
Rodrigo FrançaColunas

Zezé Motta em horário nobre, no dia de Tereza de Benguela
Zezé Motta voltará às telas no comando de novo programa em data simbólica para a luta das mulheres negras
atualizado
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Hoje, eu escolho não falar das dores que atravessam o Brasil, sobretudo quando o recorte é racial. Hoje, eu quero celebrar. Zezé Motta terá o seu programa.
Zezé Motta não apresenta um programa. Ela convoca uma celebração ancestral. Não é sobre televisão, nem sobre entretenimento. É sobre memória, dignidade e futuro. No Especial Mulher Negra 2025, transmitido pelo canal E! Entertainment no dia 25 de julho, data simbólica para a luta das mulheres negras, Zezé costura, com a delicadeza de quem sabe a importância de cada ponto, uma narrativa de beleza, resistência e afeto.
A estreia do programa no 25 de julho não é casual. É proposital. É político. Celebra-se o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola do século 18 que, mesmo sem ter nome em livro didático, ousou liderar, resistir e comandar seu povo com sabedoria. É também o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Uma data que ainda não está nas vitrines das lojas, mas que pulsa nos corações de quem entende que viver, para mulheres negras, é também uma forma de luta.
O cenário escolhido não é apenas belo. É emblemático. O Museu Afro Brasil Emanoel Araújo abriga, entre suas paredes, a história de um povo que construiu este país sem nunca ter tido seu devido reconhecimento. É ali que Zezé se encontra com Aline Wirley, Karol Conká, Luedji Luna e Daiane dos Santos, todas mulheres que, como ela, abriram e abrem caminho onde havia mato fechado. Cada uma traz suas próprias feridas, mas também sua cura. Falam de crise, de beleza, de maternidade e do legado que sonham deixar para os que virão.

Esse encontro, dirigido por Clara Anastácia, é atravessado por músicas, conversas, depoimentos e gerações que dialogam. Estão ali Cíntia Ébano e Safyra Motta, filha e neta de Zezé. Também estão Alaíde Costa, Leci Brandão, Ludmilla, Gabriela Loran, Lais Ribeiro e Lívia Sant’Anna Vaz. Nomes diferentes, trajetórias únicas, mas que compartilham a mesma missão: existir sem pedir desculpas.
Zezé Motta sempre soube disso. Desde seus primeiros passos no teatro e na música, ela entendeu que ocupar o palco é disputar narrativas. Não por vaidade, mas por necessidade. Sua presença muda o jogo. Em um país que por muito tempo confinou mulheres negras aos papéis de empregadas, Zezé foi Rainha, foi protagonista, foi farol.
Mais do que falar de sua própria trajetória, neste especial, ela acolhe outras trajetórias. Ou melhor, ela costura todas elas, fazendo com que se tornem uma tapeçaria generosa e orgulhosa da negritude. Um gesto que carrega o DNA de Tereza de Benguela, que também soube unir forças, articular saberes, forjar uma comunidade resistente dentro do quilombo do Quariterê.
É importante repetir: esse não é um programa. É um ato. É uma ode às mulheres negras que seguram o país com mãos calejadas e alma viva. É também uma provocação para a indústria audiovisual, que historicamente ignorou essas histórias. Nessa produção, há um recado claro: não dá mais para fingir a existência.
Zezé Motta poderia descansar. Já deu ao Brasil o que muitos nem ousaram sonhar. Mas ela escolhe seguir. Com voz firme, coração aberto e olhar de quem sabe que ainda há muito a fazer. Seu legado é, acima de tudo, um convite. A nos levantarmos. A nos reconhecermos. A construirmos, juntas e juntos, um presente mais justo.
O Especial Mulher Negra 2025 não termina nos créditos finais. Ele reverbera. Ele planta. Ele ensina. E nos lembra, com a força de Tereza, que enquanto houver mulheres negras neste país, haverá luta, beleza e recomeço.
