
Rodrigo FrançaColunas

De lares a elite: sistema não protege crianças da exploração sexual
A exploração sexual infantil no país vai dos lares às elites devido a um sistema que não foca na proteção das crianças
atualizado
Compartilhar notícia

Se investigar com seriedade, vai ficar evidente que o Brasil também possui a sua própria lista, assim como a que envolve Jeffrey Epstein, formada por pessoas influentes que se beneficiaram da vulnerabilidade de crianças e adolescentes e que seguem sem a devida responsabilização.
A prisão de Sérgio Antônio Lopes, 60 anos, piloto da LATAM Airlines, acusado de integrar uma rede organizada de exploração sexual infantil, e a detenção de uma avó suspeita de “vender” as próprias netas de 10, 12 e 14 anos, são fatos que expõem mais do que crimes isolados. Eles revelam a falência de um sistema social, político e cultural que mantém a violência sexual contra meninas e meninos como um problema tolerado, invisibilizado e institucionalmente combatido de forma insuficiente. O flagrante aconteceu dentro de um avião no Aeroporto de Congonhas em São Paulo, fruto da Operação “Apertem os Cintos”, conduzida pela Delegacia de Repressão à Pedofilia do DHPP. A investigação aponta que essa rede funcionava com divisão de funções, habitualidade e uso de ferramentas digitais para produção, armazenamento e compartilhamento de material ilícito por pelo menos oito anos.
O caso da avó, detida na região metropolitana de São Paulo sob acusação de fornecer acesso de suas netas ao piloto em troca de dinheiro, não é um desvio social, mas parte de um padrão que atravessa classes e territórios no Brasil. As vítimas identificadas, segundo as autoridades, chegam a uma dezena e incluem situações de aliciamento, favorecimento à prostituição, documentos falsos e coação reiterada.
Esses episódios surgem justamente quando Manas, filme brasileiro dirigido por Mariana Brennand, traz ao debate público a exploração sexual infantil no contexto de famílias e pequenas comunidades, deixo claro que essa violência não é uma exceção geográfica ou social, mas um fenômeno nacional. A obra coloca em foco a rotina de adolescentes vulneráveis diante de estruturas familiares, políticas públicas fracas e laços sociais que muitas vezes protegem agressores em vez de proteger vítimas. Manas não dramatiza apenas um enredo fictício; o filme articula uma realidade que atravessa o Brasil, expondo a exploração de meninas como consequência direta da ausência de respostas efetivas das instituições.
Os casos envolvendo o piloto e a avó, colocados lado a lado com a narrativa de Manas, nos forçam a um princípio simples: não há fronteira entre ficção social e realidade quando se trata da violência sexual contra menores no país. Essa violência está no interior de casas, em políticas públicas que não priorizam a proteção, em estruturas de poder que ignoram o sofrimento de crianças para preservar interesses convenientes. Não é coincidência que denúncias de abuso e exploração sexual infantil tenham aumentado dramaticamente nos últimos anos no Brasil. Dados oficiais do Ministério dos Direitos Humanos mostram crescimento de quase 195% nas denúncias, um número que não reflete apenas maior coragem das vítimas e familiares, mas também o avanço das redes criminosas que prosperam na invisibilidade institucional.
Não se trata apenas de indivíduos ou famílias desajustadas. O Brasil convive com um problema sistêmico que envolve normalização social do abuso, lacunas legais profundas e uma elite que historicamente protege privilégios e desvia o foco das responsabilidades coletivas. Há décadas, casos de pedofilia e exploração sexual infantil se estendem em correlações internacionais, como evidenciado por documentos que sugerem que figuras como Jeffrey Epstein e suas conexões buscaram no país terreno acessível para acessar garotas vulneráveis, inclusive aqui no território brasileiro. Um sinal de que a permissividade não é apenas endógena, mas reconhecida além de nossas fronteiras. Esses links entre o nacional e o transnacional amplificam o sentido de falha estrutural, não apenas de desvio individual.
Esse quadro é um confronto direto com a responsabilidade pública. Políticos negociam prioridades, mas a proteção de meninas e meninos não é tratada como pauta central em nenhuma agenda relevante. Instituições que deveriam atuar preventivamente mantêm respostas reativas. Agências culturais e educacionais ainda veem o tema com pudor, quando deveriam colocá-lo no centro da formação cidadã. Enquanto isso, partes da sociedade permanecem omissas, como se a violência sexual infantil fosse um problema distante, confinada a periferias ou a histórias de horror que não nos atingem de perto.
O contraponto entre fato e narrativa é inequívoco. Manas traz à luz o que a realidade confirma: as estruturas sociais, políticas e legais do Brasil ainda tratam a exploração de menores como externalidade indesejada, não como emergência permanente. A detenção de um piloto de companhia aérea respeitada e de uma avó em troca de netas não pode ser lida como aberrante isolado. Esses eventos são sintomas de um sistema que não protege crianças, que não responsabiliza efetivamente criminosos e que, em muitos casos, reproduz negligência institucional.
O Brasil precisa romper com a complacência. É hora de tratar a violência sexual infantil como prioridade nacional, com políticas públicas robustas, respostas legais rigorosas, responsabilização clara de todas as partes envolvidas e mobilização social que não apenas denuncie, mas transforme a tolerância histórica em ação concreta.
Se todos assistissem o filme Manas, entenderiam que poucos lares estão realmente protegidos e que poucas crianças estão defendidas de um dos crimes mais abjetos praticados no país. A violência sexual contra meninas e meninos não é um desvio distante, mas uma realidade próxima e sustentada pela omissão de instituições, pela conivência silenciosa de parte da sociedade e por estruturas que continuam falhando em garantir o mínimo, que é a segurança da infância.
