
Rodrigo FrançaColunas

Versão brasileira de Dreamgirls confirma a potência negra em musicais
Dreamgirls – Em Busca de um Sonho traz para o Brasil um dos musicais mais icônicos da Broadway
atualizado
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Há espetáculos que vão além da estética, que não se resumem ao virtuosismo técnico ou ao impacto visual. Eles se tornam acontecimentos culturais porque conseguem unir potência artística e representatividade de forma orgânica, sem que uma anule a outra. É o caso de Dreamgirls – Em Busca de um Sonho, que estreou no Teatro Santander trazendo para o Brasil um dos musicais mais icônicos da Broadway.
Não se trata apenas de uma montagem impecável, com música ao vivo, cenários grandiosos e coreografias precisas. Trata-se de um evento que reafirma algo que há tempos sabemos, mas que raramente se vê em grandes produções: quando artistas negros brasileiros recebem a oportunidade, eles não apenas cumprem o papel — eles redefinem o que entendemos por excelência.
Logo na primeira cena, somos arrebatados pelo trio protagonista formado por Letícia Soares, Samantha Schmütz e Laura Castro. Letícia, como Effie White, entrega um trabalho que transcende a interpretação. Sua voz poderosa não é apenas técnica, é alma exposta. Cada nota parece carregar histórias ancestrais, dores e triunfos que dialogam com quem está na plateia de maneira direta e profunda. Effie é personagem central, mas, nas mãos de Letícia, torna-se também símbolo de resistência e autoafirmação.
Samantha Schmütz, em Lorell Robinson, reafirma que comédia e dramaticidade podem coexistir sem hierarquia. Conhecida do grande público por seu trabalho na televisão e no humor, aqui ela expande a própria narrativa artística, demonstrando sensibilidade, presença cênica e uma escuta refinada que transforma suas cenas em diálogos vivos. Lorell ganha humanidade, graça e dignidade.
Laura Castro, como Deena Jones, constrói com delicadeza e firmeza a figura da estrela que ascende aos holofotes. Seu canto é limpo, seu gestual é preciso, e há um carisma natural que prende o olhar. Laura representa o que é raro de ver em jovens atrizes negras: espaço para brilhar em personagens complexas, longe de estereótipos e limitações.
Mas Dreamgirls não se sustenta apenas no talento do trio principal. Pelo contrário: o espetáculo se apoia em um elenco de 25 artistas que, juntos, formam um organismo pulsante, em que cada gesto, cada harmonia e cada expressão contam. É impossível não citar Toni Garrido e Robson Nunes, que alternam o papel de Curtis Taylor Jr., imprimindo interpretações distintas, mas igualmente magnéticas. E impossível também não reconhecer Reynaldo Machado, que no papel de Jimmy Early é pura energia e emoção. Seu Jimmy é divertido, exagerado, sedutor, mas também vulnerável. Há nele a complexidade do artista que já esteve no auge e hoje luta para manter viva sua relevância. Reynaldo transita com maestria entre o espetáculo e a intimidade, deixando claro que sua entrega é total.
O elenco ainda conta com Eduardo Silva, Abrahão Costa, Thales Cesar, Luci Saluzzi, Suzana Santana, Edyelle Brandão, Caroll Badon, Larissa Noel, Carol Roberto, Rafael Machado, Edmundo Vitor, Renée Natan, Isaac Belfort, Carol Botelho, Nicole Sacramento, Gabi Germano, Rafa L. e Jesus Jadh. Cada nome carrega histórias, formações e percursos que provam que talento não é exceção, é regra — o que falta é a chance de estar ali, à vista de todos.
O musical, dirigido por Gustavo Barchilon, com direção musical de Gui Leal e coreografias de Rafa L., respeita a obra original sem abrir mão de traduzir para o público brasileiro nuances que fazem sentido aqui. A música de Tom Eyen e Henry Krieger, com arranjos de Harold Wheeler, ecoa do gospel ao R&B, do soul ao pop, como se cada gênero fosse também um elo de ligação entre a experiência negra norte-americana e a nossa.

Assistir a essa montagem é mais do que apreciar um espetáculo tecnicamente irrepreensível. É testemunhar um respiro de justiça estética e simbólica. É perceber que, quando o palco central é ocupado por artistas negros em sua maioria, não estamos diante de um “gesto de inclusão”, mas de uma afirmação da própria história da música e do teatro.
Porque, no fim, Dreamgirls no Brasil não é só sobre um grupo de cantoras fictícias tentando alcançar o sucesso. É sobre artistas de carne e osso, que todos os dias precisam provar — para um mercado ainda desigual — que excelência negra não é exceção. E nesta montagem, prova é o que não falta.
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Este não é um texto de crítica teatral, mas de indicação com propósito.






