Rodrigo França

Entre o púlpito e a madrugada libidinosa

Um pastor que transformou a homofobia em capital simbólico acabou flagrado naquilo que condenava

atualizado

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Pastor – calcinha
1 de 1 Pastor – calcinha - Foto: Reprodução

Há uma distância enorme entre o altar e a rua. No altar, o pastor ergue a voz para condenar. Aponta os “desviados”, distribui o rótulo de pecador como quem lança pedras. Seu discurso é um escudo de ódio, um manual de exclusão. Mas, na madrugada, quando a cidade se recolhe, esse mesmo homem atravessa a fronteira que ele próprio traçou. Veste-se de quem sempre quis ser, coloca a peruca loira, a lingerie, experimenta a liberdade que nega aos outros. É ali, longe dos fiéis, que se permite viver o desejo que o púlpito proíbe.

Não é o desejo o problema. Desejar é humano, é impulso vital. A contradição também é humana, e todos nós a carregamos em diferentes graus. O que não pode ser normalizado é transformar a própria contradição em arma contra o outro. Esse homem que se escondeu atrás da bíblia não falava de Deus, falava de si. Quando bradava contra gays e travestis, não era sobre o “pecado do mundo”, era sobre o espelho que ele não suportava encarar.

A hipocrisia sempre encontra plateia. A sociedade brasileira é fértil em aplaudir quem promete pureza, desde que esse espetáculo garanta a ilusão da “família tradicional”. Só que as máscaras não resistem ao peso do desejo. Quem vigia, quem moraliza, quem diz que o inferno é logo ali, mais cedo ou mais tarde será engolido pelo fogo que tentou acender no outro.

O que vemos nesse episódio é a nudez da farsa. Um pastor que transformou a homofobia em capital simbólico acabou flagrado naquilo que condenava. E não, isso não deve ser motivo de deboche barato. O riso fácil nos faz esquecer a gravidade da coisa: enquanto ele alimentava seguidores com ódio, vidas foram feridas, adolescentes se sentiram culpados por existir, famílias se fragmentaram. O estrago é real.

Se abrirem essa caça às bruxas, preparem-se: não é um caso isolado. Outros nomes virão, homens que defendem a moral e os bons costumes, mas arrastam no silêncio desejos escondidos, vontades reprimidas. A “família tradicional” brasileira tem fantasmas guardados no armário, e muitos deles ainda pregam aos domingos.

Não escrevo contra o desejo. Desejo é chama, e a chama é vida. Escrevo contra a hipocrisia que fere, que se alimenta da mentira, que se veste de santidade para esconder as próprias cicatrizes. Escrevo porque não podemos mais permitir que quem mais grita contra seja, na verdade, quem mais esconde. O problema não é a calcinha, não é a peruca loira, não é a madrugada. O problema é o púlpito usado como arma, enquanto o coração bate ao ritmo daquilo que se tenta enterrar.

E talvez essa seja a lição mais dura: quem prega ódio contra o desejo alheio sempre está em guerra contra o próprio corpo que habita.

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