Rodrigo França

As palavras que matam antes da bala

A jornalista Adriana Ramos foi presa após ataque homofóbico contra um homem em um shopping de São Paulo

atualizado

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Era por volta das 15h30 de uma segunda-feira em São Paulo. No shopping Iguatemi, um dos centros comerciais mais sofisticados da cidade, uma cena de violência se instaurava sem tiros, sem socos, sem sangue. Mas com gritos. Gritos de humilhação, de desprezo e de ódio. Gritos que atravessam a pele, atingem o peito e se espalham feito faca: “bicha nojenta”, “pobre”, “você não deveria estar aqui”.

Uma mulher branca, jornalista, sentada à mesa de um café, se descontrola diante da demora da conta. A agressividade cresce. Um rapaz tenta acalmar. Ela o ataca. Ele é gay. E, como tantos, vira alvo de uma homofobia ensandecida que salta da impaciência para a injúria. “Assassino”, ela grita. “Bicha”, ela cospe. A cena vira escândalo. Ganha vídeos, testemunhas, polícia. Ela é presa. Solta. E repete tudo de novo, com gosto. O sistema a solta, e ela continua. Como se nada fosse. Como se alguém como ele — como nós — não tivesse valor.

A tragédia da homofobia no Brasil não é feita só de números alarmantes, mas de cotidianos envenenados. Morremos antes da bala. Morremos na palavra. Morremos quando ouvimos “isso é mimimi”, “mas era só uma brincadeira”, “não foi com intenção”. A morte da população LGBTQIAPN+ no Brasil começa muito antes da notícia do assassinato. Começa nos olhares enviesados, nas risadas disfarçadas, nas demissões silenciosas, nas expulsões de casa, nas religiões que nos amaldiçoam e nos shoppings que nos silenciam. Começa nessas palavras que, malditas, viram destino.

A homofobia é um projeto — e ele tem autores, assinaturas e aplausos

A mulher que agrediu no Iguatemi se chama Adriana Ramos. É jornalista. Conhece as palavras, seus pesos e seus venenos. Disse com gosto cada uma delas. Disse mais uma vez ao sair da cadeia. Disse sabendo o que dizia. E não estava sozinha. Porque há quem aplauda. Há quem justifique. Há quem repita baixinho no almoço de domingo. Há quem vote acreditando nisso. Há quem financie a destruição do outro como se fosse liberdade de expressão. E, em nome dessa falsa liberdade, a sociedade se acostumou a ver corpos LGBTQIAPN+ como alvos: da chacota, do julgamento, da exclusão — e, muitas vezes, do assassinato.

Não é exagero. O Brasil continua sendo um dos países que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Segundo o Grupo Gay da Bahia, ao menos uma pessoa LGBTQIA+ é morta por dia no país, vítima de crimes de ódio. Mas a violência não está só nos extremos. Está nas entrelinhas. Nas escolas que calam. Nos shoppings que permitem. Na justiça que afrouxa. Nos algoritmos que recompensam o ataque com engajamento. O ódio virou entretenimento, virou clipe, virou meme. A dor virou cliques. E a vida virou estatística.

Precisamos olhar o horror de frente — e decidir não ser cúmplices

Adriana foi filmada. Presa. Solta. Voltou a ofender. O vídeo viralizou. O escândalo ficou maior do que o constrangimento. Mas até quando vamos apenas reagir? Até quando vamos assistir à homofobia com o mesmo tédio com que vemos a previsão do tempo? Até quando a justiça será apenas uma espera frustrada? Até quando a morte será anunciada nas palavras — e só denunciada no obituário?

A homofobia não é um problema do outro. É um problema nosso. De todos nós. É responsabilidade de quem cala, de quem relativiza, de quem ironiza. É preciso nomear o que aconteceu: um ataque homofóbico. É preciso lembrar que as palavras têm consequências. Que elas constroem realidades. E que toda vez que um “viado”, um “bicha nojenta” ou um “pobre” é dito com ódio em público, alguém em algum lugar começa a morrer por dentro.

Neste país, quem não é padrão, quem ousa amar fora da caixinha, dançar fora do ritmo, andar com outra estética, é visto como ameaça. Mas nós somos vida. Somos festa. Somos cultura. Somos resistência. E não vamos aceitar mais morrer de palavra em palavra.

É hora de dizer: essas palavras matam. E de exigir: basta!

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