
Rodrigo FrançaColunas

A perpetuação histórica da violência sexual como ferramenta de poder
Jovem de 17 anos foi vítima de um estupro coletivo em Copacabana, no Rio de Janeiro
atualizado
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O cenário é um apartamento na Rua Viveiros de Castro, coração de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A data, 31 de janeiro de 2026. O que deveria ser um encontro entre dois adolescentes se transforma em uma sessão de tortura que durou cerca de uma hora e culminou no estupro coletivo de uma jovem de 17 anos. O caso, por si só, já seria mais um número trágico nas estatísticas da violência contra a mulher no Brasil. Contudo, os detalhes que emergem da investigação policial e das reações sociais pintam um quadro muito mais sombrio e complexo, que transcende o crime em si e expõe as feridas abertas de uma sociedade doente.
Os acusados não são figuras marginais, espectros anônimos da criminalidade urbana. Pelo contrário. São jovens da elite carioca: um estudante de universidade federal (UniRio), dois alunos de um dos mais tradicionais colégios do país (Pedro II) e um atleta de futebol com passagem por clubes conhecidos. Homens em formação, com acesso à educação e a privilégios que a maioria da população brasileira jamais terá. Este crime nos força a encarar a “banalidade do mal”, conceito cunhado pela filósofa Hannah Arendt ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto. Arendt argumentou que o mal não é necessariamente praticado por monstros sádicos, mas por pessoas comuns, burocratas que cumprem ordens sem refletir sobre a moralidade de seus atos. No caso de Copacabana, vemos jovens que, em vez de ordens, seguem um roteiro de masculinidade criminosa, uma cartilha de poder e dominação que transforma o corpo feminino em território a ser conquistado e violado.

A “comemoração” de um dos agressores, o menor de idade que articulou a emboscada, captada pelas câmeras de segurança, é o símbolo máximo dessa banalidade. O sorriso, os gestos de triunfo após a vítima deixar o apartamento, não são apenas um ato de deboche; são a expressão de uma cultura que dessensibilizou a violência, que a transformou em espetáculo, em troféu. É a celebração da própria desumanidade, a prova de que, para eles, a vítima não era uma pessoa, mas um objeto. Uma pergunta do menor à vítima, preocupado se a mãe dela a veria nua por causa das marcas e do sangramento, revela não um pingo de remorso, mas o receio da consequência, a preocupação com a própria imagem, não com o sofrimento infligido.
Historicamente, a violência sexual sempre foi uma ferramenta de poder e controle. Da Antiguidade, com o “direito” de posse sobre as mulheres dos inimigos derrotados, à Inquisição, que usava a violência sexual como forma de punição e humilhação, o estupro nunca foi apenas sobre sexo. É sobre poder. E o que vemos em Copacabana é a perpetuação dessa lógica em pleno século XXI, em um apartamento com vista para o mar. Os agressores, ao atuarem em bando, não apenas somam forças físicas, mas criam uma entidade coletiva que dilui a responsabilidade individual e potencializa a crueldade. É o efeito manada, a mesma dinâmica que explica linchamentos e massacres. O grupo se torna um monstro de muitas cabeças, onde cada um se sente menos culpado, pois a culpa é de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém.
As redes sociais, como um espelho distorcido da nossa sociedade, revelam o que a narrativa oficial muitas vezes esconde. Enquanto a maioria das reações é de justa indignação, surgem vozes que tentam relativizar o crime. A defesa de um dos acusados, por exemplo, alega que a vítima “sabia da presença prévia dos outros rapazes” e que teria havido “consentimento inicial”. É a velha e covarde tática de culpar a vítima, de transferir para ela a responsabilidade pela violência que sofreu. Essa narrativa, que encontra eco em comentários e posts, ignora o fato de que consentimento não é um cheque em branco. Ele pode ser retirado a qualquer momento. E, mais importante, não existe consentimento sob coação, violência e cárcere privado. A tentativa de transformar um estupro coletivo em uma “festa que deu errado” é um insulto não apenas à vítima, mas à inteligência e à decência humana.
Outro ponto que as redes e a apuração jornalística trouxeram à tona é que o comportamento predatório dos agressores não era um segredo. Colegas de escola relataram que eles “não respeitavam quando uma menina dizia não”. O silêncio que permitiu que esse padrão de comportamento continuasse impune é cúmplice. É o silêncio de uma sociedade que ensina os meninos a serem “pegadores” e as meninas a “se darem ao respeito”. É o silêncio de instituições que, muitas vezes, preferem abafar casos de assédio para proteger sua reputação. O Colégio Pedro II e a UniRio, ao afastarem os alunos, tomaram a atitude correta, mas a pergunta que fica é: quantas outras vítimas silenciosas podem ter cruzado o caminho desses jovens?
A operação policial, batizada de “Não é Não”, é um lembrete óbvio, mas necessário, em uma sociedade que ainda precisa aprender o significado da palavra. O caso de Copacabana não é um ponto fora da curva. É o sintoma de uma doença social profunda, que mistura privilégio de classe, misoginia estrutural e uma crise de valores que nos impede de enxergar a humanidade no outro. A “comemoração” do estupro é o nosso reflexo no espelho, quanto sociedade. E a imagem é insuportável.
