistas não têm mérito, não estudam, não acompanham. Que são “favores” e não reparações. Mas os dados mostram outro caminho, bem mais real do que as suposições preconceituosas.

Desde que a Lei de Cotas foi sancionada em 2012, o número de estudantes negros e indígenas nas universidades federais cresceu mais de 160%. Se antes esses espaços refletiam majoritariamente uma elite branca urbana, hoje eles já começam a se parecer mais com o Brasil real. Um estudo da UFMG apontou que cotistas têm desempenho semelhante — e, em alguns cursos, até superior — aos não cotistas. Além disso, apresentam taxas de evasão mais baixas e estão entre os que mais valorizam a experiência universitária.
Outro levantamento, da Unesp, demonstrou que os alunos cotistas não apenas acompanham o ritmo acadêmico, como também enriquecem os espaços com perspectivas múltiplas, repertórios diversos e inteligências muitas vezes invisibilizadas pelos filtros do vestibular tradicional.
Em 2019, o IBGE registrou que, pela primeira vez, a maioria dos estudantes de instituições públicas era formada por pessoas negras. Não é coincidência. É resultado.
Quando um jovem negro entra numa universidade, não entra só por si. Ele carrega junto uma história de apagamentos, de exclusões, de violências. Mas também leva esperança, potência, saberes. Democratizar o acesso à universidade não é apenas permitir entrada. É reconhecer que o Brasil não pode continuar sendo um país onde só alguns têm direito ao sonho. O que as cotas fazem é abrir janelas. E quando abrimos janelas, o mundo entra.
Num país onde a elite ainda se incomoda ao ver um negro com crachá de arquiteto, médico, professor ou cientista, a luta por ações afirmativas não é só por uma vaga. É por dignidade. Por reparação. E por um futuro em que o espanto não seja mais a cor de quem está ali, mas a beleza do que construiu com suas próprias mãos.

Gabriel Rosa não se define apenas pelo que denunciou, mas principalmente pelo que constrói. Aos 22 anos, tornou-se o arquiteto mais jovem a integrar a CASACOR São Paulo, levando para o centro da cena um olhar que mistura sensibilidade, ancestralidade e sofisticação. Seu escritório, fundado por ele mesmo, já é referência por unir arte, moda e design em projetos que não apenas abrigam pessoas, mas contam histórias. Premiado, respeitado e requisitado por grandes marcas e instituições, Sua existência e excelência são, por si, a resposta mais elegante e definitiva às ofensas que insistem em chegar.
Aliás, antes que eu me esqueça: pesquisem.
As primeiras cotas no Brasil não foram para negros, e sim para europeus pobres que o Estado resolveu acolher. Meritocracia? Nunca existiu neste país.
