Rodrigo França

A palavra nunca é só palavra. É também contexto, memória e poder

O respeito não se mede apenas pelas regras fixadas em gramáticas, mas pelo impacto real que o uso provoca.

atualizado

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Corte IDH condena Brasil por falhas em caso de discriminação racial - Metrópoles
1 de 1 Corte IDH condena Brasil por falhas em caso de discriminação racial - Metrópoles - Foto: Getty Images

Denegrir é só um verbo ou a reprodução de um racismo naturalizado?

A língua é viva, pulsa como a sociedade que a molda. Não basta que a etimologia ou a historiografia da palavra digam que determinada expressão não nasceu racista ou preconceituosa. Se um grupo humano sinaliza que essa palavra machuca, deprecia ou carrega uma carga violenta, isso deve ser respeitado. O respeito não se mede apenas pelas regras fixadas em gramáticas, mas pelo impacto real que o uso provoca.

É importante lembrar que quem estabeleceu o que é “correto” ou “aceitável” na língua foram, em sua maioria, os grupos hegemônicos. São os colonizadores, os donos do poder, aqueles que impõem suas normas como universais. No entanto, o idioma também se constrói no chão da rua, nas periferias, nas quebradas, nos quilombos urbanos e nas rodas de conversa. Ali nascem expressões que desafiam a norma culta e revelam a riqueza de uma coletividade que não se limita às paredes da academia.

A pesquisadora Lélia Gonzalez chamou esse fenômeno de pretuguês: a marca indelével da presença negra na língua portuguesa. É a prova de que o português falado no Brasil não é apenas resultado da colonização, mas também da resistência e da criatividade de quem foi colocado à margem. Esse falar não é “erro” nem “desvio”, é um patrimônio que nos lembra de que a língua é atravessada por disputas de poder.

Quando uma pessoa afirma que determinada palavra a fere, não cabe a ninguém contestar com dicionários ou manuais de gramática. A dor não precisa de validação acadêmica. A experiência é suficiente. Ignorar essa vivência é reproduzir violência, é insistir em naturalizar o que a própria vida já mostrou ser opressão.

Por isso, se queremos de fato pensar uma sociedade antirracista, precisamos começar pelo respeito ao modo como falamos e ao modo como nos nomeamos. A palavra nunca é só palavra. Ela carrega memória, identidade e futuro.

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